Um pesadelo fantástico com final zombeteiro

Meu último pesadelo foi digno de um conto fantástico de Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Jorge Miguel Marinho ou Murilo Rubião.

“Existo em três universos distintos que se interpenetram sem que cada versão minha tenha consciência da outra. Minhas três versões, que vivem em dimensões distintas, têm tamanhos diferentes. Num universo não tenho mais que alguns centímetros, em outro tenho dezenas de metros. No terceiro tenho a estatura que costumo ter nesse universo.

Cada versão de mim tem sua própria agenda. Um vive sua vida tentando se adaptar da melhor maneira possível às contingências do mundo. O gigante faz planos dentro de planos dentro de planos e se esforça muito para impor à natureza e às pessoas as condições que ele previamente definiu. O terceiro é tão pequenino que não está em condições de planejar absolutamente nada; ele é sempre arrastado por forças naturais e sociais irresistíveis.

Num determinado momento os três desejam algo que se encontra na interseção dos três universos. O objeto disputado parece ser um relógio, mas ele não registra a passagem do tempo de maneira crescente e linear. Não. Esse objeto faz muito mais do que isso. Ele é capaz de criar um espaço dentro do tempo. E no espaço que ele cria cada uma das minhas versões pode visitar o universo das outras.

Uma hesitação momentânea impediu esta versão minha que vos fala de agarrar o objeto. Então o pequenino rapidamente se apossou do mecanismo espaço-temporal. No meu universo ele se sente ainda menor e mais vulnerável do que estava no dele. No universo do gigante o pequenino fica com o tamanho de uma pulga e decide voltar para o seu próprio universo em que todas as coisas guardam a devida proporção com seu tamanho. Antes de fazer isso, entretanto, ele é esmagado pelo dedo do gigante.

A maior versão de mim não é a melhor das minhas versões. O gigante tem a posse do relógio infernal. Caso decida invadir o universo do pequenino ele ficará com um tamanho colossal e se tornará um deus ex-machina. No meu universo o gigante também conseguiria impor sua vontade sem fazer muito esforço.

Controlar algo nem sempre significa ter o poder de decidir sobre sua utilidade ou não. Quando foi usado pela minha menor versão o dispositivo temporal se adaptou ao tamanho dele. Esse minúsculo detalhe impede a versão pantagruélica de mim de segurar, regular e acionar o dispositivo espaço-temporal. Sob o dedo do gigante jaz um poder abissal que ele nunca estará em condições de usar.

Acordei tranquilo. A imagem de minha imensa versão com seu dedo colossal sobre um poderoso objeto que foi inutilizado ainda estava vívida na minha consciência. Meu universo não foi salvo pelo acaso e sim pela incapacidade do grande planejador de realizar todos os seus planos geniais.”

A vida em nosso país não está fácil. Ela certamente seria mais difícil se o Leviatã brasileiro fosse comando por um tirano menos medíocre e mais capacitado para o exercício do poder absoluto. O mito não é um pesadelo. Ele é o simulacro de um simulacro. No máximo Jair Bolsonaro conseguirá ser apenas um pesadelo para si mesmo.

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