Israel e o mito fundador, por Bruno Alcebino da Silva

A corajosa fala do presidente Lula, ao denunciar as práticas de Israel, desmonta a eterna vitimização como argumento para a matança em Gaza.

Ricardo Stuckert

Israel e o mito fundador

por Bruno Fabricio Alcebino da Silva[1]

O conflito entre Israel e Palestina é uma questão complexa e profundamente enraizada, que remonta ao século XX e tem suas raízes tanto em disputas territoriais quanto em questões étnicas e religiosas. Para compreender plenamente o impacto do conflito sobre os palestinos, é essencial examinar o mito fundador de Israel, que desempenha um papel significativo na narrativa histórica da região. A corajosa fala do presidente Lula, ao denunciar vigorosamente as práticas de Israel, colocando-as lado a lado com os horrores do Holocausto perpetrado por Adolf Hitler, desmonta a eterna vitimização como argumento para a matança em Gaza.

O mito fundador de Israel é intrínseco à narrativa sionista, que promove a ideia de um retorno histórico e religioso do povo judeu à sua terra ancestral. Esse mito alimentou a construção de um Estado judeu na Palestina, desconsiderando os laços históricos e culturais dos palestinos com a região. A promessa de um lar nacional para os judeus acabou por desencadear um processo de colonização e deslocamento dos palestinos, culminando na Nakba, ou “catástrofe”, de 1948, quando cerca de 750 mil palestinos foram expulsos de suas terras.

Desde então, o conflito tem sido marcado por guerras, ocupação, violência e uma profunda assimetria de poder entre o Estado de Israel e os palestinos. A construção de assentamentos judaicos em territórios palestinos ocupados tem sido uma fonte constante de tensão, exacerbando as disputas territoriais e minando as perspectivas de uma solução de dois estados viável.

Os palestinos têm sido privados de seus direitos básicos, incluindo o acesso à terra, água e liberdade de movimento, devido às políticas de ocupação israelense. O bloqueio imposto à Faixa de Gaza tem gerado uma crise humanitária, com condições de vida insustentáveis para seus habitantes. Além disso, os palestinos enfrentam discriminação sistemática dentro de Israel e são frequentemente tratados como cidadãos de segunda classe.

O mito fundador de Israel, ao justificar a presença judaica na Palestina em detrimento dos direitos dos palestinos nativos, têm servido como uma barreira para a paz e a reconciliação. Enquanto Israel busca garantir sua segurança e legitimidade como Estado, os palestinos continuam a lutar por seu direito à autodeterminação e à justiça.

O que é o mito fundador?

O mito fundador é uma construção simbólica que transcende o mero relato histórico, moldando a identidade e a visão de mundo de um povo. Ele não apenas narra a origem e os fundamentos de uma comunidade, mas também fornece um arcabouço ideológico que orienta suas ações, justifica suas políticas e molda suas relações com outros grupos. No contexto de Israel, o mito fundador desempenha um papel central na criação e na consolidação do Estado judeu, especialmente em contraste à sua complexa relação com os palestinos.

Ao explorarmos o conceito de mito, não apenas o compreendemos como uma narrativa lendária de feitos comunitários, acontecidos ou não, mas também como uma solução imaginária para tensões e conflitos não resolvidos na realidade. O termo “mito fundador” destaca-se, pois, como toda fundação, essa construção coletiva estabelece um vínculo intrínseco com um passado considerado como origem, mantendo-se perpetuamente presente e impedindo a compreensão do presente como entidade distinta. Sob essa ótica, o mito funciona como um impulso à repetição do imaginário, obstruindo a percepção da realidade.

A filósofa Marilena Chauí, em seu livro Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária [2000], discute essa característica do mito ao afirmar que “um mito fundador é aquele que não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e ideias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo”. Essa citação destaca a capacidade do mito de se adaptar e se manifestar de diferentes formas ao longo do tempo, mantendo sua essência inalterada.

A distinção entre fundação e formação é crucial aqui: enquanto a formação histórica considera os processos temporais e as transformações ao longo do tempo, a fundação remete a um momento passado imaginário, percebido como um instante originário perene que permeia e dá sentido ao curso temporal.

O mito fundador fornece um repertório inicial de representações idealizadas da realidade, que são reorganizadas ao longo da história, tanto em termos de sua hierarquia interna quanto da ampliação de seu significado. As ideologias, por sua vez, alimentam-se dessas representações, adaptando-as às novas circunstâncias históricas. Assim, o mito persiste, reinventando-se sob novas roupagens, mas mantendo sua essência inalterada.

