
Não-linearidades contemporâneas, por Gustavo Gollo
Replicadores e poder
A palavra “poder” tem mais de um significado, um deles é o de capacidade.
Consideremos que o propósito de um replicador seja povoar o universo com réplicas de si mesmo.
Para se replicar, o replicador precisa consumir determinada quantidade de energia.
A potência de entrada do replicador é seu consumo de energia por unidade de tempo, a potência de saída corresponde à quantidade de réplicas, multiplicada pela quantidade de energia de cada réplica, por unidade de tempo.
Pode-se considerar os seres vivos como replicadores, seres cujo propósito é povoar o universo com suas cópias.
Esse ponto de vista nos leva a considerar o homem como um replicador, uma criatura empenhada em povoar o universo com cópias de si mesma.
Para se replicar, uma pessoa precisa consumir, grosso modo, 1 Kg de alimento / dia, durante um ano, de modo que um casal necessita, aproximadamente, de 700 Kg de alimento para gerar uma réplica.
Parasitas são seres que se apropriam da energia consumida por outros para utilizá-la na própria replicação. Um verme intestinal pode consumir parte do alimento ingerido por seu hospedeiro, obrigando-o a um aumento de consumo para se replicar, reduzindo, desse modo, a eficiência do hospedeiro, a relação entre a quantidade de alimento consumida por ele e o número de réplicas geradas.
O fenótipo estendido ilustra magnificamente os “artifícios” ou “artimanhas” empregados por parasitas para a consecução de seu propósito fundamental, o de se replicar*. De um modo frequentemente bastante enviesado, o parasita consegue escravizar seu hospedeiro, obrigando-o a se desviar de seu propósito de autorreplicação, compelindo-o a auxiliá-lo em sua própria replicação, dele, o parasita, o que, talvez, devesse ter sido chamado “efeito zumbi”. (* Essa ideia interessantíssima, de fenótipo estendido, foi desenvolvida por Richard Dawkins especialmente em seu livro “The extended phenotype”, absurdamente, nunca traduzido para o português.)
Essa forma de dominação descrita como “fenótipo estendido”, ilustra a maneira como um ser vivo pode se apropriar da “vontade” de outro, e “escravizá-lo” para distorcer seu propósito original de, como ser vivo, gerar cópias de si mesmo, escravo, cooptando-o a auxiliá-lo na tarefa de gerar cópias de seu dono. Tal atividade desvia parte da energia consumida pelo escravo, canalizando-a para a replicação de seu dono.
Esse modo de apropriação da vontade de outro ser é genericamente chamada parasitismo. O parasitismo talvez seja o modo de vida mais frequente.
O homem desenvolveu uma enorme multiplicidade de formas de parasitismo, entre elas, o parasitismo intraespecífico a que damos o nome de escravidão, servidão, ou emprego. O escravo é obrigado a canalizar seu propósito de autorreplicação para a replicação de seu dono.
(Certos pudores nos fazem fingir que não seja assim. O direito à primeira noite dos nobres medievais raramente precisava ser alegado para a obtenção de tal privilégio. Como o propósito fundamental dos seres vivos é o de autorreplicação, a aquisição do poder tem como meta fundamental a reprodução).
O estabelecimento de uma “ordem das bicadas” entre os machos de dada espécie em certa área, determina uma hierarquia entre eles que os torna mais desejáveis pelas fêmeas e, em consequência, aumenta seu poder de replicação.
Homens podem escravizar outros homens, obrigando-os a auxiliá-lo em sua própria replicação*, desse modo podem ampliar enormemente sua eficiência gerando uma grande quantidade de cópias por alimento ingerido, em detrimento da eficiência de seus escravos. Sob o ponto de vista dos replicadores, esse é o propósito do poder. Sob tal ângulo, “poder” é poder se replicar. *(No mundo de hoje, essa colocação deve soar de forma estranha, incoerente, ou até absurda. No entanto, como replicadores, nosso propósito é a autorreplicação, e se essa meta não se impõe esplendorosa e indubitavelmente, é por interferência de outros replicadores, como mostrarei a seguir).
