4 de junho de 2026

Sobre Jürgen Habermas e o Brasil de 2015

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O tolo ignora o “todo” ou supõe o todo a partir da sua própria parte. O cínico conhece o todo, mas desconsidera-o por interesse ou conveniência; o ingênuo sonha ser possível desprezar o todo, ou mudá-lo apenas a partir das partes, por ato de pura vontade.

Para fazer ou pensar a política sem a superficialidade dos tolos, a falsidade dos cínicos ou o voluntarismo dos ingênuos, é preciso entender os limites da própria política e das ações dos governos face à totalidade em que estão inseridos.

O filósofo alemão Jürgen Habermas, um dos mais importantes intelectuais e humanistas do século XX, disse certa vez, em entrevista à Bárbara Freitag e Sérgio Pulo Rouanet, nos idos anos de 1995: “devo confessar que, desde 1989, lamentei pela primeira vez não ser economista”. Para ele, com o processo de globalização da produção e do mercado de capitais, “o Estado Nacional, visivelmente, já não controla as condições de produção da sua própria economia. Temos hoje uma globalização do mercado de capitais que afeta as condições de produção, provocando uma generalização e globalização da própria produção, cujas condições perderam seu caráter nacional” (Folha de São Paulo, 30/04/1995).

E arrematou, entre o desolamento intelectual e a chama da ânsia criadora que teima em arder no coração dos gênios: “falta hoje uma teoria do capitalismo, a teoria que reflita sobre as capacidades políticas e de ação que precisam ser construídas em nível global para domesticar e eventualmente refazer este sistema econômico”.

O profético Habermas, embora falando das condições da Europa há vinte anos, fala também para um Brasil de 2015, onde boa parte dos discursos políticos, entre tolos, cínicos e ingênuos – uns mais a direita, outros mais a esquerda -, cobram um tipo de autonomia governamental em relação às condições econômicas globais, e mesmo nacionais, que visivelmente já não temos há um quarto de século.

E é incrível como o filósofo que nos devolveu a crença nas possibilidades da razão, com sua teoria da ação comunicativa, que desvelou como os sistemas colonizam o “mundo da vida” nas sociedades modernas, estruturando a realidade cotidiana, sentia-se atônito frente ao automatismo das forças de mercado decorrentes da globalização dos capitais, e de como elas engoliram a autonomia política dos governos nacionais. E lamentava, por isto, não ser economista, para poder entender melhor e teorizar sobre este sistema, nos devolvendo também, quem sabe, uma nova possibilidade não só de fazer política econômica, mas de fazer política.

De lá para cá, nada se fez em governança global para conter a liquidez dos mercados e devolver a capacidade dos estados nacionais controlarem suas economias; ao contrário, a crise de 2008, iniciada nos EUA, se espalhou pelo mundo, tomando de assalto, mais recentemente, inclusive o continente europeu. Exatamente para mostrar que a crise de autonomia dos estados nacionais não é apenas das chamadas “economias emergentes”, mas também das potências que estão no centro da dinâmica capitalista mundial.

Dado o contexto de uma economia globalizada, o Brasil respondeu às crises recentes com relativo sucesso, por meio de uma série de medidas “contra cíclicas”, como definem os próprios agentes governamentais, baseadas, keynesianamente, em aumento dos gastos governamentais e desonerações fiscais. Mas como em economia não existe almoço grátis, já dizia Milton Friedman (ironicamente, o pai dos economistas monetaristas), o custo está sendo pago agora, com o ajuste fiscal de 2015. Nestes termos, a atual política econômica é mais uma imposição que uma opção.

Habermas disse também, em 1995, que se pode ver “como isto é sério quando acompanhamos o desenrolar de nossos conflitos trabalhistas e verificamos que nossos custos salariais e colaterais, que constituem um elemento importante de nosso sistema de segurança social (o europeu), não nos permite competir no mercado internacional de trabalho. Em consequência, fala-se cada vez mais na reestruturação do Estado Social, o que, para a maioria, significa simplesmente a sua desestruturação”.

Portanto, o retrato do que se vê acontecer na própria Europa hoje, é a superfície aparente de um conflito interno ao sistema econômico capitalista contemporâneo que vem sendo travado há décadas, e que coloca em rota de colisão a autonomia do Estado do Bem Estar e a internacionalização das forças produtivas e do mercado de capitais.