No entanto, esse retorno e a busca por autodeterminação para os sionistas foram realizados à custa dos direitos e das aspirações dos palestinos que já habitavam a região. Resultando em tensões, disputas e, em última análise, em conflitos violentos. Assim como a “terra abençoada por Deus” foi reivindicada para justificar a colonização do Brasil, a Terra de Israel foi reinterpretada como o lar ancestral e inalienável do povo judeu, legitimando sua posse em detrimento dos palestinos.

O mito fundador de Israel, assim como no caso do Brasil, é uma construção histórica e cultural realizada à posteriori que moldou as percepções e as relações de poder na região, legitimando a opressão dos palestinos em nome de uma identidade nacional e religiosa exclusiva. Compreender o impacto do mito fundador de Israel é essencial para entender a dinâmica do conflito israelo-palestino.

Identidade nacional

O mito fundador é uma narrativa central na formação e na manutenção da identidade nacional de um Estado. Ele é uma história compartilhada que fornece uma base de legitimidade e coesão para a comunidade política, muitas vezes destacando elementos como origens históricas, valores culturais e conquistas heróicas. Essa narrativa de identidade nacional não apenas une os cidadãos em torno de um senso de pertencimento comum, mas também serve como uma justificativa para a existência e a autoridade do Estado.

Em muitos casos, o mito fundador é usado para legitimar reivindicações territoriais e políticas, justificando a soberania sobre um determinado território ou afirmando a superioridade de uma determinada comunidade étnica ou cultural. Por exemplo, o mito fundador dos Estados Unidos enfatiza a ideia de uma “nação de imigrantes” que buscavam liberdade e oportunidade, o que ajuda a justificar a presença contínua de uma população diversificada e o papel do país como um farol de democracia e progresso.

É importante notar que o mito fundador não é apenas uma narrativa estática e idealizada do passado, mas também é frequentemente reforçado e reinterpretado ao longo do tempo para atender às necessidades políticas e sociais em evolução. Por exemplo, em momentos de crise ou conflito, os líderes políticos podem recorrer ao mito fundador para mobilizar o apoio popular e fortalecer a coesão nacional. O mito fundador em geral é conservador e justifica sempre o status quo.

No entanto, o mito fundador também pode ser contestado e questionado, especialmente por grupos marginalizados ou subalternos que contestam sua exclusão ou narrativa dominante. Por exemplo, os povos indígenas nas Américas frequentemente contestam o mito fundador de colonização e exploração, buscando reconhecimento de suas próprias narrativas e direitos territoriais.

O que é uma nação?

A construção da identidade nacional e do Estado-nação é um fenômeno que emerge tardiamente na história, com raízes antigas. A noção de “nação” surge por volta de 1830, mas suas origens remontam ao latim “natio”. Antes disso, as estruturas políticas referiam-se mais a “povo” e “pátria”. O Estado-nação desenvolveu-se influenciado por revoluções no século XVIII, redefinindo a pátria como território governado pelo povo. No século XIX, a ideia de nação consolidou-se, destacando o Estado-nação como entidade autônoma. Princípios como nacionalidade, língua e território foram fundamentais, fortalecendo o nacionalismo. Ao longo do tempo, a ideia de nação tornou-se arraigada na consciência coletiva, fornecendo uma base poderosa para a coesão social e política. No entanto, também foi explorada por regimes autoritários, como o nazifascismo, e remonta agora às ações de Israel. Em suma, a construção da nação é um processo histórico complexo, moldado por forças sociais, econômicas e políticas, que continua a evoluir.

Moisés e o êxodo

Moisés é uma figura central não apenas na história do povo judeu, mas também na construção da identidade religiosa e cultural ocidental. Sua trajetória, imortalizada nos relatos bíblicos, é o cerne da fundação do judaísmo e influencia diversas outras tradições religiosas e culturais até os dias de hoje.

O mito fundador do povo judeu encontra suas raízes na narrativa contida na Torá, também conhecida como Pentateuco, que compreende os primeiros cinco livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Esses textos sagrados não apenas fornecem uma explicação sobre a origem do povo judeu, mas também estabelecem os fundamentos de sua cultura, tradições e instituições.

