A influência dos robôs nas eleições, por Antônio Augusto de Queiroz

Conquista da civilização, novas tecnologias também reforçam guerra suja na corrida política, explorando medo e negação do eleitorado 
 
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Agência Brasil
 
Jornal GGN – Os paradigmas eleitorais foram, definitivamente, rompidos nas eleições de 2018. Até antes deste pleito, o que era decisivo para a eleição de um candidato se resumia a: melhor financiamento, maior tempo de rádio e televisão, militantes de ruas e maiores e melhores palanques. 
 
Mas, o que vimos foram partidos e candidatos com poucos recursos, a exemplo do PSL e Novo, obterem desempenho eleitoral superior a Geraldo Alckmin e seu partido, o PSDB, e Eunício Oliveira, um dos principais caciques do MDB e presidente do Senado, não reeleito pelo Ceará. 
 
Os fatores responsáveis por esse rompimento são as redes sociais e os robôs na disseminação de propagandas eleitorais, inclusive emulando “diálogos” com os internautas. A análise e de Antônio Augusto de Queiroz no artigo “O papel dos robôs e das redes sociais nas eleições”, publicado nesta quinta-feira (25) no Congresso em Foco. 
 
As mídias digitais dispensam o investimento em pessoas para a distribuição de panfletos nas ruas, com capacidade muito maior de disseminação e direcionamento de mensagens, reforçando pontos de vistas. Pelo mesmo motivo, a contratação de cabos eleitorais se tornou desnecessária, uma vez que, por meio da transmissão ao vivo, o candidato consegue se comunicar, em tempo real, com o eleitorado. 
 
“Ou seja, a tecnologia passou a ter papel fundamental nas eleições, inclusive com a redução drástica dos custos de campanha. Se for empregada também a inteligência artificial, esse potencial de influência se amplia ainda mais, direcionando mensagens para grupos específicos de potenciais eleitores. É o novo mundo da era digital”, destaca Queiroz.
 
Ele reforça que o acesso aos meios de troca de informações, via internet, são uma conquista da civilização: “Elas contribuem grandemente para democratizar e agilizar a comunicação de baixo custo entre as pessoas”. Mas, está trazendo consigo um importante problema: a potencialização da guerra suja nas eleições, lembrando que a experiência não é unicamente brasileira.
 
“Trata-se, na verdade, de um movimento que veio de fora para dentro, e que já foi largamente praticado na Inglaterra na campanha do Brexit (saída dos Ingleses da União Europeia) e na eleição do presidente norte-americano, Donald Trump. O meio é o mesmo – as redes sociais – e as mensagens têm o mesmo formato ou padrão, sempre com forte conteúdo emocional, enorme carga de medo e de negação”.  
 
O mecanismo tem se aproveitado da população cada vez mais insegura com as instabilidade econômica e social, em andamento em várias partes do mundo. No caso brasileiro, Queiroz analisa o aumento do papel das redes sociais, nesse sentido, desde as jornadas de junho de 2013, quando os cidadãos brasileiros mostraram-se não “mais dispostos a aceitar como ético, legítimo e sustentável eleger seu próprio algoz, alguém que retire direitos ou simplesmente ignore ou negue suas demandas”.
 
Por trás dessa nova abordagem da estratégia de comunicação, estariam formas neoliberais vinculadas aos rentistas, ao mercado financeiro e os fundamentalistas conservadores”, explorando “reações emocionais”, palavras de ordem, “desconectadas com a realidade, mas com aparência de verdade”, num objetivo de desqualificar o sistema político.
 
“Além de criar confusão, como forma de evitar o debate de ideias, conteúdos ou programas dos candidatos. Ou seja, evitar escolhas racionais e explorar a máxima de que não há fatos, apenas versões. Isso pode enganar o eleitor apenas uma vez, mas o estrago pode ser irreversível”, avalia. 
 
O emprego de algoritmo que permite direcionar determinadas mensagens para grupos específicos, e a facilidade de criar, mandar e apagar mensagens com o uso de perfis falsos tem sido, portanto, um terreno fértil para o mal, especialmente no WhastApp. 
 
“É possível encaminhar milhares de notícias falsas com o propósito de difamar, arruinar ou destruir imagens e reputações de pessoas e instituições, sendo muito difícil rastrear a origem dessas notícias antes de serem disseminadas nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter etc)”.
 
Neste âmbito, Queiroz destaca o papel dos robôs que, nestas eleições, tiveram presença em duas pontas: “como máquina e como pessoa”. Na primeira posição, foram utilizados para captar votos direcionando a mensagem “certa” para as pessoas “certas”, emulando diálogo com os eleitores incautos. 
 
Na outra posição, reflete Queiroz, o eleitor se comportou “como máquina, na medida em que muitas pessoas agiram mecanicamente, votando sem refletir sobre as consequências de seu voto”.
 
“Num ambiente desses, as escolas, a imprensa, os partidos, os movimentos sociais e sindicais e o próprio Estado precisam urgentemente investir na formação política, cívica e cidadã, sob pena de completa manipulação dos eleitores pelas máquinas, e da perpetuação de um paupérrimo nível de debate político/eleitoral. Se isso não for feito, a consequência será a completa desmoralização da democracia, que tem como pressuposto a real manifestação de vontade do eleitor”, alerta. 
 
Para ler o artigo na íntegra, clique aqui. 
 

6 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Telegramas de Pasárgada.