Como nenhuma medida de governança global foi tomada dos anos 90 para cá e nada mudou no mundo concreto, senão que a própria crise de autonomia dos estados nacionais se aprofundou mais ainda (e hoje a Europa se vê mergulhada nela), muito dos discursos políticos sobre a crise e a mudança na política econômica brasileira em 2015, novamente enredados entre a tolice, o cinismo e a ingenuidade, semeiam fantasias e desinformação, e colhem ignorância e intolerância.

Como pode a esquerda marxista, por exemplo, que já fora materialisticamente determinista, que cultivou ideias supostamente científicas sobre como a lógica do sistema, do mundo concreto, se sobrepõe às vontades individuais ou mesmo de classe – a ponto de só restar às classes desvalidas a práxis revolucionária -, e sobre como a práxis é contingente ao contexto do mundo material, pode cobrar que o governo brasileiro simplesmente vire as costas para as condições econômicas globais e para os chamados “mercados”, em favor de uma agenda exclusivamente nacional, num simulacro de autonomia que evidentemente não existe mais.

E como pode a oposição conservadora, representada pelo PSDB, atribuir apenas às práticas governamentais dos últimos anos as condições da suposta crise atual brasileira e do ajuste fiscal que foi realizado, quando o próprio FHC, quando foi governo, atribuía todas as mazelas que o país passou entre 1995 e 2002 a sucessivas crises internacionais, e exatamente a esta falta de autonomia das políticas nacionais frente à globalização financeira.

Estão vivas, ainda, por exemplo (e podem ser encontradas disponíveis em vídeo completo  na internet), as palavras do Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso em Florernça, na Itália, na Progressive Governance Conference (reunião dos países da chamada “terceira via”), clamando por uma política internacional de controle do fluxo de capitais (“por que não pensar em uma taxa sobre capitais voláteis?”, disse ele na época). E dando o exemplo de como perdemos US$ 10 bilhões de reservas cambiais em um só mês com a crise do México e US$ 20 bilhões em outro mês com a crise da Rússia, tendo as taxas de juros chegado a 45% ao ano após a desvalorização do Real de 1999, FHC apresentou o Brasil como um caso trágico desta consequência devastadora da globalização financeira sobre as economias nacionais.

Cinismo de um lado, ingenuidade de outro, acrescentam-se àqueles que constroem discursos tolos na completa ignorância em relação à totalidade da economia mundial, supondo o Brasil uma ilha de autonomia e o Governo uma ilha de poder.

Atualmente, não é a eficácia da ação e da política econômica que divide os governos entre progressistas e conservadores, embora estas possam se diferenciar ligeiramente entre estes dois tipos ideológicos. Se o fato de um governo ser progressista ou conservador, de esquerda ou de direita, representasse melhor ou pior desempenho econômico, maior ou menor eficácia da política econômica, faríamos escolhas técnicas, não políticas. Mas, lamentavelmente, o desempenho das economias nacionais não depende mais apenas dos governos, tampouco as políticas econômicas que eles implementam são apenas atos de vontade, baseadas em convicções de valor tão somente. Então, o que os diferenciam são as prioridades, as agendas políticas, e o que eles estão dispostos a sacrificar ou não ante as contingências globais.

Compreender os limites da ação política e do poder dos governos, bem como o sentido progressista ou conservador das diferentes agendas políticas e das prioridades governamentais, e de como elas se expressam em matérias diversas, que vão desde o marco civil da internet, a democratização da mídia, a terceirização das atividades fim, as políticas de cotas nas universidades, até as políticas de reforma agrária, por exemplo, é fundamental não só para fazer escolhas consistentes, como para não criar discursos tolos, cínicos ou ingênuos.

Isto é mais do que Habermas falando dos efeitos da economia global: é, provavelmente, o que Habermas teria a dizer sobre ação racional e razão comunicativa, para um Brasil de 2015 que flerta perigosamente com o obscurantismo. 

Por Renato Santos de Souza

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

11 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Celso Giovannetti Brambilla

    9 de maio de 2015 12:16 pm

    Destruição de Forças Produtivas

    Senhor Renato Souza, há anos que o capitalismo sobrevive da destruição colossal de “Forças Produtivas”, somente com o advento da 2ª guerra mundial e o massacre de mais de 60 milhões de pessoas a maioria civis e destruição de paises inteiros ele se deu mais um período, mas as guerras não sessaram por um único dia e com milhões de mortos a maioria civis. Essa chaga da humanidade vive na contradição e os “tolos, cínicos e ingênuos” vivem a crise da falta de alternativas, pois a única é a derrocada revolucionária do capital.

