1 de julho de 2026

Taxa de inflação x taxa de juros, o papel dos núcleos III, por Luiz Alberto Melchert

Pela lógica mais pura, uma coisa só pode ter um núcleo porque, se houver mais do que um, serão duas coisas, portanto, um conjunto.
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Taxa de inflação x taxa de juros, o papel dos núcleos III

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Uma das maiores diferenças das animações da Disney era a preocupação com o realismo dos  movimentos. Quando, por exemplo, a Branca de Neve e os Sete anões caminhavam pela floresta, os desenhos eram feitos em camadas de transparência tal que as árvores mais próximas parecessem estar passando em velocidade maior que as mais distantes, exatamente como quando viajamos de carro. A impressão de velocidade vai diminuindo na medida em que os objetos ficam mais distantes porque, embora a velocidade do carro seja constante, a velocidade angular em relação aos objetos muda consoante o raio imaginário entre o carro e o objeto em foco. É justamente por isso que uma montanha ao longe pode parecer parada, enquanto as barras  do guard rail passam muito rapidamente.

Os fenômenos econômicos nos afetam de forma semelhante.  Uma greve de transporte público nos pode impedir de sair e ficamos dispostos a pagar por um táxi, o que não faríamos cotidianamente. O taxista pode perceber essa necessidade e tirar proveito, aumentando o preço de seu serviço. Já uma greve de caminhoneiros em Kobe, no Japão, vai afetar nossa indústria que dependa de componentes eletrônicos, mas o efeito é muito mais lento, sendo preciso que o estoque de todos os intermediários seja esgotado antes de sermos afetados. Em alguns casos, o fenômeno nem nos chega a atingir diretamente, mas cria uma expectativa capaz de alterar preços e padrões de consumo. É essa sensação de velocidade que a proximidade traz que torna voláteis os preços de alguns alimentos, mais notadamente frutas e verduras, que são produzidas em pequenas propriedade no cinturão verde das cidades. Na medida em que a atividade é açambarcada  por empresas maiores, ou transformam-se em cartéis, os preços tendem a variar mais lentamente, porém, num nível médio mais elevado que antes.

Há outros casos em que a Economia imita a Física. Um deles é a ondulatória, que é o capítulo que estuda como as ondas se propagam. Preços também se propagam pela economia, às vezes anulando-se, às vezes amplificando-se. A exemplo da física, os economistas chamam os cujos preços se anulam de variação em contrafaze, enquanto os cujos preços aviam no mesmo sentido como em ressonância. Se o preço dos alimentos subirem ao mesmo tempo em que os dos transportes caem, eles se anularam perante o índice de inflação; ao passo que se houver uma seca que eleve os preços dos alimentos, ao mesmo tempo em que os preços dos transportes sobem, eles estarão em ressonância porque os transportes afetam os alimentos.

Nassim Nicolas Taleb, por ser matemático especialista em riscos, além de mega investidor, coloca uma discussão interessante acerca da captação da variação do valor dos ativos em seu livro “Teoria do cisne Negro”, de 2007. Por não ser economista estrito senso, ele deriva para questões mais filosóficas acerca da validade do uso de núcleos de inflação, especialmente no plural. Pela lógica mais pura, uma coisa só pode ter um núcleo porque, se houver mais do que um, serão duas coisas, portanto, um conjunto. Tomando o exemplo do parágrafo acima, se o preço dos transportes cair, afetará negativamente os operadores do setor, enquanto os produtores de alimentos, provavelmente, serão beneficiados; se o preço dos transportes subir ao mesmo tempo em que os dos alimentos se elevam, possivelmente, os transportadores vão-se aproveitar do fato de a mercadoria ser mais cara para cobrar mais pelo seu transporte, justificando afirmar-se que ambos entraram em ressonância. Escoimar o preço dos alimentos para evidenciar o núcleo da inflação vai aumentar a distorção pelo simples fato de que o ser humano usa suas percepções para montar suas expectativas e dai tomar suas decisões, que podem ser especulativas e afetar as expectativas do restante da população.

Posto que as variações de preço serão tão mais sentidas quanto mais próximo do cotidiano seu consumo for, além de o produtores ora moverem-se em ressonância, ora anularem-se em preço, o uso de núcleos para tomada de decisão acerca da taxa de juros parece carecer de consistência. É certo que os técnicos dos bancos centrais ao redor do mundo são extremamente bem preparados e conhecem todas as implicações metodológicas para captação da variação de preços, bem como da percepção de inflação que acomete os agentes econômicos, global ou setorialmente, mas os interesses políticos podem ultrapassar o interesse público, o que será discutido no próximo capítulo.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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