Governo Dilma aposta em novas energias renováveis, por Giorgio Romano Schutte

energiaeolica

Artigo do Brasil Debate

Por Giorgio Romano Schutte*

O Brasil se destaca no mundo por ter uma matriz energética diferenciada, com expressiva participação de fontes renováveis – graças aos investimentos em hidrelétricas e produção de etanol. Essas fontes tradicionais, porém, estão encontrando limites socioambientais para sua expansão.

A descoberta de vastas reservas de petróleo e gás (P&G) nas províncias do Pré-sal, em alto mar, suscitaram preocupações e dúvidas a respeito do compromisso do governo brasileiro com a expansão de novas fontes de energia renováveis, em particular a eólica e a solar.

O governo Dilma demonstrou firmeza ao não confundir essas duas questões e deixou claro que o esforço exitoso na exploração servirá para substituir as importações e para gerar um excedente de produção, não para sujar a matriz energética brasileira. Assim, concomitantemente aos esforços do Pré-sal, o governo Dilma fez uma revolução silenciosa na eólica.

Leilões de eólica

Ainda no governo Lula, em 2009, o Brasil realizou com sucesso, o primeiro leilão exclusivamente para a eólica. Mas foi no governo Dilma, em 2012, que o Brasil deu um salto ao aumentar sua capacidade instalada de 1,43 GW (2011) para 2,56 GW em 2012, concluindo 40 novos parques e chegando a um total de 108, que aumentou para 115 no final de 2013.

A expansão da energia eólica continuou em 2013 com grande participação nos leilões: no leilão de energia de reserva (usinas para estarem prontas em dois anos), 1,5 mil MW, com preço médio de R$ 110 MWh; no leilão A-3 para parques que entrarão em operação em 2016: 867,6 MW, a R$ 124,43 MWh; e no leilão A-5, com início de geração de energia em 2018, 2,3 mil MW a R$ 109,93 MWh.

Se tudo isso se concretizar nos prazos previstos, a capacidade de produção de energia eólica deve dobrar em cinco anos, para chegar a 14 mil MW instalada em 2018.

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Em março 2014, a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) entregou todas as linhas de transmissão pendentes, conectando 18 novos parques no Nordeste e, em abril, a eólica atingiu seu marco histórico ao produzir 1 GW.

O mais importante foi o parque de Alto Sertão I, no Sudeste da Bahia, na região Serra Geral. Inaugurado pelo governador Jaques Wagner no final de 2012, é o maior complexo eólico da América Latina (O complexo engloba 14 parques, foi construído em 18 meses, gerou mais de 1.300 empregos diretos, e tem capacidade instalada de 293,6 MW).

Observe-se que houve ampla cobertura na imprensa a respeito do atraso das linhas de transmissão diante da rapidez com que se ampliou os parques de produção, mas a conclusão das linhas passou despercebido.

Em todo caso, o governo se organizou para evitar esse problema no futuro e pretende aumentar o rigor do critério de cálculo da garantia física, ou seja, o volume de energia comercializável.

O Programa de Expansão e Transmissão (PET) 2013-2017 tem como uma das metas reforçar a transmissão necessária para o escoamento dos parques eólicos existentes e previstos para entrar em operação nesse período.

O governo Dilma provocou de fato uma mudança de paradigma: a energia eólica deixou de ser marginal e conquistou um papel de destaque como uma das fontes complementares à energia hídrica (ao lado das termoelétricas a gás, carvão e óleo e da energia nuclear).

A desconfiança estava ligada ao fato de a energia eólica ser também (como a própria hídrica) imprevisível e intermitente. Dois fatos relativizaram essa percepção:

1) por coincidência, a variação temporal do vento é o espelho da hidrelétrica, ou seja: quando chove pouco nas regiões nas quais se concentram as principais hidroelétricas, venta muito nos principais parques eólicos;

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2) a tecnologia se desenvolve rápido, o que possibilitou aumento da utilização da capacidade instalada. Assim, os parques de primeira geração já são considerados obsoletos: torres com menos de 50 metros e pás pequenas. Os novos parques trabalham com torres de quase 100 metros e pás maiores.

