5 de junho de 2026

48 horas depois: Argentina se prepara para o imprevisível com algumas certezas

Uma certeza: sem maioria no Congresso Nacional, Milei não poderá governar sozinho com A Liberdade Avança. Maurício Macri tem seu trunfo
Imagem da Casa Rosada, na Argentina, que a partir do dia 10 de dezembro terá um novo presidente: Javier Milei. Foto: Gustavo Sánchez via Unsplash

A mudança de estratégia do presidente eleito Javier Milei para o segundo turno, na Argentina, depois de ter visto sua votação no primeiro turno cambalear, em comparação com as primárias, revelou-se surpreendentemente bem sucedida, mas lançou o país em uma jornada rumo ao imprevisível. 

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Ocorre que a Argentina, que terá o novo presidente empossado no próximo dia 10 de dezembro, agora está à mercê de um político neoliberal, no caso do presidente eleito, ultraliberal, que se elegeu com um discurso antidemocrático, antiestado e apinhado da verve conservadora negacionista e intolerante que reacende a chama do fascismo em todo o mundo.    

Conforme o esperado, o atual governo respeitou a vontade popular – Milei ameaçava não reconhecer o resultado eleitoral, mas a vitória parece que o demoveu da ideia. O presidente Alberto Fernández recebeu nesta segunda-feira (21) o novo mandatário para iniciar a transição entre os governos.

Para a América Latina, junto com a vitória de Daniel Novoa no Equador, eleito também este mês, representa um importante sinal do regresso do pêndulo a um possível novo ciclo de direita, ostensivamente mais radicalizado que o anterior, envolvendo grupos de seguidores dispostos a tudo por seus líderes.

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Nestas 48 horas após a divulgação do resultado eleitoral, o noticiário argentino tem se dividido entre mostrar as primeiras medidas e movimentos do presidente eleito ao mesmo tempo em que, por todo o país, as pessoas tentam entender o que pode acontecer a partir de agora. 

Milei já anunciou privatizações nas comunicações e indústria petrolífera, prometeu ao jornalista “Bertie” Benegas Lynch que revogará a Lei do Aborto e praticamente já nomeou todos os ministros do seu governo, um total de oito, sendo que a vice-presidente Victoria Villarruel será também a ministra da Defesa – ela é filha de um ex-torturador e advogada negacionista defensora de criminosos da Ditadura Militar (1976-1983).

Feministas, comunidade LGBTQIA+, grupos de esquerda, imigrantes e organizações como a Associação Civil Avós da Praça de Maio (Abuelas de Plaza de Mayo), voltadas à Justiça de Transição, reparação e não repetição dos crimes da ditadura, além da busca pelo paradeiro de mortos e desaparecidos políticos, temem uma profunda retração em suas conquistas e pautas com medidas que devem ser adotadas em breve.

Uma delas foi anunciada por Villarruel: o fechamento do Museu da Memória instalado na antiga Escola Superior de Mecânica da Armada (Esma), um antigo centro de tortura e morte da ditadura, convertido a um espaço de denúncia permanente do horror autoritário que a campanha de Milei negou que tenha acontecido, incluindo os 30 mil mortos e desaparecidos.

Sem articulação, por enquanto

No Pagina 12, articulistas especulam sobre o fato de Milei não ter feito composições políticas para nomear sua equipe de governo, ainda mais pelo fato de que ele acabará com um conjunto significativo de ministérios. Por exemplo, Gilhermo Ferraro assumirá o superministério de Infraestrutura, que concentrará comunicações, mineração, transportes, energia e obras públicas.

Ferraro dirigiu durante 13 anos a sede argentina de KPMG, multinacional que oferece assessoria financeira em 156 países. Jornalistas questionam como essa postura de não compor com as demais forças poderá ajudar Milei no Congresso Nacional.

Argentinos ouvidos pela redação do GGN mostram que na tensão referente ao que está por vir, há aqueles que acreditam no país em um Milei diferente das eleições, sem tanto poder para fazer o que lhe vier à cabeça, e que ele pode ser um fantoche nas mãos do ex-presidente Maurício Macri. Mas a ressaca ainda não se desfez, a incerteza é o cenário das especulações.

Tal como no Brasil com relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o eleitorado de Milei não é composto majoritariamente por extremistas de direita. Uma grande parte se mostra cansada com as dificuldades das instituições em conseguir melhorar a vida da população, estando concentrada nos interiores do país. Este grupo não acredita que Milei governará como um louco perigoso.

Voltando ao segundo turno

A extrema direita varreu todo o voto moderado e centrista, ficando – com um crescimento de 25% – todos os votos da direitista Patricia Bullrich, da coligação Todos pelo Câmbio, liderada pelo ex-presidente Maurício Macri, que tinha obtido 23% dos votos no primeiro turno.

O estabelecimento desta aliança com o Todos pelo Câmbio pode ter também contribuído com a estratégia de Milei nos últimos dias, incluindo o debate presidencial, que envolveu uma reformulação eficaz da imagem. 

Do ‘Milei agressivo’, com motosserra, de atitude feroz, insultuosa, personagem capaz de insultar até o Sumo Pontífice, passou para o ‘Milei político’, muito mais moderado e racional, modificando um bom número de elementos de seu repertório discursivo sobre políticas sociais, sua abordagem à esquerda e às relações internacionais.

