10 de junho de 2026

Os Adélios nunca acertam, por Luis Felipe Miguel

E uma armação em que o atirador acaba morto é, convenhamos, bem difícil de engolir. Será que existem kamikazes com tanto amor ao trumpismo?
Reprodução vídeo

Os Adélios nunca acertam, por Luis Felipe Miguel

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Mal as notícias do atentado contra Trump chegaram, começaram a pipocar teoria da conspiração, em perfis de muita gente da boa da esquerda.

Os tiros na Pensilvânia seriam tão fakes quanto a facada em Juiz de Fora. A pose heroica do lelé laranja após os disparos, com sangue (ou seria suco de tomate?) escorrendo pelo rosto, provaria que era encenação. O público ficou calmo demais, eram todos figurantes.

Não faltou quem lançasse na hora o prognóstico de que o atirador seria identificado como muçulmano ou latino, para reforçar o discurso xenófobo de Trump.

A comparação no automático com o atentado contra Bolsonaro diz menos sobre os casos em si e mais sobre a mentalidade de parte da militância da esquerda. Sim, teorias conspiratórias não são privilégio da direita.

Vejamos o caso de Juiz de Fora. Como dizia Carl Sagan, “alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. E, por mais que existam coincidências curiosas, as evidências extraordinárias que sinalizariam uma conspiração envolvendo várias dezenas de pessoas nunca apareceram. Mesmo um documentário, que causou burburinho quando foi lançado, que pretensamente desmascararia a trama, não faz mais que alinhavar boatos, muitos deles bem fajutos.

A turma de Bolsonaro deixa rastro em tudo, como se vê no caso das joias. E já brigou, já se cindiu, muitas vezes desde lá. E nunca surgiu nem uma única provinha de que tudo foi armação em Juiz de Fora? Temos que continuar buscando pontas soltas e criando narrativas mirabolantes para uni-las?

(Aqui, eu ia fazer um paralelo entre a navalha de Ockham e a faca de Adélio, mas faltou inspiração.)

Enfim: a conspiração parece explicar tudo. Mas a realidade é mais complexa, tumultuada, sem lógica.

Na Pensilvânia, já foi identificado o atirador: um jovem branco, nome e pinta de WASP, eleitor registrado do Partido Republicano (mas que aparentemente fez contribuições para a campanha democrata quando adolescente), fanático por armas. Uma combinação estranha, mas, decididamente, nada de muçulmano ou latino.

E uma armação em que o atirador acaba morto é, convenhamos, bem difícil de engolir. Será que existem kamikazes com tanto amor ao trumpismo? E se fosse um inocente útil, não haveria o risco de conseguir, de fato, matar o candidato?

Tudo aponta para a ação isolada de um desequilibrado mental.

Tal como Adélio. Tal como o responsável pelo atentado político mais famoso dos últimos cem anos, Lee Oswald.

John Hinckley – alguém lembra dele? – atirou contra Ronald Reagan em 1981 com o objetivo de chamar a atenção da atriz Jodie Foster, na época ainda adolescente, por quem era apaixonado.

Qualquer hipótese diferente da ação de um desequilibrado, à luz das evidências disponíveis, é mirabolante – seja uma armação trumpista, seja um complô democrata, como os bolsonaristas insinuam.

Não vou dizer que o assassinato de adversários políticos esteja fora de moda. Estão aí os governos dos Estados Unidos, de Israel e da Rússia, que lançam mão contra desafetos externos ou domésticos.

Mas em geral se trata de uma má ideia. Adélio falhou, Crooks (o atirador da Pensilvânia) também. Se tivessem tido êxito, não melhorariam em nada a situação. A extrema-direita, infelizmente, não se resume a um líder.

E o resultado líquido é fácil de adivinhar. Se Biden, debilitado e com indícios de senilidade, era uma aposta ruim contra um charlatão amoral, contra um quase-mártir é pior ainda.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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12 Comentários
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  1. ULISSES

    15 de julho de 2024 12:46 pm

    As armações brancaleone bolsonaristas quando governo não pode ser comparada a fakeada pré governo, quando muitas organizações poderiam estar envolvidas até a própria CIA e governo Norte Americano. Mesmo assim, fatos roncambolestos aconteceram, o mais notável o atacante sair ileso numa turba de psicopatas bolsonaristas que já mataram por muito menos, até festa de aniversário caracterizada petista. Um tiroteio cheio de contradições em que foi morto um motoqueiro que por infelicidade passava pela rua foi utlizado pelo atual governador de SP como tentativa de seu assassinato. Alguém se sensibilizou pelo morto? Agora um tiro de raspão de ma bala calibre 5,56 leve, de alta velocidade e traçado instável (por isto causa mais ferimentos que a munição 7,62 mais pesada e penetrante) causaria mais estragos no atingido que aquele “sangue” que aparece nas filmagens. Assim com a cicatriz no ventre do bozo causou mais dúvidas que certezas, o estrago na orelha do Trump vai seguir o mesmo caminho