O hiperfenótipo
Costumamos pensar na reprodução como uma característica exclusiva dos seres vivo. Atribuímos o status de “vivos” às criaturas que metabolizam seu próprio alimento, que agem e se reproduzem autonomamente. Os vírus, no entanto, consistem em pequeninos cristais inertes, portanto, sem vida, cuja replicação é efetuada por seu hospedeiro de maneira análoga à replicação de um texto em uma folha de papel por uma fotocopiadora.
Os artefatos, em geral, replicam-se de modo análogo ao dos vírus. Embora inertes, os artefatos têm uma enorme capacidade de replicação, povoando o nosso mundo com a imensa profusão de suas cópias.
Definimos nosso modo de vida atual como “sociedade de consumo”, na qual produzimos e consumimos continuamente uma vasta quantidade de artefatos, atividade que pressupõe a replicação constante desses seres.
Desde o séc. XX, pelo menos, vimos sendo parasitados pelos artefatos, escravizados por eles, controlados por eles através de mecanismos similares aos do fenótipo estendido. Desde então, temos canalizado o empenho em nossa autorreplicação para a replicação dessas criaturas que, apesar de inertes, governam nossas ações, dirigindo-nos continuamente para o consumo e replicação de tais seres.
Desse modo, temos sido desviados de nosso propósito fundamental, enquanto replicadores, de nos autorreplicar, de gerar cópias de nós mesmos. Parasitados por nossas próprias criações, os artefatos, controlados por eles, nos empenhamos, agora, em replicá-los, mais que a nós mesmos, gerando toda a parafernália que constitui o mundo material à nossa volta, quase todo ele artificial, atualmente.
Com esse propósito, temos aumentado espantosamente nosso consumo de energia, somando agora o consumo de combustíveis fósseis, hidreletricidade, energia nuclear e outras, à energia do alimento que consumimos. Toda essa energia é necessária para a replicação dos artefatos que povoam o nosso mundo, efetivamente, são eles, e não nós, que a consomem, utilizando-a para sua autorreplicação.
A sociedade de consumo, ou sociedade produtora de lixo, a outra face do mesmo evento, é uma consequência da ânsia por replicação da imensa profusão de replicadores criados por nós, um produto do “desejo” de replicação do conjunto dos artefatos. É o desejo de replicação dos artefatos que gera esse estado de coisas.
Gostamos de nos sentir senhores de nossos desejos e ações, gostamos de nos ver no comando, determinando nossos próprios destinos, construindo nosso mundo, delineando suas feições. Agrada-nos ver a nós mesmos como criaturas livres traçando nossos próprios caminhos, e vivendo nossas vidas sob nossos próprios desígnios. A constatação de que outras criaturas nos governam, de que temos sido escravizados, nos repugna, e quase nos obriga a fechar os olhos, possibilitando assim negar o óbvio. O pressuposto de estarmos no controle nos levaria à conclusão de nosso próprio desvario. Estamos conduzindo nosso planeta a uma catástrofe brutal, sabemos disso. As considerações acima explicam nossa aparente insanidade: não estamos loucos, mas controlados pelos parasitas que nós próprios criamos, governados por eles para agir com o propósito de replicá-los; nossa loucura coletiva é consequência de uma parasitose.
Nosso planeta já se transformou em um imenso leviatã, em uma imensa rede com trilhões de olhos controlando cada um de nós, indivíduos, como neurônios em um cérebro.
Apavoremo-nos e riamos loucamente.

Artefatos
Estamos prestes a dar autonomia aos artefatos. Até agora eles têm se replicado com o nosso auxílio, através de ações humanas; em breve, no entanto, alguns deles começarão a se reproduzir autonomamente, sem a necessidade da participação humana em sua produção, automaticamente. Em seguida, eles assumirão, diretamente, o controle da produção de todos os artefatos, incluindo a produção de fábricas produtoras de artefatos (impressoras 3d serão, rapidamente, equipamentos caseiros). A automação completa do ciclo de produção dos artefatos marcará o ponto em que deixaremos de ser necessários à continuação do processo.
Replicação e poder
Escrevi acima que “poder” é poder se replicar, o que pode parecer enigmático e confuso dada a falta de costume com tal abordagem, explicarei.
