How soft is our power?
por Felipe Bueno
Passados dois meses do início de um novo momento na história brasileira, faz sentido perguntar: quão soft é nosso power?
“O cara” de Obama[1] voltou ao poder, mas o mundo versão 2023 é bem diferente do modelo 2009. Às vezes potência, às vezes ato, o questionamento à democracia como solução para todos os problemas do mundo já não é uma novidade. Fagulhas, porém, cada vez com mais frequência se transformam em incêndios. Numa época em que se multiplicam os canais de comunicação e cada vez mais vale a expressão verba volant, ao mesmo tempo diminui proporcionalmente a leitura crítica da scripta manent, quebrando a estrutura do clássico provérbio. Se antes as palavras voavam e a escrita permanecia, hoje a velocidade é supersônica, mas a permanência da mensagem é controversa, até porque ela é cada vez mais fácil de distorcer. Se todos têm voz, qualquer megafone virtual pode fazer barulho e estrago.
No espaço de quase catorze anos entre a celebração mundial de Lula e o dia de hoje, Putin consolidou seu papel de proprietário da Rússia, assim como Erdogan segue sendo o acionista majoritário da Turquia, para ficar em apenas dois exemplos relevantes de líderes sem grandes compromissos com valores democráticos. Porém, uma coisa é esperar más notícias de onde se sabe que sairão. Outra é ver, nessa década e meia, que a maré de desprezo pela democracia, que praticamente inunda o Oriente Médio e a África faz décadas, se alastrou pela Europa, ameaçando a diversidade e a permeabilidade históricas do continente que, pelo bem e pelo mal, aprendeu e nos ensinou a convivência entre os povos. Hungria, Polônia, Áustria, Croácia, França, Itália e outros, cada pedaço do que nos anos 90 seria o futuro harmônico do planeta, tem entre seus colégios eleitorais sementes reacionárias com saúde para brotar. Muitas inclusive já estão na fase dos frutos.
Por mais que Lula seja nome conhecido no cenário internacional, por mais que nossa diplomacia imponha respeito pelos seus feitos do passado, ainda é preciso dimensionar o tamanho do estrago real causado por quatro anos do pior governo da história do Brasil.
Num momento em que nem o futebol nacional está despertando afetos, resta saber de que maneira, economia à parte, podemos marcar posição no xadrez internacional.
Na minha primeira contribuição nesse espaço, quero deixar perguntas e tenho a pretensão de despertar pensamentos. Vejo, sim, de onde podem sair contribuições para que, mais que o presidente volte a ser “o cara”, o Brasil passe a ser “o país”: olhando para dentro, acima de tudo para o ensino em todos os níveis, culminando na produção universitária que possa dialogar com indivíduos e instituições do mais alto nível no planeta. Mas, num país que não tem nem 6 mil bibliotecas públicas para 214 milhões de habitantes, como podemos fornecer massa crítica para o mundo?
Não paro por aí: defendo olhar também para a nossa produção cultural: a música, a literatura, o cinema, as artes plásticas em geral. Uma pequena revolução se faz necessária para que nossos nomes ocupem livrarias, teatros, galerias, seminários e universidades em qualquer idioma.
Para combater a onda reacionária, nada melhor que exportar pensamento democrático, includente, diverso, progressista, numa Tropicália invertida em que nós seremos o alimento.
[1] Num evento do G20 em Londres, em 2009, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva foi elogiado publicamente pelo homólogo Barack Obama. Segundo o norte-americano, Lula seria então “o cara”, “o político mais popular do mundo”.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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