    Custará muito caro à humanidade, mas está claro que, apesar das tentativas neo liberais, o capital não vale mais nada, de que adianta o Bil Gates ter 90 bi? As manobras dos “tolos, cínicos e ingênuos” só protelam e agravam a crise e a falta de coragem para demonstrar que a protelação leva à barbárie e destruição da cultura da humanidade e seu humanismo, as condições apodreceram para o capitalismo há muito tempo, mas a covardia dos cientistas e a ação reacionária dos “tolos, cínicos e ingênuos” leva  a que essa situação ultra contraditória permaneça e cada vez mais sem solução e resta à classe dominante atacar os trabalhadores e os povos mais atrazados, mas esse nível de destruição de “Forças Produtivas” frente a crise atual não basta e as necessidades de destruição das “forças produtivas”; Homem, Natureza e .Sociedade (Tecnologia) para manter esse regime assassino é muito maior colocando em risco a própria existência da humanidade, mas vamos tentar acumular alguns bilhões para nada fazermos a não ser continuar acumulando . . . “papel” e a tradução do “no free lunch” como única alternativa se dará para alguns em comer o . . .  “papel”

  2. alexis

    9 de maio de 2015 12:21 pm

    Excelente!

    Recomendo a leitura deste post. Muito bom.

  3. JB Costa

    9 de maio de 2015 1:30 pm

    Discursos tolos, cínicos e

    Discursos tolos, cínicos e ingênuos nunca foram tão abundantes nesses últimos tempos. Economistas e políticos, mais estes que aqueles, parecem estar numa competição nessa seara  na qual o “troféu” são os átimos de fama numa mídia que os acolhe e reverbera pela sua natureza eminentemente cínica e nada de tola ou ingênua. 

  4. Ricardo Cavalcanti-Schiel

    9 de maio de 2015 2:13 pm

    Problemas (ideo)lógicos

    Temos um sério problema de lógica conceitual na argumentação desse artigo.

    Uma coisa é a apreensão cognoscitiva do todo. A categoria aristotélica “totalidade” é uma categoria DO PENSAMENTO. Cada um apreende o “todo” à sua maneira. Não existe um “todo” exterior, dado de uma vez por todas e ditado por uma pretensa racionalidade transcendente.

    Assim, o que existe é “contexto”. Ações são ponderadas em contexto; ações simbolicamente orientadas pela apreensão de contextos culturalmente especificados.

    A falácia do universalismo iluminista de Habermas encontra aí o seu limite: o da imputação de uma totalidade fenomênica, pretensamente racional, à qual aqueles que não seriam nem tolos, nem cínicos, nem ingênuos simplesmente diriam amém.

    Curiosa teleologia essa! pela qual a aferição da tolice, do cinismo e da ingenuidade é dada por um a priori viciado. São realmente os outros que são tolos, cínicos e ingênuos?… Ou o é aquele que abraça essa putatividade? (ou, como diria Lévi-Strauss: “o bárbaro é antes de tudo o homem que crê na barbárie”…).

    Assim, o que resta a esse alegado habermasiano que aqui nos é apresentado não é a reividindicação da necessidade de reconhecimento da categoria “totalidade”, mas a tentativa de imposição de um todo totalitariamente determinista.

    1. sergio m pinto

      9 de maio de 2015 3:24 pm

      Garoto, recomendo a leitura

      Garoto, recomendo a leitura de um livro, chamado “A glbalização da pobreza”, para melhor entender a matéria. A postura do Habermas complementa o qu efoi descrito nesse livro, com a troca da proeminência da produção pela livre circulação de capitais. O nome do autor é meio complicado Michael nãoseidasquantas e foi prefaciado pelo Noam Chomski, que não é de meter a mão em cumbuca. Quem sabe no site estante virtual você encontre esse livro, que  vai ajudá-lo a melhorar seus comentário. O meu exemplar não dou, não vendo e nem empresto. 

    2. Marcelo Giordan

      9 de maio de 2015 3:48 pm

      O todo e o contexto.

      Francamente, reduzir a reflexão de Habermas sobre o capitalismo a um categórico contextual é de um reducionismo sem cabimento.
      A leitura de Habermas pode, sim, contribuir para a comprensão do país no momento e a solução indicada pelo Renato é bastante importante: recuperar a capacidade de negociar e decidir sobre uma agenda política, q eu acrescentaria, deve ser o mais soberanamente determinada, a despeito das constrições que o fluxo de capitais impõem.
      Acrescento ainda à agenda a reforma do judiciário em vários níveis e insisto: sem mudar o poder responsável por regular e definir os contratos, nada na estrutura do capitalismo q praticamos nesses tristes trópicos será transformada.