A importância dos replicadores decorre exatamente de sua capacidade de replicação. Povoe um mundo com 2 seres, sendo um deles um replicador, o outro, não. Decorrido algum tempo, o replicador terá se replicado, havendo, então 2 deles, contra 1 do outro tipo. Sendo as réplicas dos replicadores, por definição, replicadoras, haverá, posteriormente, 4 delas, e em seguida 8, 16 e logo muitas, uma infinidade de réplicas do ser replicador original, contra apenas 1 do outro tipo.
Assim, sob certo aspecto, os replicadores alimentam-se a si mesmos, replicam-se, multiplicam-se, transformando-se na imensa multiplicidade de seres ao redor. Seres únicos, que não se replicam, acabam por se tornar insignificantes, dada sua raridade. Replicadores acabam povoando seus universos. O poder de um replicador se manifesta em sua capacidade de se replicar.
Mundo 2
A invenção da linguagem permitiu a criação do mundo 2, o mundo simbólico das palavras, das ideias e das instituições; nada mais fácil de se replicar que criaturas tão etéreas. Apesar da fragilidade aparente das palavras, criaturas efêmeras que se dissolvem logo após geradas, as palavras e os símbolos podem adquirir enorme poder. De fato, o controle do nosso mundo é exercido através de palavras. Poucas coisas se replicam à velocidade do pensamento.
O mundo 2, o mundo simbólico, tem crescido imensamente desde seu surgimento, concomitante ao da linguagem.
Mundo 3
Fluxos linguísticos de pensamentos deram origem e constituíram o mundo 2. Fluxos informacionais vastamente mais densos estão originando o mundo 3 que transcorre na grande rede de computadores, que canaliza parte significativa e crescente da informação gerada no planeta. O vislumbre dessa imensidão será acessível a nós apenas indiretamente, perceptível apenas à distância, sem que dela possamos participar diretamente. Corresponderá à criação de replicadores ainda mais vibrantes que os do mundo 2, transcorrendo em um mundo muito mais rico e turbulento que este. A perspectiva da existência do mundo 3 e de outros sucedâneos imagináveis, mundo 4, mundo 5… todos eles inacessíveis a nossas mentes, embora imensos, nos sugere a possibilidade de um aperfeiçoamento imediato, brevemente disponível a nós, o mundo 2.2, um refinamento de nosso mundo simbólico.
Simbolismo e linguagem 2.2
Ao contrário do que usualmente costumamos acreditar, as capacidades devem preceder as atividades propiciadas por elas, assim, devemos imaginar que nossos ancestrais possuíam uma capacidade linguística já bastante desenvolvida, quando começaram a falar, do mesmo modo que uma capacidade matemática considerável já devia estar presente nas mentes daqueles que inventaram os primeiros números. Tais capacidades permaneciam latentes, inertes, nas mentes de nossos antepassados, antes da invenção da linguagem, ou da matemática, de modo que muitos gênios matemáticos potenciais nunca aprenderam a contar, dado terem vivido antes da invenção dos números. Os homens que inventaram os números foram grandes gênios da matemática.
Analogamente, podemos supor que tenhamos hoje inúmeras capacidades latentes impossíveis de serem manifestadas, assim como o pensamento linguisticamente estruturado não podia se manifestar antes do desenvolvimento da linguagem. Talvez os fluxos informacionais imensos transcorrendo no mundo 3 nos permitam vislumbrar possibilidades adicionais que nos possibilitem aperfeiçoar nossa linguagem, não apenas enriquecendo vocabulários e gramáticas com mais do mesmo, mas acrescentando ao nosso pensamento algo radicalmente novo, alguma espécie de pós-linguagem, pós-lógica, ou qualquer outra forma de reestruturação do pensamento acessível a nós, presente hoje em nosso espectro de potencialidades latentes, mas ainda não desvendado.
Sonho que tais potencialidades emerjam em breve, possibilitando a nós uma visão de mundo enriquecida equivalente ao desvelamento de um novo espectro multivariado de cores tão ricas e diferenciadas quanto o azul, o vermelho, o amarelo e todas as outras, mas ainda inacessível a nós. Assim como um novo colorido desconhecido por nós o faria, a pós-linguagem 2.2 nos possibilitará uma nova visão profundamente artística do mundo; e construções de mundos tão profusamente brilhantes, arrebatadas e vibrantes quanto um gol!