A Torá, princípio central do Judaísmo, estabelece a relação especial entre Deus e o povo judeu através da Revelação no Monte Sinai, onde Moisés recebeu os mandamentos divinos. Essa narrativa não apenas conta a história desde os patriarcas até a libertação do Egito e a jornada à Terra Prometida, mas também estabelece os princípios éticos e religiosos que guiam a vida judaica. Além disso, a Torá serve como um elo entre as gerações, transmitindo uma herança espiritual e cultural que mantém viva a identidade judaica ao longo dos milênios.

A historicidade de Moisés é debatida entre historiadores, sem confirmação definitiva de sua existência como pessoa única. Reconhecido como uma síntese de grandes líderes, a narrativa bíblica o apresenta como nascido no Egito, criado na corte, e posteriormente libertador de Israel. A falta de evidências levanta dúvidas sobre detalhes de sua vida.

A narrativa em torno de Moisés é repleta de simbolismo e significados religiosos, sendo reinterpretada e ressignificada ao longo das gerações. Seja como uma figura histórica ou uma construção mítica, Moisés continua a inspirar e influenciar a humanidade, transmitindo lições de liderança, identidade e fé, além de legitimar a suposta posse dos judeus ao território hoje ocupado pelo Estado de Israel

Lula e a situação atual

A fala incisiva do presidente Lula, ao equiparar a ação militar israelense na Faixa de Gaza com o massacre perpetrado por Adolf Hitler contra os judeus na Alemanha nazista, não apenas desafia o mito fundador de Israel, mas também lança uma crítica contundente à justificação histórica do Estado judaico. O mito de Israel, construído em parte sobre a necessidade de um refúgio para os judeus após a real perseguição durante a Segunda Guerra Mundial, é confrontado por Lula ao desmantelar a persistente narrativa de vitimização como justificativa para as operações em Gaza.

A resposta vigorosa de Israel, liderada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, denuncia as palavras de Lula como “vergonhosas” e acusa o presidente brasileiro de banalizar o Holocausto e de prejudicar o povo judeu e o direito de Israel à autodefesa. No entanto, essa resposta intensa não consegue dissipar as preocupações subjacentes levantadas por Lula.

Ao contextualizar as ações israelenses na Faixa de Gaza em paralelo ao genocídio perpetrado por Hitler, Lula questiona a moralidade e a legalidade das operações militares em curso. Essa crítica, embora provocativa, aponta para a necessidade urgente de uma análise crítica das políticas israelenses, especialmente em relação aos direitos humanos dos palestinos e à contínua ocupação de territórios.

A comunidade internacional há muito debate as medidas tomadas por Israel, e Lula, ao trazer o Holocausto para o centro dessa discussão, destaca a importância de considerar as complexidades éticas e históricas envolvidas no conflito israelense-palestino. A controvérsia gerada por suas palavras reflete não apenas as tensões presentes na região, mas também a necessidade de uma abordagem mais crítica e equitativa para alcançar uma resolução duradoura.[2]

Referências bibliográficas

Chauí, M. Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária. Fundação Perseu Abramo, 2000.


[1] Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

[2] Agradeço ao professor Doutor Gilberto Maringoni pela troca de ideias e contribuição.

Redação

2 Comentários

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  1. “A historicidade de Moisés é debatida entre historiadores, sem confirmação definitiva de sua existência como pessoa única”. Errado. Nenhum historiador serio e desvinculado de crenças religiosas irracionais sequer considera a possibilidade de Moisés ter existido no mundo nao-literario. Jamais existiu um “exodo” e isso eh um fato amplamente documentado e comprovado pela arqueologia. Nem as narrativas miticas do tal “Velho Testamento” nem as do “Novo Testamento” guardam qualquer relação com a historiografia ou acontecimentos verdadeiros do mundo real, sao meramente obras de ficcao, concebidas para doutrinamento ideologico, controle social e entretenimento. Moises, Jesus, chapeuzinho vermelho e papai noel sao a mesmissima coisa: personagens literários.

  2. Os mitos são enigmas, que nos dizem : Decifra-me ou eu te devoro.
    Os mitos também são objetos da apropriação. Sempre são narrativas criadas em cima de fatos históricos sobre os quais eles mesmos são evidência e prova, mas sempre tratados como se fossem independentes da própria história da apropriação. Para alguns os mitos são como conceitos gregos, são absolutos, ahistóricos e existem independente dos seres humanos Curiosamente a sociedade antiga o moderna se moveu em cima das interpretaçoes e narrativas mitológicas Digam-me uma guerra física ou não que não tenha sido feita mobilizando mitos.??

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