    3. Renato Souza

      11 de maio de 2015 8:47 pm

      Ricardo
      Não costumo responder

      Ricardo

      Não costumo responder aos que criticam o que escrevo, por entender que gostar ou não, concordar ou não, achar fraco ou forte o que escrevi faz parte do jogo, e deve ser um pressuposto daquele que expõe o próprio pensamento ao público aceitar estes julgamentos como legítimos.

      Porém, costumo tentar esclarecer questões que não tenham ficado claras, sobretudo quando me imputam erros que entendo não ter cometido, como você fez aqui.

      Não concordo que tenha incorrido em “sério problema de lógica conceitual” ao considerar o mundo concreto, material, como uma “totalidade”, referindo-me, obviamente, ao conjunto da economia mundial e não apenas ao âmbito da política econômica nacional. A alegada concepção aristotélica de “totalidade” como categoria do pensamento, no sentido de não haver um “todo” externo ao indivíduo é apenas uma dentre as concepções ontoepistemológicas sobre a “realidade”. Esta questão, representada por concepções opostas como realismo x idealismo/nominalismo, é das mais controvertidas na filosofia da ciência, e é divisor de águas entre diferentes paradigmas em ciências sociais, como o positivismo, o interpretativismo e o materialismo histórico dialético.

      Portanto, entendo que você apresentar como um “erro” alguém adotar uma posição diferente da sua, é uma postura pretenciosa, e pauta-se por uma concepção de “verdade” que não condiz com o atual estágio das ciências sociais e da filosofia da ciência.

      Além do mais, é contraditória com a sua própria abordagem, que afirma que “cada um apreende o todo à sua maneira”. Nesta sua concepção subjetivista, fenomenológica talvez, você deveria ser bem mais parcimonioso em afirmar verdades categóricas, como o “não existe um todo exterior”, em favor de um olhar mais relativo e flexível da ciência e da filosofia.

      Esta visão do mundo concreto como totalidade é comum a abordagens tão distintas como o estrutural funcionalismo sociológico e o materialismo histórico dialético. Não é por outro motivo que Durkhein, da mesma forma que Marx, propõe encarar os fatos sociais como “coisas”, como algo externo e objetivo: “a coisa se opõe à ideia assim como o que se conhece a partir de fora difere do que se conhece a partir de dentro”, disse ele nas Regras do Método Sociológico. E “toda vez que elementos quaisquer, ao se combinarem, produzem, por sua combinação, fenômenos novos, cumpre conceber que esses fenômenos estão situados não nos elementos, mas no todo formado por sua união” (idem). Eis aí o “todo” exterior de Durkhein que você afirma não existir.

      Karel Kosik, também, em sua Dialética do Concreto chega a dedicar um capítulo inteiro ao que ele chama de “totalidade concreta”. Afirma ele, “na filosofia materialista a categoria da totalidade concreta é, sobretudo, e em primeiro lugar a resposta à pergunta: o que é a realidade?”, E a resposta dele é de que a concepção materialista de realidade é a totalidade concreta, e totalidade significa “realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer pode vir a ser racionalmente compreendido”.

      É claro que na concepção materialista este todo só aparece com sua essência, “como um todo estruturado em curso de desenvolvimento e de autocriação”, no pensamento. Mas isto não significa que ele não seja uma realidade objetiva e concreta, apenas que é obra da razão organizá-lo como tal. A diferença entre o pensamento abstrato e o senso comum, entre o pensamento alienado e o consciente, entre a tolice ou não, é a capacidade de apreender com objetividade e profundidade esta totalidade concreta. Então, para o materialismo histórico dialético, a sua afirmativa de que “cada um apreende o todo a sua maneira”, só é possível se as pessoas se ativerem apenas às manifestações fenomênicas, àquilo que o Karel Kosik chamou de pseudoconcreticidade. Pois na essência, a totalidade concreta é objetiva.

      Não se trata aqui de defender uma ou outra posição, de ser funcionalista, materialista ou fenomenologista, apenas de não afirmar como verdade categórica uma determinada posição epistemológica, e como erro ou problema posições divergentes.

      De qualquer forma, obrigado por me permitir pensar a respeito.

  5. Marcelo Giordan

    9 de maio de 2015 3:37 pm

    Agenda política.