Um comentário marginal sobre o conhecimento e a ignorância
Tempos atrás, quando os times de peladas eram escalados após disputa de par-ou-ímpar, antes da escalação dos times, costumávamos jogar a bola, sub-repticiamente, no peito dos convidados cuja habilidade com a pelota ainda nos era desconhecida. A velhacaria tinha o propósito de permitir a análise do modo com que o jogador matava a bola, inferindo disso sua intimidade com a pelota; se o jogador a chamava de você, ou de vossa excelência. Tal análise estabelecia sua classificação na hierarquia que definiria a escolha dos times subsequente ao par-ou-ímpar.
Durante o século XX, vivíamos sob a égide da especialização, quando muitos de nossos doutos costumavam tentar esconder a própria ignorância em um palavreado rebuscado e inacessível ao interlocutor. A exemplo dos peladeiros, podemos viabilizar a avaliação do conhecimento, seja de um dentista, um jurista, ou especialista em qualquer área, através da avaliação de sua intimidade com o tema.
O físico Richard Feynman recomendava que se explicassem as teorias científicas como se para crianças. Trata-se, frequentemente, de tarefa relativamente difícil para quem entende do assunto, impossível para outros. De qualquer modo, a transcrição de qualquer conhecimento para um linguajar inteligível ao interlocutor possibilita a avaliação do conhecimento por ele; explicações camufladas oferecidas sob “termos científicos” e jargões rebuscados têm, usualmente, o propósito de esconder a própria ignorância, equivalem à pele de leões utilizadas pelos burros, nas fábulas.
Fim do adendo.
Outras extensões da linguagem
A lógica e a matemática podem ser consideradas extensões da linguagem original e, portanto, aperfeiçoamentos do mundo 2 nas formas de mundos 2.1, e 2.2. Talvez se possa falar em um sentido lógico e um sentido matemático que estariam voltados para a percepção do mundo 2, assim como a visão e audição se voltam para o mundo 1. Na mesma linha, talvez possamos nos referir a um sentido gramatical antecedendo esses 2.
Um sentido musical seria compartilhado conosco pelas baleias, que compõem suas canções, e talvez por pássaros compositores, como o sabiá. Um outro sentimento artístico é revelado por pássaros paisagistas, capazes de criar suas próprias formas artísticas originais, como nas fotos abaixo; o senso estético dos criativos bowerbirds me impressiona. Talvez alguns pássaros dançarinos tenham dons artísticos não meramente instintivos. Não sei se os arabescos criados por peixes ciclídeos correspondem a manifestações originais de cada indivíduo, ou se são meras repetições instintivas. Talvez outros animais tenham outros sentidos artísticos incognoscíveis por nós, alguma espécie de performance olfativa, por exemplo, ou qualquer outro comportamento idiossincrático aos nossos olhos, mas sublimemente executados por eles.

Tais colocações me levam a considerar as manifestações artísticas como pertencentes a um mundo simbólico não linguístico, uma extensão 2.3 na classificação acima, talvez compartilhada por alguns animais. Nossa compulsão em maltratar e comer animais, no entanto, impede que os consideremos de uma maneira menos degradante que o temos feito.
Existe certa analogia entre a lógica e a gramática, e talvez a lógica possa ser considerada uma espécie de extensão da gramática. Outras possíveis extensões análogas talvez se nos apresentem em breve, devemos nos manter atentos ante tais possibilidades, devemos ter muitas potencialidades ainda não exploradas. Pense em um tipo de conhecimento adicional equivalente à lógica, ou, o que é mais fácil, avaliar o que significou para o conhecimento humano a aquisição da capacidade de inferências lógicas, ou da capacidade de contar, adicionar e compreender os números.
