Dos Ecochatos aos Ecoburros
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Todas as vezes que se veem pessoas adjetivadas como ecochatas, pergunto-me por que não chamar o interlocutor de ecoburro. Sim, há pessoas cujas ideias transcendem largamente o razoável, seja contra ou a favor em qualquer tema. Ocorre que economia ambiental não é ideologia, é uma questão material, por menos que seja compreendida. Como ser humano, vou às lágrimas ao ver florestas sendo derrubadas por correntões que levam ao chão ninhos, que esmagam répteis e mamíferos, cujas carcaças serão queimadas logo a seguir. Quantos desses seres, animais e vegetais não estarão vivos quando as chamas os consumirem? Para alguns, o quadro é o inferno; para outros, representa riqueza em perspectivas, até um investimento. Na medida em que se gasta US$1.500,00/ha para derrubar uma floresta, deduz-se eu há um montante significativo de capital na atividade. É como o tráfico de drogas, que também requer investimento, portanto, está sujeita a planos de negócios como quaisquer outros. Como economista, reforça-se a certeza de que ganância e conhecimento são antagônicos.
Enquanto o mundo precifica, via créditos de carbono, a emissão de gases de efeito-estufa, há quem prefira destruir justamente seu maior ativo, que é a floresta em pé. Se deixarmos por conta do mercado, isso só se vai estabilizar quanto o valor da tonelada de carbono equivalente suplantas o preço da área necessária a sequestrar o mesmo montante em carbono. Transpondo em números, imaginemos que um hectare regularizado na Amazônia valha R$35.000,00. Suponha-se agora que para o desmatar tenham sido gastos R$7.500,00, ao que se devem somar uns R$2.500,00 para regularização, entre propinas e papelada em geral. Suponhamos agora que o mesmo hectare forneça subavaliados 5 m³ de madeira nobre a serem vendidos por módicos R$20.000,00/m³. Teremos, do lado da receita, R$135.000,00 e, da despesa, R$10.000,00, resultando em uma receita líquida de R$125.000,00. É um excelente negócio, digno de se matar ou morrer, bem como de corromper quaisquer autoridades.
Suponhamos agora que a tonelada equivalente em créditos de carbono seja vendida a US$50,00 e que a manutenção do carbono sequestrado numa floresta em pé e adulta seja de cem toneladas por hectare/ano, teremos, a R$5,00/USD, R$25.000,00. Supondo agora que o manejo racional da mata renda US$1.500,00/ano, teríamos, a mesma taxa de câmbio, R$7.500,00/ano, perfazendo uma receita fictícia de R$32.500,00/ano. Imaginando ainda que haja um custo anual de R$2.500,00/ha, a contribuição seria de R$30.000,00/ano Usando a taxa vigente de juros, seriam necessários seis anos para equiparar ao o ganho obtido com o desmatamento ilegal com a posterior regularização e venda da área.
Como os planos de negócio costumam considerar somente cinco anos, não há o que discutir. Note-se que a estratosférica taxa de juros colaboram muito para a manutenção do desmatamento. Usando o raciocínio do parágrafo acima e uma taxa civilizada de 6%ao ano, o valor seria ultrapassado no quarto ano, tornando-se viável manter a mata como está. Naturalmente, os números que usei aqui não correspondem à realidade, mesmo porque, a exceção do valor do crédito de carbono que é bastante conhecido, o resto depende de um inventário florestal e um processo de certificação que também têm seus custos. Não há estatísticas capazes de sustentar um plano sério de negócio em âmbito assim genérico. Aqui procurei mostrar que somente o mercado não seria capaz de frear o desmatamento. As leis continuariam a ser confrontadas e as pressões de parlamentares ligados a essa atividade criminosa permaneceria constante. É mesmo preciso haver regulação. Se ela vem do estado ou é espontânea da sociedade é uma questão adjacente. Certo é que o desmatamento não se reverte em escala humana. Então, senhores ecoburros, parem e pensem que não dá para apoiar tal atividade predatória.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
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