A geopolítica por trás da dolarização da Argentina I, por Luiz Alberto Melchert

A dolarização, em essência, passa por abrir mão do controle da própria moeda, adotando o dólar como meio de troca com curso legal.

Imagem extraída do site Gett

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A geopolítica por trás da dolarização da Argentina I

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

                Quando o euro entrou em vigor, em 1999, todos achavam que ele iria derrubar a hegemonia do dólar porque a economia da União Europeia, considerando-se somente a zona do euro, equivale à dos Estados Unidos. De fato, algumas transações de monta, especialmente de petróleo com os países árabes tiveram movimento significativo na direção do euro. Também as reservas internacionais começaram a contar com uma diversificação inédita desde a II Guerra. Até a crise de 2008, no entanto, os volumes, seja em transações, seja em reservas, não chegavam a ameaçar a hegemonia da moeda americana. Foi a partir de 2010 que as coisas começaram a mudar com mais rapidez e a chamar a atenção dos governantes dos Estados Unidos. É que, a partir de 2011, o PIB chinês ultrapassou, em paridade do poder de compra, o dos Estados Unidos, desbancando-os do pedestal de maior economia do mundo, apesar de os jornalistas econômicos recusarem-se a adotar esse conceito, já discutido por esta coluna em matéria anterior. Agora que as condições internacionais ensejam a negociação entre países a partir de suas moedas, ou de uma nova como a pretendida pelo BRICS, a dolarização de outros países pode ser a tábua de salvação para o império dos Estados Unidos.

                De forma velada, o assunto já fora insistentemente discutido por ocasião da implantação do euro em economias menos abastadas como Portugal e Grécia. No início, os adotantes da moeda comum tinham mais ou menos o mesmo padrão de vida, ou seja, seu PIB nominal não diferia muito do em PPC. Isso não era verdade com relação aos novos entrantes porque eram, em sua maioria, cedentes de mão de obra barata para os demais países do continente. Nos anos 1980 e 1990, Portugal chegou a ter 30% de suas receitas externas advinda da renda enviada por portugueses empregados fora para seus familiares na terra natal. Chegou a ser o maior item de entrada no balanço de pagamentos. O mesmo se poderia dizer de gregos,  turcos e demais trabalhadores da Europa Oriental. Na medida em que esses países adotaram o euro, os preços internos igualaram-se aos do resto do continente, mas não os salários porque não havia atividade econômica suficiente para empregar todos  e a diferença de preços relativos fazia parte do ganha-pão dessas populações. Explicando melhor, era o fato de um grego ou um português auferir um salário em moeda forte e enviar recursos para outro de moeda mais fraca que tornava atrativo deixar o país para trabalhar. A partir do momento em que os preços se igualaram, os numerários remetidos deixaram de ser hipervalorizados, empobrecendo os que ficaram na terra natal. Durante os cinco primeiros anos, foi preciso que a União Europeia subsidiasse esses países com empréstimos a fundo perdido o que, em alguns casos, mascarou um déficit público insuportável, como se viu na Grécia de 2011, quando quase teve de deixar o bloco econômico. Esses mecanismos são muito parecidos com os da adoção do dólar como moeda local. Trata-se da tentativa de buscar refúgio numa moeda forte para compensar a incapacidade do governo ao controlar a inflação e as distorções internas que dela advêm. Ocorre que, no caso da União Europeia, os fundamentos econômicos eram fruto de controle comunitários ocasionado pelos termos de adesão.

                Fora desse ambiente controlado, foram feitas inúmeras tentativas de dolarização. Nos anos 1980, a Argentina tentou esse artifício com o austral. Ainda naquela década Israel fez algo semelhante.  Mais tarde, nos anos 1990, o Brasil fez uma tentativa durante a implantação do Plano Real, no que se chamou de âncora cambial. Em nenhum dos casos seria adequado chamar de dolarização de fato, pois nenhum desses países deixou de ter soberania sobre a moeda local, usando autonomamente os mecanismos de política monetária de que dispunha, o que levou o Brasil a trabalhar com taxas de juros dificilmente vistas no resto do mundo. A dolarização, em essência, passa por abrir mão do controle da própria moeda, adotando o dólar como meio de troca com curso legal. Em alguns países como o Panamá, foram abolidos a autoridade monetária e o banco central, como pretende Milei em sua campanha pela presidência da Argentina.

                O Panamá é dolarizado desde 1904, quando ficou independente da Colômbia e foi “negociado” o acordo pelo que se construiu o Canal do Panamá. Ocorre que não se tratava de um país que tenha buscado a dolarização para mitigar mazelas internas. Ele já nasceu dolarizado. Assim, o mesmo acordo permitiu que, dentro de parâmetros impostos pelo FED, o banco Nacional emita dólares cujo curso é legal também em território americano.

                Na próxima semana será discutido o possível acordo entre Estados Unidos e Argentina, assim como o funcionamento dos demais países dolarizados mundo a fora. No terceiro é que se estudarão as intenções explícitas e as ocultas para incentivar-se a dolarização.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

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