A vergonha e a utopia
por Felipe Bueno
Dentre as punições não escritas aplicadas a uma nação por ter eleito governantes desqualificados certamente está a vergonha pública internacional por tempo indeterminado. Ocorreu-me isso logo no início da leitura do recém-lançado Nexus, novo livro de Yuval Noah Harari (não posso comentar nada sobre a obra em si porque ainda estou bem no começo): poucas páginas foram necessárias para que o autor israelense citasse o nome de Jair Bolsonaro num trecho destinado a exemplificar líderes nacionais sem compatibilidade com a democracia.
Puxei pela memória e outros nomes recentes de autoras e autores estrangeiros me vieram à mente. A conclusão é imediata: o ex-presidente brasileiro, ao lado de outros conhecidos candidatos a tiranos, conseguiu, sem nunca ter pretendido, uma vez que tal universo não faz parte de seu horizonte, estar nas páginas de livros sérios de política, história, sociologia, antropologia e sabe-se lá o que mais. Que esteja nas análises de especialistas locais é natural. Mas ser destaque para além de nossas fronteiras só demonstra que o estrago realmente foi grande. Entramos na galeria de nações que dão poder a governantes que são exemplos de más práticas em cargos públicos com respaldo popular – sim, popular; afinal de contas, inelegível ele está, por enquanto, mas o séquito bolsonarista continua em busca de novos messias de roupa verde-amarela. Aliás, não faz nem um ano que o Museu da Fifa vinculou a camisa da CBF à extrema-direita brasileira. Nossa vergonha, como escrevi acima, não tem hora para acabar.
Somos objetos de estudos de caso, e certamente não por razões que nos dariam orgulho!
O Brasil, mundialmente famoso pela competência de sua diplomacia, ainda vai pagar um bom tempo pela dose de soft weakness que ministrou ao mundo, até porque há um contingente internacional que segue confundindo liberdade popular com o poder dos escolhidos e seus amigos.
Tal patologia, infelizmente, não é uma exclusividade nossa.
Coincidentemente, me lembro de que nosso atual presidente falou poucos dias atrás na Assembleia Geral da ONU. Descontadas algumas platitudes e o pouco resultado prático a esperar da maioria dos tópicos escolhidos por Lula (fim da violência entre as nações, reforma da ONU, pacto para o futuro etc.), a comparação com o antecessor faz-se completamente descabida: é como subir direto da última para a primeira divisão.
Estamos de volta ao grupo das nações civilizadas, pelo menos por enquanto. Mas reassumir o lugar na elite não é o suficiente; precisamos buscar o pódio, de preferência no lugar mais alto.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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