Costume, razão e poder
O maior aliado do poder, a ferramenta mais efetiva utilizada por ele para nos escravizar é o costume. Podemos nos acostumar com qualquer coisa, e quando o fazemos, passamos a achar normais e aceitáveis até as maiores explorações e infortúnios que nos sejam impostos, somos tão domesticáveis quanto bois ou cavalos. Tendo nos acostumado com uma dada imposição, mesmo que brutal, acabamos por defendê-la, por justificar a imposição descabida. Vivemos regidos por enormes absurdos em nosso dia a dia, embora pareça natural aceitarmos a disparidade entre os que possuem bilhões e os que morrem de fome, ou a infinidade de ações fúteis mas conducentes à inviabilização de nossa sobrevivência no planeta.
Tendo nos acostumado com esses e outros disparates, no entanto, tendemos não só a aceitá-los, mas até mesmo a impô-los, uns sobre os outros. O grande instrumento utilizado em tal imposição será o costume, o hábito; trata-se da maior ferramenta do poder. Seu maior inimigo é a razão; é a racionalidade que permite desvendar o absurdo e o sofrimento imposto a tantos e vivido por nós diariamente, e se contrapor a ele.
O poder emana do desejo, sobrepondo-se avassaladoramente a todas as barreiras, a tudo o que se contrapõe a ele. A tudo, exceto a razão.
A rebeldia oficial, aquela encarregada de revolver, revitalizar e eternizar o poder, enaltece a irracionalidade, os modos de “compreensão” contraditórios, confusão nebulosa disfarçada de entendimento.
Essa rebeldia oficial costuma apresentar a irracionalidade como rebelde e revolucionária, sendo, no entanto, mera fonte de confusão e desentendimento.
O desejo é irracional, louco, irreprimível. Nada pode circunscrevê-lo, limitá-lo. Cabe ao poder saciá-lo, satisfazer continuamente a glutoneria desenfreada que nunca se satisfará, que desejará mais e mais, tendo crescido com o alimento ingerido anteriormente, sobrepujando cada um dos limites prévios. Cada um deles, exceto a razão. Todos os cerceamentos ao poder são sistematicamente rompidos, sobrepujados, exceto a razão, que permanece incólume, intocada, inalterada, sustentando suas máximas inconspurcada e candidamente.
2+2=4, nunca importando que o queiram 5, ou de qualquer outro modo. Pode-se desejar qualquer irracionalidade, mas nada satisfará tal insanidade, sendo esse o único limite ao poder: a racionalidade. Impossível transgredi-la, superá-la, mesmo ao poder.
É elucidativo pensar que o mundo 2 constitua um tecido cujo estofo são as palavras, e cuja trama é imposta pela gramática e pela lógica. Desconexões lógicas constituem buracos no tecido, rasgões, ausências. Construções ilógicas correspondem a farrapos desconexos.
Século XXI
Penso que duas ideias gerais têm marcado o novo milênio, agora, quando o tempo se acelera avassaladoramente, gerando uma violenta corrente transformadora. Uma delas é a superação da especialização radical característica do século passado, quando as almas dedicadas aos estudos se viam quase impedidas de enfocar mais que uma ínfima porção do universo, frequentemente desconexa de todo o resto. Percebo e espero que o novo milênio nos traga incentivos para a conexão das diversas ideias que brotarão profusas de inúmeras cabeças, para o imenso caldeirão da grande rede, onde serão cozidas conjuntamente por milhões de mentes.
Outra revolução do pensamento se deu com a divulgação de ideias cartesianas elucidativas de nossa condição atual, e pode ser apropriadamente chamada “efeito matrix”. Figuras oriundas do século XX, seres anacrônicos ainda comuns, considerarão com desdém a hipótese de estarmos vivendo em um mundo virtual. A consideração, no entanto, vai ganhando espaço e se impondo, estando prestes a se tornar conhecimento comum compartilhado por todos, parte das crenças básicas da época. O solipsismo constituirá, em breve, crença indubitável, tão natural e disseminada quanto o foi, em tempos medievais, a crença em um Deus ubíquo.
A terceira marca dos tempos
Teorizemos, criemos nossos próprios mundos soprando com canudos virtuais a espuma das ideias, meio sutil, pavimento sobre o qual transcorrem nossas vidas ilusórias. Deliremos confiante, sôfrega e alegremente.