Esta reengenharia do personagem significou uma certa mudança que permitiu ganhar a confiança dos moderados para votar nele, sem os temores suscitados pela campanha peronista, que não teve sucesso, muito embora os materiais tenham sido bem feitos e incisivos.

O resultado acabou sendo um duro golpe para o peronismo: se Mauricio Macri venceu em 2015 com uma diferença de 3%, em relação ao candidato peronista Daniel Scioli, Milei levou 11% de vantagem sobre Sergio Massa, que era um peronista de direita, mas que caminhou para o centro.

O que será da Argentina? 

Todos os esforços do governo na Argentina para controlar a situação econômica não foram suficientes para convencer a população a não adotar saídas desesperadas nas eleições. O governo do presidente Alberto Fernández se mostrou ineficaz para reverter os problemas deixados por Macri.  

Na verdade, as perspectivas tornaram-se mais indeterminadas. Paralelamente, a Argentina assistiu ao surgimento do crime organizado e comum. Por tudo isto, se retirarmos a miragem da campanha de segundo turno, uma derrota do peronismo não só era previsível, mas mais esperada do que em 2015.

Com Milei na Casa Rosada, poderá haver desestabilização na esfera social, pelos efeitos que as medidas econômicas prometidas podem ter numa sociedade já bastante empobrecida. 

Acabar com o Banco Central, dolarizar a economia e promover uma onda de privatizações pode ser um coquetel fatal a médio e longo prazo, mesmo que agora a Bolsa de Valores de Buenos Aires esteja fechando em alta dado o discurso “tudo ao mercado, nada ao Estado” defendido por Milei.   

Com efeito, Milei promete reprimir os sindicatos, os movimentos sociais e o próprio peronismo, dada a força que eles têm na Argentina, e compondo uma uma oposição que obteve 44% dos votos, o que não é pouco e pode complicar o desenrolar das vontades do atual governo.

Situação no Congresso 

Sem maioria no Congresso Nacional, Milei não poderá governar sozinho com A Liberdade Avança. Além da falta de experiência política do grupo, composto por parlamentares eleitos alheios ao fazer político, caso da ex-maquiadora de Milei, o presidente precisará de composição política. 

Com isso, o ex-presidente Maurício Macri deverá ter importante influência no governo Milei sendo o principal articulador do Congresso – contando com os deputados do Cambiemos, a coligação macrista de 2015 responsável por eleger parte da bancada a qual os eleitos este ano pelo Todos pelo Câmbio se juntam. 

No primeiro turno, disputado em 22 de outubro, os eleitores argentinos foram às urnas para renovar parte do Congresso Nacional. Estavam em votação 130 dos 257 assentos da Câmara dos Deputados e 24 das 72 vagas do Senado.

Dessa maneira, o novo presidente encontrará a Câmara dos Deputados com o União pela Pátria ocupando 108 assentos, o Juntos pelo Câmbio ocupará outros 94 e o A Liberdade Avança, que antes só tinha três legisladores, conseguiu 39, tornando-se a terceira força. 

Os grupos restantes totalizam 17 deputados: sete para o Peronismo Federal, quatro para a Frente de Esquerda e Operários e outros seis para partidos provinciais.

No Senado foram renovadas 24 cadeiras, das 72 disponíveis, correspondentes às províncias de Buenos Aires, Formosa, Jujuy, La Rioja, Misiones, San Juan, San Luis e Santa Cruz. 

O União Pela Pátria obteve 12 cadeiras, e agora tem 34, encurtando o espaço do Juntos pela Mudança, que fica com 24 das 33 que possuía, mantendo, porém, a posição de primeira minoria.

Enquanto isso, A Liberdade Avança conseguiu oito cadeiras entrando pela primeira vez no Senado. Outras três serão para o Peronismo Federal e mais três para os partidos provinciais.

Tensionamento pode escalar 

Na Argentina é tratada como previsível a possibilidade que os setores mais radicalizados do conservadorismo tentem agora acelerar saídas inconstitucionais, como aconteceu depois de 2015, quando boa parte da liderança de esquerda foi politicamente desqualificada e perseguida.

A vitória de Milei significa uma mudança importante no imaginário político argentino, mas pode trazer uma desestabilização muito maior, comenta o jornalista Ociel Alí López. 

No entanto, foi por isso que os argentinos votaram nele: para perturbar as instituições atuais, incapazes de solucionar crises espraiadas na vida cotidiana da população. O peronismo, apontam comentaristas, terá que saber lidar com esta reivindicação.

O peronismo pode voltar a tomar o território simbólico que perdeu com o naufrágio do governo Alberto Fernández, especialmente se a experiência da extrema direita repetir os erros políticos de Maurício Macri, que ironicamente – ou tragicamente – dificultaram a atual gestão que agora se retira da Casa Rosada.

Com informações do Pagina 12, Clarín, Agência RT e El País

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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  1. Paulo Dantas

    21 de novembro de 2023 10:27 pm

    Você vai contratar alguém , o cara fala que conversa com cachorro morto, reclama do falatório na sala (que só tem vocês dois).

    Fala que se contratado vai fechar a contabilidade.

    Diz que vai falar uns desaforos para o principal cliente.

    Você contrata o cara …

    Tudo bem que o antecessor dele quase faliu a firma …

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