As recentes decisões políticas tomadas nos Estados Unidos podem ter consequências diretas sobre a saúde pública — e, em última instância, sobre a expectativa de vida da população.
O alerta é do economista e prêmio Nobel Paul Krugman, por conta de uma mudança regulatória recentemente anunciada pela FDA (agência sanitária americana), que autorizou a venda de cigarros eletrônicos com sabores como manga e blueberry.
A medida rompe com diretrizes anteriores, que buscavam restringir produtos atrativos ao público jovem, diante do risco de ampliação do consumo de nicotina.
Segundo Krugman, a decisão teria ocorrido sob pressão política direta de Donald Trump, que, após aproximação com lobistas do setor, passou a defender a flexibilização como estratégia para recuperar apoio entre eleitores jovens.
Ao mesmo tempo, reportagens indicam que estudos internos da própria FDA — que apontavam a segurança de vacinas contra Covid-19 e herpes-zóster — teriam sido barrados. As pesquisas, financiadas com recursos públicos e baseadas em milhões de registros médicos, mostravam que efeitos colaterais graves são raros, contrariando narrativas disseminadas por movimentos antivacina.
Para Krugman, esses episódios são parte de um padrão mais amplo: a crescente politização da ciência nos Estados Unidos.
Expectativa de vida e política
Um dos pontos centrais do argumento é a deterioração da expectativa de vida no país. Hoje, os americanos vivem menos do que habitantes de outras nações ricas — e, em alguns casos, apresentam indicadores próximos aos de países mais pobres da Europa.
Se os EUA estavam alinhados com outras economias desenvolvidas até os anos 1980, a inflexão do quadro teve início durante o governo do republicano Ronald Reagan, marcado pela redução do papel do Estado em políticas sociais.
Dados mais recentes reforçam a correlação: estados com maior apoio a Trump tendem a apresentar menor expectativa de vida. Entre os fatores explicativos estão:
- menor cobertura de saúde
- resistência à expansão do Medicaid
- maior vulnerabilidade social
- menor adesão a políticas públicas de saúde
A pandemia de Covid-19 escancarou essa divisão. Regiões com menor adesão à vacinação registraram taxas de mortalidade significativamente mais altas.
Estudos citados por Krugman indicam que, em áreas politicamente mais conservadoras, o número de mortes per capita chegou a ser até três vezes maior do que em regiões mais alinhadas a políticas pró-ciência.
Krugman atribui esse cenário a dois vetores principais:
1. Interesses econômicos
Setores empresariais teriam atuado historicamente para desacreditar evidências científicas — do tabaco às mudanças climáticas — visando proteger seus lucros. A indústria de produtos alternativos, como os cigarros eletrônicos, se insere nesse contexto.
Além disso, o mercado de terapias alternativas e conteúdos antivacina movimenta recursos significativos, especialmente em mídias conservadoras.
2. Rejeição ideológica à ciência
Parte da base política conservadora nos EUA mantém resistência a consensos científicos, o que se refletiu de forma clara durante a pandemia.
Ou seja: na visão de Krugman, a combinação entre desinformação, enfraquecimento de políticas públicas e decisões regulatórias orientadas por interesses políticos pode agravar problemas estruturais da saúde americana – e os efeitos que já são visíveis tendem a se intensificar nos próximos anos.
Rui Ribeiro
7 de maio de 2026 9:36 amO Paul Krugman é uma voz que clama no deserto. Uma andorinha só querendo fazer verão. Ele não saca que a proletarização da classe média é uma tendência inexorável do capitalismo e culpa o governo Trump por isso. Igual a classe média brasileira, que culpa o Lula por sua proletarização e absolve o verdadeiro culpado, a burguesia. Cada vez mais, a sociedade burguesa se divida em duas classes: Proletariado e uma burguesia cada vez mais encolhida.