Paulo Kliass: O risco Bolsonaro!

do Portal Vermelho

Paulo Kliass: O risco Bolsonaro!

 Durante boa parte de 2002, os grandes meios de comunicação de nosso País publicaram matérias, pesquisas e boatos espalhando um verdadeiro terrorismo na sociedade. Era a catástrofe anunciada que estaria embutida na eventual vitória de Lula nas eleições de outubro daquele ano. Esse movimento foi chamado genericamente de “risco Lula”. Na verdade, ele compunha de maneira ardilosa com outro grande mito criado pela “intelligentsia” vinculada ao financismo. 

Por Paulo Kliass

Ele procurava sintetizar o conjunto das dificuldades para que o crescimento da economia fosse alcançado por nossas terras: o tal do “custo Brasil”. À medida em que até aquele momento a nossa dependência com relação aos recursos externos era muito elevada, a lógica de comportamento do investidor/especulador estrangeiro era apresentada como o “risco Brasil”.
Esse foi o conjunto de variáveis que estimularam a propagação da chantagem implícita na campanha contra a candidatura de Lula há 16 anos atrás. O Brasil iria quebrar. A economia iria para o fundo do poço. O capital estrangeiro sairia para nunca mais voltar. A inflação explodiria. E o maior exemplo disso era a cotação da taxa de câmbio no mercado financeiro, onde os poucos mastodontes operadores manipulavam a cotação do dólar de forma irreal e meramente especulativa. As imagens assustadoras iam desde a fala de artistas como Regina Duarte e seu medo, até ameaças explícitas de agentes do mercado financeiro para uma suposta revoada de capital caso José Serra não vencesse as eleições. Pois a realidade que se seguiu à década posterior a 2003 foi exatamente a oposta.

No pleito atual, a situação é bem distinta. A estratégia de marketing da campanha de Bolsonaro é a tentativa de se apropriar do sentimento generalizado de uma espécie de multi-descontentamento da maioria da população e canalizar essa energia a favor do capitão-deputado. O arco de abrangência é amplo e inclui as pessoas que são contra tudo o que está aí, as pessoas que são contra os políticos em geral, as pessoas que têm críticas aos governos do PT, as pessoas que são a favor da Operação Lava Jato. Além disso, incorpora as pessoas que aceitam passivamente as orientações dos líderes religiosos de suas comunidades fundamentalistas ou ainda as que concordam com as propostas de natureza autoritária, homofóbica, machista e hipocritamente moralista do candidato.

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Ocorre que está sendo exitosa também uma operação de consolidação da alternativa bolsonarista no interior do próprio estrato superior do sistema financeiro. Não foram suficientes os alertas emanados de setores do financismo internacional, que sabem das reais ameaças que um eventual governo do vice-presidente General Mourão pode causar ao país e mesmo às nossas instituições públicas e econômicas. Os representantes tupiniquins desses interesses não conseguiram ainda superar as estreitezas de visão das elites e das classes dominantes brasileiras. Olham apenas para o próprio umbigo e pouco se preocupam com os eventuais danos de longo prazo provocados pelo aprofundamento do austericídio e do desmonte

Com isso, pouco se falou nos meios de comunicação e nos ambientes dos endinheirados a respeito do “risco Bolsonaro”. Ao que parece, apenas agora mais recentemente, a poucos dias do segundo turno, alguns veículos e analistas começam a perceber a gravidade do ambiente geral em que o Brasil estará mergulhado caso ele vença as eleições. Para além das questões de políticas públicas conservadoras e do autoritarismo implícito em sua eventual forma de governar, existe um enorme risco para a definição de sua política econômica.

A delegação a Paulo Guedes da responsabilidade pela definição das diretrizes estratégicas da economia é uma loucura completa. O cenário lembra um pouco o ambiente de Collor recém-eleito em 1990 e o super empoderamento concedido a Zélia Cardoso de Mello, convertida em super ministra do comando econômico. O economista preferido de Bolsonaro foi exercitar seu aprendizado dos ensinamentos da Universidade de Chicago com os seus colegas, os famosos “meninos de Milton Friedman”, na ditadura chilena que havia deposto Salvador Allende em 1973. Desde então, o protótipo do financista assumiu-se como um ortodoxo de raiz e promete não ceder em seu programa maximalista frente às eventuais dificuldades de natureza política.

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Paulo Guedes é a favor da privatização completa das empresas estatais ainda restantes. Paulo Guedes é a favor da manutenção da EC 95, que mantém o congelamento dos gastos sociais por longos vinte anos. Paulo Guedes considera urgente “resolver” a questão fiscal na marra e sugere também a venda total dos ativos da União, inclusive imóveis, prédios e outros bens patrimoniais similares. O General Mourão já externou mais de uma vez sua tentação em reduzir os custos de natureza trabalhista das empresas, como o já anunciado fim do 13º salário. Enfim, a preparação das maldades parece ser algo sério, uma vontade para valer.

Paulo Guedes articula, junto aos formuladores de programas econômicos dos candidatos de direita derrotados no primeiro turno, uma proposta de Reforma da Previdência tão ou mais perturbadora do que a enviada por Temer ao Congresso Nacional. O pacote seria apresentado como sendo de paternidade de seu candidato, caso Bolsonaro suba a rampa do Palácio do Planalto no início de janeiro. Paulo Guedes tenta costurar um programa drástico de cortes nas despesas orçamentárias, que passaria também por redução dos gastos com pessoal da União – os servidores públicos na ativa e os aposentados.