    Pois bem, essa é área do Wilson Ferreira (Cinegnose) e seus estudos de semiótica.

    Mas vai aqui o pitaco.

    Quem imaginava o Admirável Mundo Novo, a realização da distopia de Aldous Huxley, com inteligências artificiais controlando humanos, eis aí a realidade imitando a arte, ou pior, tornando a arte até mais crível que ela mesma, a realidade.

    As imagens de robôs humanóides, replicantes caçados por Blade Runners não mais se ajusta.

    O nível de controle onde eles operam é bem mais sofisticado e sorrateiro.

    Se antes a manipulação dos conteúdos e produtos de comunicação tinham que ser, majoritariamente orgânicos, e resultado de processos humanos, ainda que para construir visões falsas das realidade, agora a coisa desandou de vez.

    Uma mentira contada por humano é muito menos desastrosa que uma disseminada por um algoritmo!

    Como se desmascara um ente binário?

    1. A influência dos robôs nas eleições

      -> As imagens de robôs humanóides, replicantes caçados por Blade Runners não mais se ajusta.

      -> Como se desmascara um ente binário?

      rodeado por mesas ocupadas por vários replicantes operando sem parar seus celulares, este foi um dos temas de minhas conversas durante o almoço de hoje.

      uma AI só pode ser derrotada por outra IA.

      assunto complexo e fascinante.

      vídeo: TSCC FBI vs Cromartie Scene

      [video: https://www.youtube.com/watch?v=NWZFkPiFlkE%5D

      .

       

  2. A universidade e a torre de marfim.
      

    Wilson Gomes

     23 de outubro às 12:13 ·  

    “A Universidade brasileira vive em uma torre de marfim, isolada da sociedade e do Estado”. Quem nunca ouviu isso?

    Pois bem, ao contrário do que parece, não é bem assim. Estamos até mesmo pensando em mudar o nome do nosso Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia em Democracia Digital para Oxford Analytica ou algo que o valha, para ver se os concernidos pelo conhecimento que a gente produz nos dão alguma atenção. Talvez com um nome gringo e cara de firma de consultoria cara a coisa ande, porque com esse jeitão de rede de laboratórios e centros de pesquisa a relação emperra e as portas não se abrem.

    Um exemplo? Há quatro meses eu propus a um contato no TRE Bahia um seminário entre o INCT.DD e a Justiça Eleitoral sobre “Ação algorítmica, big data, robôs e fake news nas campanhas em ambientes digitais”. Com a seguinte pergunta: Em tempos de analítica de big data, exércitos de fakes e bots, intransparência algorítmica e fake news pode-se esperar que uma legislação eleitoral sobre “campanhas na internet” possa efetivamente limitar práticas e comportamentos digitais antidemocráticos e antirrepublicanos? Que meios usar? Era exatamente este o enunciado.

    A acolhida inicial foi simpática: nós entraríamos com o conhecimento dos paranauês digitais, eles entrariam com o conhecimento dos paranauês jurídicos. Só queríamos três passagens para trazer uns colegas craques em cada um dos temas envolvidos, que se juntariam ao nosso time em campo em Salvador, nada mais. Resultado final: nenhuma resposta, nenhum seminário, nenhum conhecimento transferido para o Setor Público. Fomos fazer palestras por aí e monitorar WhatsApp para publicar artigos.

    Aí depois eu leio que Rosa Weber disse que “estamos tentando entender o que são fake news”, que a coisa toda é novidade, que não estávamos preparados para isso. Ora, a Justiça não tem que estar preparada para isso, esse é o nosso ofício, não o deles. Nós estávamos preparados para isso. Nós avisamos que estávamos preparados para isso e poderíamos ajudar. Nada aconteceu. Quem é mesmo a torre de marfim?

    Já está decidido. Vamos virar uma firma gringa. Deixaremos de fazer de graça, que firma gringa ter que ser cara. A partir de agora refiram-se a mim apenas como Will Bannon, da Oxford Analytica. Ou será que London Analytica me caria melhor?

     

    1. Estelionato 100% legal

      “Aí depois eu leio que Rosa Weber disse que “estamos tentando entender o que são fake news”, que a coisa toda é novidade, que não estávamos preparados para isso”.

      Nem precisa ir tão longe. A “justiça eleitoral”, caríssima e ineficiente, gasta milhões em propaganda para enganar a população ao garantir que as urnas eletrônicas são “100% seguras”!

      Qualquer (bom) estudante do II Grau sabe que a existência de máquinas infalíveis é uma impossibilidade física e matemática.

      Só a ignorância ou a má-fé podem justificar esse estelionato público praticado pelos mais altos magistrados do país.

  3. Complicado
    Esse é um assunto em que o “achismo” irá dominar até que a ciência faça o seu papel. Será preciso avaliar a influência do rádio, da televisão, dos parentes, dos amigos da vizinhança, da igreja, dos colegas de trabalho, entre outras, para poder descomplicar o que está complicado.

  4. Eu vejo os resultados do

    Eu vejo os resultados do primeiro turno e o que está acontecendo depois que a Folha desarmou o esquema do zap que estava sendo montado para este final de semana e, bom, vamos ter que passar 4 anos olhando para aquele final de semana e perguntando se realmente o Whatsapp estava interessado em evitar que a eleição brasileira fosse influenciada por fake news, se o TSE faria o mesmo ouvido mouco se o candidato não fosse o deles…

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador