De onde vem a necessidade da dualidade?

Por Marco Lima

Cá entre nós: a dualidade não é erro ou punição; é necessidade! 

Já viram o famosíssimo e belíssimo símbolo do Yin (primeiro ponto, tese) e do Yang (segundo ponto, antítese)? Ele significa: equilíbrio (terceiro ponto, síntese)! Como diria Aristóteles: “o bem está no caminho do meio”! De fato, tudo o que é demais faz mal, e tudo o que é de menos faz mal. É no equilíbrio, da dualidade, que está o bem. Assim se preserva o ser. 

De onde vem a necessidade da dualidade? Imagine quem sempre viveu somente na luz, sem nunca ter presenciado o escuro, ele saberia dizer o que é a luz, ou seja, teria consciência, conhecimento (terceiro ponto) acerca da luz? Ora para se compreender ou se perceber o que é de fato a luz é necessário poder compará-la com a ausência de luz, para então se entender realmente o que é a luz, e se dar o devido valor à luz. Imagine quem nunca ficou doente, ele saberia entender o que é saúde, e o valor que tem a saúde? Ou seja, a percepção, o conhecimento, a tomada de consciência, depende da comparação que é permitida pela dualidade.  

Daí também vem a necessidade de se conhecer o bem e o mal (conhecida como “a queda”). Daí vem a necessidade de se “comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”. Pois é assim que se dá o processo de tomada de consciência da alma que brota e que se individualiza, à imagem e semelhança…  

Em Nag Hammadi, no Egito, em 1945, uma parte dos textos encontrados foi chamada de “Evangelho de Tomé”, e uma de suas sentenças era: “Disse Jesus: Quem conhece o mundo, achou um cadáver; e quem achou um cadáver, dele não é digno o mundo.” 

A sentença expressa justamente o lado negativo do desequilíbrio. Procura dizer que quem se volta só para a matéria (mundo/cadáver), se desequilibra, e dessa forma “perde” inclusive o próprio mundo. Ou seja, é se utilizando do denso (matéria) e do sutil (espírito) que se alcança maestria, equilíbrio, que permite, inclusive, que lhe seja digno o “mundo”.  

Ocorre porém que se voltar apenas para a matéria também é etapa necessária. Pois só se aprende com a liberdade de se poder errar. É errando que se aprende. É assim que Jesus dizia: “amai também os inimigos”; “ofereça a outra face”. Ora, isso não parece um contrasenso. Mas, em outras palavras, está-se dizendo: permita que o seu irmão possa aprender e evoluir pela tomada de consciência, o que só se faz por meio da liberdade de errar, tal como ocorreu com você.  

Quanto à “queda”, existe um texto interessante de Richard Maurice Bucke, no livro “Consciência Cósmica”, que nos faz ver que a descrição da Criação contida no Gênesis, seria na verdade uma descrição simbólica da passagem da “consciência simples do animal” para a “auto-consciência humana” (o que permite o conhecimento do bem e do mal), ou seja, a “queda” seria na verdade uma “ascenção”, e, uma necessidade, não uma punição. Texto a seguir:  

“(…) Há uma tradição, provavelmente muito antiga, no sentido de que o primeiro ser humano era inocente e feliz até o momento em que comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. E de que, por ter comido desse fruto, tornou-se ele consciente de que estava nu e sentiu vergonha. Além disso, de que então o pecado nasceu no mundo e o senso infeliz do pecado substituiu o sentimento anterior de inocência do ser humano. E de que daí em diante o homem começou a trabalhar e a cobrir seu corpo. Mais estranho ainda – assim nos parece e a história continua – de que, juntamente com essa mudança, veio à mente humana a notável convicção – que nunca mais a deixou, e que tem sido mantida viva pela sua própria vitalidade inerente e pelo ensinamento de todos os verdadeiros (…) poetas – de que aquela “coisa amaldiçoada” que picou o calcanhar do ser humano – aleijando-o, retardando e especialmente tornando seu progresso vacilante e penoso – haveria de ser um dia esmagada e subjugada pelo próprio ser humano, com o emergir, em seu interior, de um Salvador. 

[Nosso entendimento dessa tradição/história:] O progenitor do homem era uma criatura animal que caminhava ereta mas que era dotada apenas de consciência simples. Era, como hoje são os animais, incapaz de pecar ou de sentir o que fosse pecar e igualmente incapaz de sentir vergonha (pelo menos no sentido humano). Não tinha nenhum sentimento ou conhecimento de bem e de mal. Nada sabia até então daquilo que chamamos de trabalho e nunca havia trabalhado. Desse estado caiu, ou melhor, ascendeu, para a autoconsciência; seus “olhos” se abriram; tomou consciência de que estava nu, sentiu vergonha, adquiriu o senso do pecado e aprendeu a fazer certas coisas para alcançar certas metas – isto é, aprendeu a trabalhar. 

Esta situação perdurou por penosas eras: o senso de pecado continua rondando seu caminho; é pelo suor de sua fronte que ainda come pão; e ainda sente vergonha. Onde está o libertador, o Salvador? Quem é, ou o que é ele? (…)”

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