Bolsonaro não estava completamente errado sobre a questão da mortalidade infantil, mas…

Mas a forma como o candidato à Presidência respondeu à questão, durante o programa Roda Viva, expôs seu calcanhar de Aquiles: o despreparo técnico e a latente falta de uma visão macro dos problemas do País

Jornal GGN – Por volta dos 55 minutos de programa Roda Viva, na TV Cultura, a jornalista do Valor Econômico Maria Cristina Fernandez quis saber qual a proposta de Jair Bolsonaro, o presidenciável do PSL, para reduzir o índice de mortalidade infantil e impedir que o Brasil volte a conviver com a febre amarela. “O que o senhor propõe para a saúde básica?”
 
A pergunta tem pano de fundo. No dia 16 de julho, Folha de S. Paulo divulgou dados alarmantes sobre a volta do crescimento da taxa de mortalidade infantil após 26 anos. Desde o começo do ano a imprensa também vem discutindo o surto de febre amarela em várias regiões do País.
 
Bolsonaro ignorou a febre amarela e, ao responder sobre mortalidade infantil relacionando o problema quase que exclusivamente à prematuridade – e, esta última, ao pré-natal de mães supostamente relapsas que “não dão bola para sua saúde buscal” – acabou virando meme por ter deixado a jornalista um pouco perplexa.
 
Disse o candidato:
 
– Quando fala em mortalidade infantil, tem muito a ver com os prematuros. É muito mais fácil um prematuro morrer do que um que cumpriu sua gestação normalmente. Medidas preventivas de saúde.
 
Maria Cristina replicou:
 
– Candidato, tem muito mais a ver com saneamento básico do que com prematuridade!
 
E Bolsonaro devolveu:
 
– Olha só, tem um mar de problemas, né? Tem que ver a questão da… da… do passado daquela pessoa, [passado] sanitário dela, a alimentação da mãe. Tem um montão de coisa. Tô citando aqui um exemplo apenas. Que eu tive com um parlamentar que é da área da saúde, o Mandetta [Luiz Henrique Mandetta, do DEM], de Mato Grosso do Sul, que falou que aplicou lá em Mato Grosso do Sul e deu certo na questão dos prematuros. Você acaba economizando. Muita gestante não dá bola para sua saúde bucal ou não faz os exames do seu sistema urinário com frequência. Então certos problemas advêm disso e a possibilidade de prematuros aumenta assustadoramente. E cada prematuro por dia gasta em UTI 4 mil reais. Sobra dinheiro para outras coisas. Tem que jogar na prevenção. Eu vou dar a missão. Quem for para o Ministério da Saúde tem que cuidar da Saúde, e não da doença prioritariamente.
 
https://www.youtube.com/watch?v=lDL59dkeTi0
 
Bolsonaro não estava de todo errado. O dado de que a prematuridade é uma das principais causas da mortalidade infantil é real, como se vê nesta matéria aqui da Agência Brasil, de 2016, feita a partir de um relatório de uma ONG afirmando que “o nascimento prematuro figura como a principal causa de mortalidade infantil até 5 anos de idade em todo o mundo”.
 
Mas a forma como tratou a questão, estacionando a resposta em 2016, mostra o despreparo técnico e a latente falta de uma visão mais ampla dos problemas do País.
 
Em 2016, o índice divulgado ainda era de queda na mortalidade infantil. O IBGE, inclusive, produziu relatório argumentando que o aumento de domicílios com saneamenento básico e da escolaridade das mulheres estavam associados àquele resultado. Veja aqui
 
O debate, hoje, é permeado de novos elementos. A própria reportagem da Folha deste mês sobre a mortalidade infantil indica que o Ministério da Saúde viu no Zika vírus e na crise econômica (leia-se: corte em programas sociais e congelamento de gastos aplicados pelo governo Temer, com efeitos pelas próximas duas décadas!) os principais fatores para interromper a trajetória de combate mais eficiente à mortalidade infantil.
 
Bolsonaro passou longe de contextualizar o cenário atual e de comentar as avaliações de especialistas que afirmam que não há como reverter essa alta na mortalidade infantil desconsiderando os investimentos não só na rede de saúde em si, mas nas políticas sociais como Bolsa Família, Farmárcia Popular, Rede Cegonha, etc. Veja a entrevista que a ex-ministra Tereza Campello concedeu à RBA aqui.
 
A alta na mortalidade infantil, segundo os dados atuais, cresceu 2% entre bebês de 0 a 1 ano, e outros 11% em crianças de 1 a 4 anos. Os motivos, neste segundo nicho, estão mais ligados a diarréia, desnutrição, ou seja, às políticas de proteção social que não deveria sofrer cortes “nem ajuste orçamentário para o equilíbrio das contas públicas. Isso impacta muito na sobrevivência das famílias pobres e extremamente pobres”, disse Denise Cesario, gerente executiva da Fundação Abrinq, à Folha.
 
PS: Depois que Bolsonaro disse que entregaria a missão de cuidar da saúde ao ministro de sua escolha, a jornalista ainda quis saber como é que ele pretende reduzir impostos e ter dinheiro para aplicar na prevenção. O candidato só aumentou a perplexidade: disse que, como fizeram na Inglaterra, o caminho é “conjungar isso aí” com “desburocratização e a desregulamentação” da economia para não prejudicar ainda mais a vida de “quem quer empreender no Brasil”. 
 
“Mas eu estou falando de saúde!”, exclamou a jornalista. “Você falou em economia, como reduzir impostos e atender a economia”, se defendeu o deputado. Pressionado, concluiu que “se você, por exemplo, aumentar o número de empregos no Brasil, a tendência de alguém procurar o hospital diminui.”

 

27 comentários

  1. Preparado é ser como Alckmin
    Fala de forma calma. Discurso decorado. Discurso de pura hipocrisia.
    O esquerdista é o sonho do Psdb. O PSDB arquitetou toda desgraça que estamos vivendo e agora o esquerdista quer dar o país a eles. Pq Alckmin é “preparado”.

    A falta de neurônios está na esquerda e na direita.

  2. Ao assistir ao programa Roda

    Ao assistir ao programa Roda Viva Ou Morta, com J. Bostonaro, entendi uma coisa: Bostonaro não é de extrema direita mas sim, de extrema burrice!!!

  3. Livro “Ernesto Geisel”

    série de entrevistas para a FGV, na pagina 112, Geisel fala.

    “Neste momento em que estamos conversando, há muitos dizendo: ‘Temos que dar um golpe! Temos que derrubar o presidente! Temos que voltar à ditadura militar!’ E não é só o Bolsonaro, não!” 

    Na página seguinte, respondendo a uma pergunta sobre a participação de militares na política, é que vem a pérola: 

    “Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar.”

     

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