Tudo indica, portanto, que a participação na matriz energética pode aumentar de 0,8%, em 2011, para 4,4%, em 2014, e 7%, em 2020. As áreas de geração se concentram no Nordeste: litoral do Ceará, Rio Grande do Norte e Sudeste da Bahia; e no Sul: litoral do Rio Grande do Sul.

Conteúdo local

Importante também é a atenção do governo em ligar políticas energéticas com políticas industriais e de inovação. O Plano Brasil Maior definiu a eólica como prioridade entre as renováveis e apontava iniciativas para adensar a cadeia e aumentar o conteúdo local.

E, embora, os leilões não estabelecessem conteúdo local, o financiamento BNDES/ Finame exige um percentual mínimo de 60%. O desafio é gerar capacidade local para o fornecimento dos principais componentes, subcomponentes e de peças necessárias à nacionalização.

Na primeira fase, os componentes inovadores são importados. Tudo depende de estímulo à inovação. Trata-se de uma indústria nascente que precisa de fortes incentivos e P&D para alcançar escala que lhe permita concorrer internacionalmente.

Energia solar

Em seguida, o governo Dilma apostou na expansão da energia solar e marcou um primeiro leilão específico para energia solar para o final de setembro de 2014.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 225 projetos de usinas solares fotovoltaicas, somando 6.102 megawatts (MW) de capacidade instalada, se inscreveram para o leilão.

O mercado de sistemas compactos, específicos para habitações de interesse social, já tinha ganhado um forte impulso graças a duas iniciativas. A primeira delas é a instalação de sistemas de aquecimento solar como ferramenta de gerenciamento pelo lado da demanda, por meio dos programas de eficiência energética das empresas do setor elétrico.

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E a segunda é a introdução dos sistemas como equipamento padrão nos projetos do programa de habitação popular Minha Casa Minha Vida, envolvendo mais de dois milhões de residências.

Outro exemplo positivo foi a decisão de usar energia solar como fonte para os novos estádios construídos por ocasião da Copa 2014. Foram instalados módulos fotovoltaicos de silício nas coberturas e/ou nos entornos de arenas, chegando, em alguns casos, a garantir 30% da necessidade de energia.

Pré-sal

Em paralelo, a Petrobras está demonstrando grande capacidade em explorar as riquezas do Pré-sal. Uma coisa não inviabiliza a outra, depende das políticas adotadas.

O caminho que vem sendo seguido é explorar o Pré-sal de forma inteligente, condicionar o ritmo de exploração à ampliação da capacidade produtivo-tecnológica interna e direcionar o excedente de produção para os mercados externos.

A renda assim gerada, por sua vez, poderia ser canalizada para fomentar a superação de deficiências estruturais na área de educação e infraestrutura social, de um lado, e, de outro, contribuir com o financiamento para a transição para uma economia de baixo carbono.

*Giorgio Romano Schutte é professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC) e membro do Núcleo Estratégico de Estudos sobre Desenvolvimento, Democracia e Sustentabilidade (NEEDDS)

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12 comentários

  1. Quem soube disso?

    O governo deveria ter vergonha ao constatar que aquilo que deu certo não é divulgado. E reconhecer que isso é fruto da oposição formada pelo PIG. Infelizmente, quase ninguém sabe dessas coisas e o governo finge que isso não é um problema. Em que outro lugar do mundo o governo não se preocupa em fazer conhecer os resultados de suas ações pela população?

    • Governo não , foi o
      Governo não , foi o mercado.
      O Governo demorou a dar subsídios e promover leilões exclusivos por fonte. Atraso de uns 5 anos e foi atropelado pela realidade mercadologica.
      Solar a mesma coisa. Está atrasado e perdeu toda a disponibilidade chinesa para a demanda reprimida. Agora será mais caro e lento.

      O único elogio ao Governo é o fato de não ter atrapalhado muito.

