24 de junho de 2026

Putin e a dança com lobos, por Daniel Afonso da Silva

Vladmir Putin parece, a todos instante, dançar com lobos ao mesmo tempo que joga dados com ursos. Ninguém pode negar.
Sputnik

Dança com lobos

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por Daniel Afonso da Silva

Era previsível a estridência da repercussão da entrevista do presidente Putin nas vésperas do carnaval de 2024, dos vinte e quatro meses de tensão eslava, das eleições europeias e norte-americanas e da presidência russa dos BRICS. Centenas de milhões de pessoas acessaram o conteúdo integral desde a sua primeira difusão no dia 8 de fevereiro e outros bilhões de seres humanos tomaram conhecimento de seus excertos nos dias que se seguiram. Foi um evento-monstro. Quase sem-nome. Indiscutivelmente o maior desde o início da nova fase russo-ucraniana-europeia-norte-americana-ocidental-mundial e, talvez, o mais relevante desde o 7 de outubro de 2023. Ninguém pode passar indiferente.

Com a mediação de Elon Musk, o jornalista e animador Tucker Carlson organizou a conversação com o mandatário do Kremlin e prometeu apresentar as perguntas que ninguém tinha tido coragem ou oportunidade de apresentar. E assim o fez. Sem pressa nem surpresas. Cumpriu-se, de parte a parte, o desejado e a mise-en-scène russa imperou.

Do início ao fim, sem apelação, o herdeiro de Stálin e Catarina, mais uma vez, evidenciou porque ele segue tão amado e tão temido, considerado e detestado, condenado e exaltado, bem ao estilo do tipo ideal de Maquiavel. Esmoleres não centralizam atenções.

Suas palavras disseram muito. Seu corpo e seus olhos falaram mais ainda.

Nenhuma movimentação internacional contemporânea ficou sem um comentário desconcertante. Nenhum ator mundial de relevo deixou de ser mencionado. Conversa de gente grande, classificada apenas para adultos.

 Em duas horas e tanto, esse cidadão de mais de setenta anos de idade, mais de vinte no poder e quase quarenta nas engrenagens do estado russo foi indiferente à fadiga, ao marasmo, à monotonia das perguntas e à indelicadeza das provocações. Um homem de ninguém. Feito seus antecessores. Na Rússia e mundo afora.

Da qualidade de tímido assessor do presidente Iéltsin trinta anos atrás, hoje, ele se tornou em um dos maiores estrategistas do planeta. Poucos mandatários possuem tamanho domínio lógico, retórico e moral de dossiês, conjunturas e situações. Impressionante. Vladmir Putin parece, a todos instante, dançar com lobos ao mesmo tempo que joga dados com ursos. Ninguém pode negar. Tucker Carlson foi apenas um álibi para se trazer essa lembrança o mundo inteiro.

Nos vinte e quatro meses da nova fase da tensão russo-ucraniana, a resposta do presidente Putin foi basicamente o silêncio. Quem falou e gritou – e muito – foi a sua contraparte, o presidente Zelensky.

Meses – um ou dois – após o início das escaramuças, o presidente ucraniano já era, incrivelmente, tido como homem de estado. Talvez o “único em atividade no planeta” ou, pelo menos, “o mais corajoso de todos”.

Um ano depois, todo o Ocidente já percebia a imensa armadilha contida nessa avaliação. Toda a piedade ao encontro da Ucrânia era, moralmente, necessária, mas não possuía amparo nos cofres públicos dos doadores.

Entendeu-se rápido que boas intenções têm limites.

Sem recursos estrangeiros, o homem providencial de Kiev voltou a ser o que sempre foi: um bonifrate. Só que, agora, nada engraçado nem profissional.

A aparição do presidente Putin veio simplesmente reforçar essa evidência evidente: o trágico existe e lobos só dançam com lobos.

Não precisa ler Tolstói nem meditar sobre Guerra e Paz para se dimensionar o mau-caratismo daqueles que vaticinam a derrota da Rússia. Basta que se retorne com calma a essa entrevista do presidente russo para se notar – goste-se ou não do presidente russo – a tranquilidade do representante da alma dos mujiques. Nela, mais uma vez, como porta-voz desse povo eterno, ele lembrou – como fizeram todos os Romanov e depois Lênin, Stálin e o próprio presidente Gorbatchev – que os russos estão sempre dispostos a lutar até o seu último homem para a manutenção da Rússia e dos russos, pois, efetivamente, não há nenhum sentido num mundo sem a Rússia e russos. Todo o contrário não passa de ilusão.

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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