  2. Wilson Ramos

    15 de julho de 2024 1:11 pm

    Muitas coisas continuam duvidosas no caso Adélio. As que mais me chamam a atenção são:

    1- Nenhum grande jornal mobilizou seus times para explicar o ocorrido. Imagino que uma ordem unida baixou nas redações: Qualquer que seja o fato, ele atrapalha o PT.
    2- Por que rejeitar o Sírio Libanês, chamar o Einstein com cirurgião chefe oncologista, que posteriormente se torna dono de grande hospital no local mais caro de São Paulo.
    3- Qual a razão de promover os PFs a cargos muito ambicionados se falharam vergonhosamente na proteção ao candidato?

    Aqui se isolou quem fez o ataque, de forma a impedir qualquer manifestação esclarecedora. Lá mataram o caro e morto não fala.

    1. Victor

      15 de julho de 2024 6:22 pm

      Morto fala sim! E não é só na sessão espírita. Basta uma investigação bem conduzida e com acompanhamento independente e o morto conta tudo que se deseja esclarecer.

  3. Marcio Rodrigues

    15 de julho de 2024 1:23 pm

    Não consigo entender o por que de nenhum jornalista querer ligar fatos e estudar um pouco sobre o “atentado de Levi Gaspariam”, e suas muitas coincidências, inclusive a do ministro da justiça estar a minutos de distância, e ser atividade da PRF.
    Ninguém se interessou, coitado do BOB JEFE.

  4. Omeg

    15 de julho de 2024 2:13 pm

    1-“Os Adélios nunca acertam”, já os Bebianos e Adrianos acabam sendo acertados.
    2-“Mal as notícias do atentado contra Trump chegaram, começaram a pipocar teoria da conspiração”, será que existe alguém que pensou outra coisa?
    3-“Os tiros na Pensilvânia seriam tão fakes quanto a facada em Juiz de Fora” usando seu esquadro, voce consegue provar que não são?
    4-“Na Pensilvânia, já foi identificado o atirador: um jovem branco” Do qual existe uma foto sobre um telhado com um rifle bem antes do tiro e não foi detido.
    5-“A comparação no automático com o atentado contra Bolsonaro diz menos sobre os casos em si e mais sobre a mentalidade de parte da militância da esquerda” e o que seria essa mentalidade da esquerda?
    6-“alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias” e o que existe de extraordinário em dois palhaços estarem fazendo a mesma palhaçada?
    7-“existam coincidências curiosas” voce pode provar que são só isso? Ilumina a gente.
    8-“que pretensamente desmascararia a trama, não faz mais que alinhavar boatos, muitos deles bem fajutos” o documentário não ficou no genérico saiu a campo levantou informação e dados e tem muita coisa até agora não respondida nem explicada, voce explicaria pra gente?
    9-“Será que existem kamikazes com tanto amor ao trumpismo” nada que uma boa lavagem cerebral não de jeito.
    10-“Tudo aponta para a ação isolada de um desequilibrado mental” tem alguém que faça isso sendo equilibrado, voce consegue ter certeza do isolada.
    11-“à luz das evidências disponíveis” e quem é que te disponibilizou as evidências?
    12-“Não vou dizer que o assassinato de adversários políticos esteja fora de moda” alguma vez já esteve fora de moda?

    1. jura

      15 de julho de 2024 3:55 pm

      E mais: sim, existem kamikazes, mas eles mudaram de endereço, de religião e de preço, que não é diferente de qualquer soldado ou mercenário e tanto pode ser dinheiro, herança ou fama, glória, um lugar no céu ou nos memoriais.

      Motivos para querer morrer é o que não falta, sobretudo para os “desequilibrados”…
      Viu as declarações dos amigos dele…? Parece que ele tinha pretensões heróicas, de resto incentivadas pelo cinema, TV e redes sociais há décadas!

