Ecosofia
Taxa de inflação x taxa de juros, o papel dos núcleos I
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Desde que se apontou a persistência de alta nos núcleos de inflação como motivo para que a taxa de juros permaneça elevada, uma discussão de há trinta anos voltou à baila. É aceitável usarem-se núcleos de inflação para decisões de política econômica? Vamos relembrar o que são núcleos de inflação. Trata-se do índice de preços ao consumidor desconsiderando-se os produtos de maior volatilidade. Isso obriga a definir volatilidade, que é o composto entre frequência e brusquidão com que os preços variam. Os produtos agrícolas não considerados como commodities são exemplos de alta volatilidade, pois uma praga pode comprometer a colheita de batatas ou tomates de forma até assustadora, jogando o preço para cima ao cabo de uma só noite. Além disso, os produtos passíveis de comércio exterior multiplicam a sua volatilidade natural pela variação cambial, aumentando a amplitude e a brusquidão com que seus preços variam internamente. Ao adotarem-se núcleos, retiram-se do portfólio de itens medidos os cuja volatilidade afete a média como um todo, tornando o resultado mais próximo do de uma tendência secular.
Trata-se de uma medida bastante discutível, mas é preciso entender outros conceitos para formular um debate consistente. O primeiro é que o índice de inflação é diferente da percepção de inflação. O índice é genérico, enquanto a percepção de inflação é individual. Isso ocorre que os produtos não têm a mesma influência relativa no bem-estar entre os consumidores. A variação do preço do leite não tem a menor importância para quem não bebe leite. O índice de inflação será tão mais efetivo quanto mais próximo ficar da percepção de inflação. Para isso, usa-se uma média ponderada em que o peso da ponderação procura dar mais importância aos itens mais genericamente consumidos.
O segundo, decorrente do primeiro, é o da elasticidade. Trata-se de uma variação percentual em quantidade consumida ou produzida consoante à variação do preço em percentual. Aqui interessa a elasticidade-preço da demanda, ou seja, a variação da quantidade demandada de um dado tem conforme seu preço se altere. Whisky é um produto elástico porque, se o preço cair, as pessoas passam a consumi-lo, abandonando bebidas mais baratas como a cachaça. Já o sal é altamente inelástico porque ninguém vai salgar mais a comida porque o preço do condimento caiu. Assim, quanto mais inelástico for o produto inflacionado, mais deletéria será a inflação. É que a comida, por exemplo costuma ter itens altamente inelásticos, visto que ninguém aguenta muito tempo sem comer. Num quadro inflacionário, o consumidor tenderá a abrir mão de outros produtos para continuar comendo. Assim, se, devido à sua volatilidade, os alimentos forem retirados do cômputo da taxa de inflação, haverá uma distorção flagrante, pois a taxa deixará de refletir o desconforto do consumidor. Isso faz pensar que adotar núcleos de inflação pode não ser uma boa ideia, assim como não serão boas as teorias econômicas que disso derivarem. O mesmo se pode dizer das políticas adotadas à luz de teorias cujas premissas seja assim discutíveis.
Ocorre que a volatilidade também pode induzir a erros na formulação de políticas econômicas, mormente na taxa de juros. Suponhamos que, numa guerra comercial, um importador de carne alegue problemas sanitários para deixar de importar e jogar o preço para baixo. O produtor de carne poderá reverter seu produto para o mercado interno a preço mais baixo, desacelerando a inflação no período. Se esse movimento for mal interpretado e a taxa de juros cair inadvertidamente, poderá haver um superaquecimento da economia recrudescendo a inflação. Por outro lado, se o Banco Central não fizer movimento algum esse impacto não se refletirá na taxa básica de juros, levando a economia a uma resseção.
No próximo capítulo o alvo é o que a academia pensa da adoção de núcleos na formulação de política monetária, o que vai, inexoravelmente, derivar para aspectos filosóficos num ramo de estudos ainda recente, a filosofia da moeda.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
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