Alguns problemas no caminho da transição energética global, por Rodrigo Medeiros

O artigo de Daniel Yergin, vice-presidente da S&P Global, merece uma atenta leitura.

Fernando Lopes

Alguns problemas no caminho da transição energética global

por Rodrigo Medeiros

Na edição de dezembro de 2022 da revista Finance & Development, do Fundo Monetário Internacional (FMI), há o artigo de Daniel Yergin, vice-presidente da S&P Global, que merece uma atenta leitura. O artigo versa sobre os choques na transição energética em um contexto de tensionamentos geopolíticos. Farei alguns breves comentários sobre o assunto.

De acordo com Yergin, “se a segurança energética é o primeiro desafio da transição, o tempo é o segundo”. A tarefa é complexa e difere, segundo o autor, das transições passadas, que foram comandadas por fatores tecnológicos e econômicos. Desta vez, fatores políticos buscam direcionar as mudanças técnicas percebidas como necessárias por conta dos riscos climáticos.

Há pressões internacionais para acelerar as metas de emissão de carbono de 2050 para 2030. Quanto ao tempo histórico das mudanças tecnológicas, Yergin ressaltou que “cada uma das transições anteriores se desenrolou ao longo de um século ou mais, e nenhuma foi o tipo de transição atualmente prevista”. A escala da transição é tão grande que o impacto macroeconômico precisa de análises profundas.

Yergin citou que a busca por acelerar as metas de redução líquida de emissões de carbono de forma agressiva poderia criar rupturas econômicas muito maiores do que o previsto, algo próximo aos choques da década de 1970. Incentivos e renúncias fiscais precisam ser repensados nos países, assim como os sistemas tributários e creditícios.

Trazendo a contribuição do economista Jean Pisani-Ferry, o autor argumentou que “a ação climática se tornou uma importante questão macroeconômica, porém a macroeconomia da ação climática está longe do nível de rigor e precisão que agora é necessário para fornecer uma base sólida para discussões públicas e orientar adequadamente os formuladores de políticas”. Para os países em desenvolvimento, ressaltou Yergin, “o que parece ser uma ênfase singular na redução de emissões precisa ser equilibrada com outras prioridades urgentes – saúde, pobreza e crescimento econômico”. Tal fato requer reformas que considerem efetivamente essas questões de bem-estar social e sustentabilidade. Não foi esse o caso do Brasil desde 2016 e hoje vivemos uma grave crise social de insegurança alimentar.

Os tensionamentos de relações neocoloniais estão ocorrendo. Yergin destacou um caso ocorrido na África, quando Parlamento Europeu votou, em setembro de 2022, por condenar a construção de um oleoduto de Uganda, passando pela Tanzânia até o Oceano Índico. Afinal, qual é a autoridade histórica e moral europeia para ditar termos na África no século XXI? Ainda segundo Yergin, os bancos ocidentais e as instituições financeiras multilaterais fecharam o financiamento de oleodutos, bem como de portos e outras infraestruturas relacionadas ao desenvolvimento de hidrocarbonetos. Um ministro africano da Energia resumiu o episódio como semelhante a “remover a escada e pedir-nos para saltar ou voar”.

Outro desafio descrito no artigo diz respeito a construir cadeias de suprimentos para o zero líquido de emissões. Para tanto, já existem estudos e iniciativas na Europa e nos Estados Unidos. O ponto de estrangulamento identificado para acelerar a transição tecnológica pela via da eletrificação é a oferta de recursos naturais, principalmente de cobre. Daniel Yegin recordou que “como tem sido o padrão histórico, o aumento da demanda e dos preços provavelmente criará novas tensões entre os países detentores de recursos e as empresas de mineração, o que, por sua vez, afetará a taxa de investimento”. Nesse sentido, a disputa entre China e Estados Unidos por áreas de influência não pode ser desconsiderada.

Os conflitos geopolíticos e as preocupações com a segurança nacional estão alimentando guerras comerciais, financeiras e tecnológicas, acelerando o processo de desglobalização. O provável retorno do protecionismo deixará a economia global, as suas cadeias de suprimentos e os mercados mais fragmentados.