Ora frente a tal quadro de extrema gravidade, o risco Bolsonaro é evidente. Não existe possibilidade de converter esse conjunto de medidas em regras jurídicas em um ambiente que seja minimamente pautado pelo respeito às regras democráticas e pela obediência aos direitos básicos de cidadania. A tentação autoritária é mais do que evidente e as consequências para a deterioração do quadro de crise social são quase óbvias.

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O momento é de um amplo chamamento à razão e à responsabilidade de todas as forças políticas e setores econômicos que estejam de fato preocupados com a superação da crise atual. Votar branco, nulo ou não comparecer às seções eleitorais em dia 28 é ser conivente com o desastre anunciado. O momento é de superar rancores ou divergências, apontando para a única alternativa que nos permita buscar caminhos ainda nos marcos da civilização.

O risco Bolsonaro responde por um nome: retorno à barbárie.

Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

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6 comentários

  1. Terra arrasada
    Com a política da terra arrasada fica muito mais facil fazer a população engolir a entrega das empresas públicas como “salvação” da crise criada por eles mesmos

    Foi assim com a privataria, FHC fez os investimentos na Telebrás para zerar os planos de expansão para em seguida privatizar as empresas faturando menos do que gastara e como elas puderam passar a pronta entrega de linhas, ficou parecendo que foi a privatização que melhorou e não o investimento público feito antes

    Da mesma forma pautas bomba nos 2 primeiros anos de Dilma2 para piorar o sentimento da população de forma que o pacote de maldades de Temer fosse imputado ao PT e nao ao próprio Temer

    Tanto que ainda tem gente que diz que foi o PT quem pôs Temer lá e que o PT está a “16 anos” no poder, ao invés de 13 ou 14 seguidos por 2 de Temer

  2. Tudo bem.

    O povão entende tudo isso e o quer, em sua maioria.

    A nossa economia já está morta, Brasil só não quebrou como a Argentina porque os irresponsáveis do PT guardaram 380 bilhões em reservas cambiais.

    Esses ativos da união, como estão, são dinheiro ocioso, os abutres vão pilhar tudo isso, é inevitável. O estado será mínimo para nós, e uma super mãe para um seleto grupo de sempre, isso também não é nenhuma novidade.

    A pergunta é, se venderem tudo, a preço de banana, o próximo governo se sustentará até 2022?

    A verdade é q o povo não lembra mais, não sete mais na pele o q eram os governos de antigamente, boa parte deles já associou tudo de ruim ao PT, depois de anos de bombardeio jurídico e midiático, golpes, etc…

    Não sei se uma nova ditadura será positiva e bem vista perante o mundo em pleno século 21, mas duvido q haja algum tipo de intervenção militar, e se houver, não haverá nada efetivo em termos de desaprovação internacional. Aquele tipo de ditadura é quase impossível nos dias de hoje, os meios de comunicação estão muito mais avançados, a sociedade é outra, a situação é outra.

    Em 1964 o país estava em ascensão, e em 1985 já em claro declínio. Agora eles pegam um país aos cacos, quase no fundo do poço, se não apresentarem, logo, algum resultado, é uma questão de tempo até esse povo, talvez armado, parta pra uma guerra civil (e isso é o pesadelo de qualquer elite).

    Governo Bolsonaro será tão bom quanto o governo Temer, um matou a centro-direita, o outro pode matar a extrema-direita.

    Aos q temem um novo nazismo, sem pânico, Bolsonaro por si só não tem competência pra isso, nem mesmo os q o cercam.

  3. Facebook, Youtube e Whatsapp devem ser responsabilizados

    Deveria ser criada uma campanha internacional responsabilizando o Facebook, o Whatsapp e o Youtube pela eleição de Bolsonaro.

    Apesar do caso lembrar a eleição de Trump, dessa vez é bem pior! Bolsonaro é um Proto-Fascista, racista, homofóbico que fala abertamente em assassinar adversário. 

    Essas empresas não podem simplesmente “lavar as mãos” e fingir que não tem nada a ver com isso!

    Deveria ser criada uma campanha internacional de responsabilização dessas empresas. O Brasil vai servir de exemplo a não ser seguido pelo mundo!

    Algo como:

    “ATENÇÃO! O WHATSAPP, O YOUTUBE E O FACEBOOK ESTÃO ELEGENDO UM NAZISTA NO BRASIL!!!

    ESSAS REDES SOCIAIS ESTÃO IMPACTANDO NEGATIVAMENTE NAS DEMOCRACIAS E SERVINDO DE ABRIGO E ARMA PARA CAMPANHAS DESONESTAS E MENTIROSAS!”

  4. só resta um…

    dos três últimos estágios do primitivismo catastrófico, em todos os sentidos, só resta um,

    o fascismo chegar ao poder pelo voto

     

    por segurança, e já estão alertando, países civilizados fecharão suas portas para o Brasil que, por ironia do destino, é exatamente o que querem os que financiam a tomada do poder pelo fascismo

  5. Quanta asneira

    Nossa, nem parece que foi um economista que escreveu este texto. A questão fiscal se resolverá sozinha do dia para a noite? Não ve que a irresponsabilidade do seu partidinho de estimação acabou com a situação fiscal do país (Sem falar no setor elétrico)? Além disso, comparar Paulo Guedes a Zelia Cardoso de Mello é muita cegueira esquerdista ou, no mínimo, muita ignorância.

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