      • Athos, o Brasil viveu no

        Athos, o Brasil viveu no atraso por 500 anos, sendo expoliado em suas riquezas naturais sem contrapartida em desenvolvimento local. No governo tucano não foi diferente, a entrega das estatais a preço de banana e financiada com recursos públicos veio na mesma esteira. Queriam e ainda querem privatizar: a Petrobrás, as Universidades Públicase, a educação básica e a saúde. Não tinham nem projetos de investimento em infraestrutura e parece nem interesse. O metrô em SP está atrasado pelo menos 20 anos.

        Acho que temos sim que comemorar estes investimentos, estas conquistas, mesmo que tardiamente estão sendo realizados, e principalmente com foco nas tarifas mais baixas e não só a excessiva rentabilidade dos investidores.  Talvez por isso a insatisfação dos grandes empresários, querem nadar de costas às custas do sacrifício da população geral. Temos que ser razoáveis no desejo de lucro. Aliás pelo levantamento apresentado neste blog, os empresários estão tendo aumento na lucratividade, mesmo aumentando os salários de seus colaboradores. Mesmo diante desta crise martelada diuturnamente nos jornais como se fosse verdadeira.

        Mas também eu entendo que complexo de vira-latas não é algo tão fácil de superar, ainda mais sendo reforçado todos os dias pela nossa imprensa. Já passou da hora desta nossa imprensa deitar no divã e resolver suas neuras.

         

        • Como eu já disse inúmeras
          Como eu já disse inúmeras vezes por aqui, para resolver o problema basta o Brasil investir seu dinheiro em Nucleares estatais.

          Está mais claro para vc os motivos da crise?
          Sabe a próxima crise? Será pelo mesmo motivo…a inação do Governo.
          O resto, é só bla bla bla que não tem nada a ver com ENERGIA.

  2. Podia mudar o nome do site

    Podia mudar o nome do site para monólogo governista e não Brasil debate por que de debate não tem nada.

    Será vai desta vez o post.

    domínio: brasildebate.com.br
    titular: Jorge Eduardo Levi Mattoso
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    país: BR
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    saci: sim
    criado: 07/06/2014 #12971866
    expiração: 07/06/2015
    alterado: 04/07/2014
    status: publicado

     

    • comentario de Liberal

      Liberal

      Antes de dizer que é monólogo porque você não checa as informações? A informação é para estimular o debate!

      Angela

  3. Os faceburros nem sabem o que

    Os faceburros nem sabem o que é energia renovável! E nem querem saber. Energia para eles, é jogar um balde de gelo no próprio corpo e se achar o máximo.

  4. Acho ótimo, para não dizer

    Acho ótimo, para não dizer FORMIDÁVEL, que ao menos um blog se disponha a mostrar e discutir o que o governo tem feito. Para descer o pau já temos a mídia com seus jornais, revistas e TVs.

    Aliança Liberal, o que você continua fazendo aqui? Vá ler o Globo ou a Veja. Aí sim você vai ficar feliz!!!

  5. Energia eólica : Brazil Windpower 2014, de 26 e 28/8 no Rio

    Brazil Windpower 2014 acontece de 26 e 28 de agosto, no Rio de Janeiro

    Rio de Janeiro recebe a 5ª edição do maior evento do setor de energia eólica da América Latina, entre 26 e 28 de agosto. Estão previstas as participações das principais autoridades do setor elétrico brasileiro e os principais players do mercado eólico nacional

    A 5ª edição do Brazil Windpower, entre os dias 26 e 28 de agosto, no Rio de janeiro, celebra a consolidação da fonte eólica na matriz de elétrica brasileira. Promovido anualmente pela Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), pelo Conselho Global de Energia Eólica (GWEC) e Grupo CanalEnergia, o Brazil Windpower conta com palestras e debates sobre os temas mais relevantes e atuais relacionados ao setor, além de uma feira de negócios com a presença de, aproximadamente, 200 expositores, representados pelas principais empresas da cadeia produtiva da indústria de energia eólica. O evento também será palco do lançamento de um estudo inédito realizado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), sobre o diagnóstico da indústria da energia eólica no Brasil.