Em breve, será impossível destacar nossas individualidades do tecido da grande rede. Perceberemos a nós mesmos como partes de uma imensa conexão. Ser é ser acessado pela grande rede, pelo grande cérebro. Existiremos apenas enquanto acessados pela rede, sendo essa a manifestação possível de nossos eus em um mundo matriz. Viveremos então como teorias, quando o tempo já tiver se enrolado sobre si mesmo fazendo o futuro engolir o passado. Deliremos, então, alegremente, a considerar que tudo isso já ocorreu no futuro que mais uma vez reconstruímos como um imenso fractal temporal, e sigamos em frente, decididamente, como um centroavante com a bola em direção ao gol.
Mariano S Silva
2 de julho de 2017 7:33 pmIdeias muito interessantes e
Ideias muito interessantes e provocativas. Gostei do ataque feito à especialização excessiva, que foi criada para dividir e evitar que percebêssemos a floresta ao tentar analizar ao microscópio a raiz de determinada espécie… Esta é uma desvantagem que a evolução nos legou para resistirmos aos predadores. A consciência é lógica e alimentada por sensores de característica logarítmica (gama dinâmica extensa) que estão confinados ao aqui e agora (sensores locais). A lógica matemática e a sintaxe linguística emergem como consequência desse confinamento. Não é atôa que o cálculo local (diferencial) contaminou a modelagem do mundo a nossa volta. A topologia que se pretende uma forma de matemática global, na realidade repousa em testes com grupos de homotopias para a análise da conectividade das variedades.
Nietzche ao tentar descrever o que pensa dentro de nós irracional, lançou mão de aforismos para contornar ao máximo a sintaxe e que, entretanto, tem sentido (a palavra tem o mau hábito de sumir de minha memória de vez em quando…). A arte contemporânea é um exemplo desse tipo de linguagem não-sintática. Esse é o comportamento mais animal dentro de nós e é também conhecido por lógica do coração, ou dos desejos. Realmente, cuidado com seus desejos porque eles lhe escravizam…
Além do sujeito tagarela e do coração (pathos) há outros quatro que pensam dentro de nós,e, um destes, é uma conexão com o Universo todo que está presente no Um da consciência. Estes ditos que viviam confinados ao mundo místico e que foram tratados como fantasia ou fancaria, não param de emergir, teimosamente, como absurdos lógicos de incríveis experimentos de laboratório (notadamente, Viena e outros) aos fundamentos da Física Quântica. O último dos absurdos foi a derrubada recente, cuja chamada está na home page do Physics World (sociedade de física européia), do sacrosanto princípio da causalidade. Em outras palavras: causas precedem efeitos, mas o contrário também é verdadeiro! Tudo o que é vivo possui também uma conexão com o Todo Universal e nós não somos exceção à regra. Como venho dizendo há décadas: o fenômeno de massa na humanidade decorre da parte quântica de nossa mente (Roger Penrose afirma que há um “quantum” no cérebro humano em seu livro: A Nova Mente do Rei) e é uma forma de condensação bosônica.
Roger Penrose ainda afirma, que ao contrário do que muitos pensam, um cristal não é um objeto puramente clássico como explicado por Madelung. Se um cristal fosse regido apenas por forças eletrostáticas, pequenas perturbações (como fonons) leva-lo-iam a não-linearidades e os fenômenos de caos tornar-se-iam relevantes, e, embora o teorema de Liouville continue válido (com o volume no espaço de fase preservado) a foliação desse mesmo volume tenderia a uma riquesa imensa, o que significaria a destruição da estrutura cristalina. Portanto, a forma só existe graças à Física Quântica. E a Biologia é forma… Por esta razão, agora posso dizer, que não posso concordar com a maioria dos biólogos que repousam suas teorias no mantra das teorias locais (mecânica estatística, teoria da informação e ideias puramente darwinianas). Ainda bem que a epigenética começa, finalmente, a emergir dos laboratórios. Há mais de quarenta anos atrás tentei, inutilmente, enviar um paper para publicação no Journal of Theoretical Biology propondo um mecanismo lamarckiano para coexistir com o darwiniano. Levei um grande chute, mas o apresentei em uma reunião da SBPC, somente para registrar o fato.
Só iremos compreender o mundo a nossa volta quando dispusermos de técnicas formais que envolvam métodos não-locais.