O governo brasileiro expressou, nesta terça-feira (13), preocupação com a escalada de violência no Irã, onde uma onda de protestos contra o regime já resulta em um balanço de mortos que pode chegar a milhares. Em nota oficial, o Itamaraty defendeu a soberania de Teerã para resolver a crise interna, distanciando-se da postura agressiva adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prometeu intervir e punir parceiros comerciais do país persa.
“O governo brasileiro acompanha, com preocupação, a evolução das manifestações que ocorrem, desde o dia 28 de dezembro, em diversas localidades do Irã”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores. O comunicado enfatiza que a solução deve ser interna: “Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo”.
Crise econômica e repressão
As manifestações, que representam o maior desafio ao regime dos aiatolás desde o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade” (2022-2023), tiveram início após comerciantes do Grande Bazar de Teerã protestarem contra a inflação galopante e o colapso do rial, a moeda local. O estopim foi a decisão do banco central iraniano de extinguir um programa de subsídio ao dólar para importadores, o que fez os preços de itens básicos, como óleo e frango, dispararem.
O custo humano da repressão é incerto, mas elevado. A ONG Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega, confirmou ao menos 734 mortes, alertando que o número real pode passar de 6.000. Por outro lado, as próprias autoridades iranianas admitiram, em um raro reconhecimento público, cerca de 2.000 mortes durante os confrontos, que já se espalharam por mais de cem cidades.
Para conter o movimento, o governo ordenou um apagão digital. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, justificou o bloqueio da internet à rede Al Jazeera, alegando que o regime se deparou com “operações terroristas” coordenadas do exterior.
Ameaça tarifária de Trump
A crise em Teerã aprofundou o abismo diplomático entre Washington e seus parceiros. Donald Trump utilizou sua plataforma, a Truth Social, para incentivar a continuidade dos atos. “Patriotas iranianos, MANTENHAM AS MANIFESTAÇÕES”, escreveu o republicano. “Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que CESSEM este massacre sem sentido de manifestantes. A AJUDA ESTÁ A CAMINHO”.
Além da retórica de apoio, Trump anunciou que aplicará “imediatamente” tarifas de 25% a países que mantenham relações comerciais com o Irã. A medida atinge diretamente os interesses brasileiros, já que o país é um dos principais parceiros comerciais de Teerã na região.
O peso comercial para o Brasil
A cautela do Itamaraty reflete a importância estratégica do Irã para o agronegócio nacional. Em 2025, as exportações brasileiras para o mercado iraniano superaram os US$ 2,9 bilhões, consolidando o país como o quinto principal destino das vendas brasileiras no Oriente Médio, à frente de mercados como Rússia e Suíça.
A pauta de exportações é liderada por milho, soja, açúcar e farelo animal. Um eventual endurecimento das sanções americanas ou a aplicação de tarifas retaliatórias contra o Brasil poderia desestabilizar setores cruciais da economia nacional, que mantém relações diplomáticas com os iranianos desde 1903.
Até o momento, o Itamaraty informou que não há registro de brasileiros mortos ou feridos nos confrontos e que segue monitorando a situação da comunidade nacional residente no país.
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