    2. RONALDO BRAGA

      15 de julho de 2024 10:08 pm

      kkkkkk

  5. Euclides R N Sousa

    15 de julho de 2024 4:52 pm

    “Tudo aponta para a ação isolada de um desequilibrado mental.” Tudo aponta. Acho essa hipótese tão equivalente quanto a qualquer “teoria conspiratória”. Infelizmente o professor Luiz Felipe Miguel quer, como tantos outros “da esquerda”, preservar o seu ego intelectual, orientando-se numa resposta o mais racional possível. Se há, de uma parte, uma ala que só enxerga conspiração, há de outra parte quem só enxergue pedras rolando. De fato, falta o elan conspiratório a grande parte da esquerda, não esta para a qual o professor aponta o dedo, que vê conspiração em tudo, realmente. Mas não seria o caso de adotarmos, sim, dúvida justificável? De lado a lado, quem faz a prova segura? Operações secretas ou encobertas foram desclassificadas e já demonstraram a verdade do que foi lá um dia “teoria conspiratória” — aliás um conceito criado pela CIA. Que o professor pesquise isso.
    Mas é uma pena mesmo que o professor tenha esse posicionamento intelectual tão pífio, covarde até. E não é a primeira vez, posto que já desdenhou, lá atrás, da tese da conspiração dos militares contra Dilma. Escreveu até livro assim. E do documentário que ele menciona… sinto muito, mas não dá acompanhar tais argumentos. Porque enfim, são apenas argumentos, tão ou mais frágeis que os do outro lado. Um outro analista, Breno Altman, também não gosta de teorias conspiratórias. Mas seu único argumento geralmente contra é: “o relatório da investigação não aponta isso”. O relatório, ainda que preliminar, é dado como indício da verdade, eliminando alternativas. Mas o relatório final também pode não nos dizer nada.
    Seria melhor todos nós refletirmos sobre o seguinte: não acreditar em teoria conspiratória não afasta a conspiração.
    Tudo aponta para um lado ou outro; a lógica dá razão aos dois. Mas há quem prefira não ficar do lado da dúvida. Tudo bem. Mas afirmar que o outro lado é uma falsidade porque é tolo… isso é falacioso.

  6. Paulo Dantas

    15 de julho de 2024 5:40 pm

    Malucos sempre existem.

    Suícidio com ajuda da polícia é termo usado.

    A diferença é que no EUA eles carregam AR15 e explosivos.

    A imprensa tem muito analista, e eles precisam analisar até quando não tem o que analisar.

    Teorizar ação de maluco é tão maluquisse quanto.

  7. AMBAR

    15 de julho de 2024 6:45 pm

    ” O dom da fé é a capacidade que o Espírito Santo concede ao crente para este realizar coisas que transcendem à esfera natural da vida”. Neste mundo abundam hereges que se comprazem em ridicularizar os crentes. Permito-me congregar com eles especialmente nesse episódio lançando uma simples indagação quanto à “sincronicidade” e as circunstâncias do fato : QUID BONO? A quem aproveita esse episódio mais objetivamente?

    1. AMBAR

      16 de julho de 2024 1:42 pm

      Corrigindo: QUI BONO? ou, é bom para quem?

  8. Jicxjo

    19 de julho de 2024 12:25 am

    Embora eu não acredite em simulação ou false flag no caso da facada, uma encenação muito mais complexa e bem além do QI da familícia e agregados, não posso dizer o mesmo quanto ao suposto atentado contra Trump – ou no mínimo houve um improvável show de presepadas das forças de segurança. O que me parece mais verossímil, dada a abundância de evidências de percepção prévia das ações do atirador e mesmo de sua presença no telhado alguns minutos antes dos tiros: suas intenções foram descobertas, verificou-se que se tratava de um amador, deliberadamente delegou-se a segurança dos armazéns vizinhos à inepta polícia local, mantendo-se contudo rastreamento e monitoração sobre o elemento (drone, celular, etc.). Quando este chegou ao evento, também os snipers começaram a monitorá-lo, sob sua alça de mira, enquanto ele preparava o fuzil; no momento em que ele se deitava e ajustava a pontaria, o serviço secreto se antecipa e abre fogo sobre o mesmo, que, já ferido, tenta revidar, mas sem muita precisão, com o candidato já abaixado, acertando apenas manés. Trump rapidamente suja a orelha com sangue cenográfico e se segue a encenação do mártir-fênix, da morte e ressurreição do homem, tudo isso convenientemente a poucos dias da conferência Republicana. Perfeitamente possível, sem apelo a teses improváveis, apenas uma articulação competente. Muito mais razoável do que acreditar em tiro de fuzil de raspão na orelha…

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