    No painel de abertura, dia 26 de agosto, estão previstas as participações das principais autoridades governamentais do setor elétrico brasileiro: o ministro de Minas e Energias, Edison Lobão, o secretário executivo de Minas e Energia, Marcio Zimmermann, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Mauricio Tolmasquim, do diretor geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp e diretor geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Romeu Rufino.

    Ao longo da programação do Brazil Windpower serão abordadas as políticas voltadas para o segmento eólico, a evolução da tecnologia e as estratégias empresariais da indústria. Debates sobre climatologia e os desafios da cadeia de suprimento vão enriquecer ainda mais as discussões neste ano. A agenda também conta com painéis sobre o mercado global de energia eólica, finanças, mercado livre, além dos tradicionais debates entre fabricantes e desenvolvedores.

    Um dos principais destaques da cerimônia de abertura do evento será o lançamento do Mapeamento da Cadeia Produtiva da Indústria Eólica do País, realizado pela ABDI. O diagnóstico da indústria eólica no Brasil apresenta o atual panorama da produção brasileira e aponta as potencialidades do segmento. O trabalho revela quais itens da cadeia produtiva da indústria eólica são produzidos no Brasil, quais são importados; assinala os gargalos produtivos e identifica potenciais fornecedores. A proposta do mapeamento é contribuir para a produção de informação e conhecimento, tendo em vista fomentar políticas públicas eficientes, com base em dados estatísticos e análise crítica.

    Durante o Brazil Windpower, empreendedores, consultores, empresários, executivos, fabricantes, prestadores de serviços e os profissionais envolvidos com o segmento eólico, no Brasil e no mundo, terão a oportunidade de expor suas inovações e trocar experiências, além de estreitar relações e ampliar a rede de contatos estratégicos. O evento espera um público de cerca de 2 mil visitantes, que se distribui entre as palestras na plenária e visitas aos estandes.

    Em 2013, o País apresentou recorde de contratação eólica, confirmando o crescimento histórico nos últimos anos e a necessidade de grande ampliação do parque gerador e sistemas de transmissão para os próximos anos. A evolução da fonte eólica no País e os desafios relacionados à expansão serão analisados e discutidos pelos principais tomadores de decisão no setor elétrico brasileiro.

    Segundo a presidente da ABEEólica, Elbia Melo, o Brazil Windpower tem a característica de refletir o momento atual da indústria. Ela comenta que na edição passada, o contexto econômico, social e político do País e também do setor eólico eram muito diferentes dos dias atuais. “Havia naquele momento um certo pessimismo a respeito do segmento, pois o ano de 2012 tinha sido muito ruim para o setor elétrico como um todo e também para o eólico, no qual se contratou somente 560 MW entre todas as fontes de energia disponíveis”, observa Elbia.

    Já o ano de 2013 fechou de maneira muito diferente para o setor eólico, pois foram vendidos 4.7 GW em leilões, ultrapassando a expectativa anual do segmento, que é em torno de 2 GW. Para a presidente da ABEEólica, o evento deste ano refletirá o otimismo, a realidade e maturidade da indústria eólica brasileira. “Passamos por uma fase de inserção, em 2010/2011, quando foram realizadas as primeiras edições do Brazil Windpower. Em 2012, já estávamos com 2 GW instalados. Neste ano já estamos na fase de consolidação e sustentabilidade da indústria de energia eólica do Brasil, tendo em vista que encerraremos o ano de 2014 com 7 GW de capacidade instalada”, destaca Elbia. O Brasil ocupa, atualmente, a 10ª posição no ranking mundial de energia eólica e esta responde por 4% da matriz elétrica nacional, com perspectiva de chegar a 12% em 2020.

    http://www.portalabeeolica.org.br/index.php/noticias/2382-brazil-windpower-2014-acontece-de-26-e-28-de-agosto,-no-rio-de-janeiro.html

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