Como sabemos, fatores de oferta são decisivos nos atuais processos inflacionários no mundo. Essa inflação, por sua vez, eleva o risco de que os apertos monetários produzam um pouso econômico forçado, precarizando ainda mais os empregos, potencializando recessões e crises sociais. As democracias liberais resistiriam a confirmação desse cenário, caso optem por novas medidas macroeconômicas austeras?

Outro interessante artigo publicado nessa mesma edição da revista do FMI foi o do professor Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard. Em síntese, a descarbonização global seria altamente intensiva em metais e elementos de terras raras, considerando-se o conjunto das tecnologias existentes. Segundo Hausmann, “mais de 70% das emissões globais são oriundas do uso de energia” e, para descarbonizar, “o mundo precisa eletrificar as coisas que fazemos atualmente com os combustíveis fósseis e gerar essa eletricidade a partir de fontes verdes, como eólica e solar”. O ponto de estrangulamento identificado para acelerar essa transição é a oferta de recursos naturais.

Enormes quantidades de painéis solares, turbinas eólicas, cabos elétricos e capacitores, para armazenar energia, como as baterias de íons de lítio, demandam recursos naturais e a aceleração do extrativismo mineral. Portanto, de acordo com o professor, “o zero líquido requer um boom de mineração”. Os riscos ambientais associados são velhos conhecidos.

Hausmann chamou a nossa atenção para a geopolítica da transição energética, ou seja, para o fato de que muitas grandes fábricas estão sendo construídas para produzir baterias de íons de lítio na China, na Europa e nos Estados Unidos. Como síntese, destacou o professor, “enquanto algumas indústrias crescerão, à medida que o mundo se descarbonizar, outras encolherão”.

Tendo em vista a complexidade da transição, Hausmann sugeriu que se deve capitalizar a proximidade com as energias renováveis para evitar os seus custos de transmissão. O professor também sugeriu que se mantenha o custo de capital baixo para financiar os projetos viáveis de energias renováveis. Hausmann afirmou a necessidade de se gerenciar os riscos tecnológicos. Ele citou que “a vigilância tecnológica é feita regularmente pela indústria, mas poucos governos fazem o suficiente”. Israel e Cingapura, por exemplo, possuem cientistas em seus ministérios econômicos para antecipar as mudanças que podem estar por vir e decidir as apostas de pesquisa e desenvolvimento mais promissoras.

O professor defendeu a exploração dos sumidouros de carbono. O desafio é construir mercados com escala internacional para a obtenção de créditos de carbono, reflorestando áreas desmatadas ou protegendo florestas existentes. Talvez a parte do artigo mais interessante seja a recomendação para que os países se planejem para aprender. Afinal, segundo Hausmann, “nenhum país hoje se destaca nas tecnologias e indústrias que moldarão o futuro”. O crescimento econômico nunca se limitou a concentrar-se nas vantagens comparativas vigentes. A evolução da sofisticação das capacidades produtivas é parte crucial do processo de desenvolvimento dos países. Nesse sentido, as políticas públicas são relevantes no estímulo ao desenvolvimento de novas tecnologias e no seu amplo processo de utilização.

Como exemplo, Hausmann citou a França, que possui uma longa história de ser boa em produzir vinhos e queijos, mas que também se tornou boa em produzir aviões comerciais e trens de alta velocidade. Outros países poderiam ter sido citados, como é o caso da Coreia do Sul. Por fim, o professor destacou que criar valor e meios de subsistência doméstica, ajudando o mundo a descarbonizar, parece ser a proposta mais promissora da transição energética. 

A precificação dos mercados não ajuda a necessária transição energética global. Há externalidades, como é o caso das emissões de gases de efeito estufa, que não estão incluídas nos preços de produtos e serviços. A assimetria de informação, por sua vez, costuma ser onipresente nos mercados, sendo esse fenômeno mais complexo em países não desenvolvidos. Políticas públicas regulatórias são relevantes para atenuar esse tipo de problema, pois teremos que mudar as formas como produzimos e transportamos, além de termos que nos preparar coletivamente para a adaptação em um mundo mais quente.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Rodrigo Medeiros

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