    Muito boas reflexões.
    Habermas é um grande pensador muito próximo no tempo p quem devemos nos dedicar mais p buscar soluções p nossos problemas.
    Sobre a agenda política do país, há muito a ser incluído, sem deixar de fora o judiciário. Não se transformam as práticas e meios de produção sem alterar quem as regula e obnubila.  

  6. Jose Mayo

    9 de maio de 2015 4:24 pm

    Fraquinho o texto;

    “O tolo ignora o “todo” ou supõe o todo a partir da sua própria parte. O cínico conhece o todo, mas desconsidera-o por interesse ou conveniência; o ingênuo sonha ser possível desprezar o todo, ou mudá-lo apenas a partir das partes, por ato de pura vontade.”

    Interessante argumento, mas que parece ignorar que, uma sociedade (e há várias), não se compõe apenas de tolos, cínicos e ingênuos e que mesmo os tolos, cínicos e ingênuos não o são sempre, havendo rasgos de genialidade no tolo, sinceridade no cínico, malícia no ingênuo e um pouco de tudo isso em cada um de nós, que brotará do nosso âmago quando premidos pelas circunstâncias e nos fará reagir, às vezes de modo bastante diverso ao que de nós se espera, diante da concretude dos fatos.

    “Para fazer ou pensar a política sem a superficialidade dos tolos, a falsidade dos cínicos ou o voluntarismo dos ingênuos, é preciso entender os limites da própria política e das ações dos governos face à totalidade em que estão inseridos.”

    O que sim, é preciso entender, é que a política não é uma “coisa” do universo concreto que tenha limites mensuráveis; é uma construção do pensamento humano e, como tal, infinita nas suas formas e imprevisível nos seus resultados. Governos não “são”, apenas “estão” e somente continuam enquanto duram os contratos. Talvez, e apenas talvez, se os efêmeros governantes do turno, que acreditam entender os limites da política, compreendessem um pouco melhor o caráter transitórios das suas ideias e dos seus cargos, pudessem ter sido evitadas muitas das guerras e revoluções que às vezes se fazem necessárias para finalizá-los.

    “O filósofo alemão Jürgen Habermas, um dos mais importantes intelectuais e humanistas do século XX, disse certa vez, em entrevista à Bárbara Freitag e Sérgio Pulo Rouanet, nos idos anos de 1995: “devo confessar que, desde 1989, lamentei pela primeira vez não ser economista”. Para ele, com o processo de globalização da produção e do mercado de capitais, “o Estado Nacional, visivelmente, já não controla as condições de produção da sua própria economia. Temos hoje uma globalização do mercado de capitais que afeta as condições de produção, provocando uma generalização e globalização da própria produção, cujas condições perderam seu caráter nacional” (Folha de São Paulo, 30/04/1995).”

    Não se pode mais que concordar com o diagnóstico do filósofo. De fato a “globalização” é um processo nefasto cuja única vantagem sobre as guerras é que se toma terreno no espaço econômico pelo discurso, ao invés de pelas vias de fato. A globalização tal como está posta, e ao contrário do que se apregoa, nada tem de “neoliberalismo”, muito ao contrário. O que se tem verdadeiramente é o “neocolonialismo” e o seu claro intuito é simplesmente “dominar mercados”.

    “E arrematou, entre o desolamento intelectual e a chama da ânsia criadora que teima em arder no coração dos gênios: “falta hoje uma teoria do capitalismo, a teoria que reflita sobre as capacidades políticas e de ação que precisam ser construídas em nível global para domesticar e eventualmente refazer este sistema econômico”.”

    Mais uma vez tem razão o pensador, mas a questão é antiga e a solução também, no entanto, ainda falta descobrir “quem colocará o guizo no gato”.

    “O profético Habermas, embora falando das condições da Europa há vinte anos, fala também para um Brasil de 2015, onde boa parte dos discursos políticos, entre tolos, cínicos e ingênuos – uns mais a direita, outros mais a esquerda -, cobram um tipo de autonomia governamental em relação às condições econômicas globais, e mesmo nacionais, que visivelmente já não temos há um quarto de século.”

    A bem da verdade, nunca tivemos “autonomia governamental em relação às condições econômicas globais”, até porque temos “cultura colonial” e trabalhamos diuturnamente em pró dessa cultura, centrando todos os nossos esforços, no sentido político, em fazer crescer o mais aceleradamente possível a disponibilização dos nossos recursos ao mundo, enquanto produzimos no nosso meio interno iniquidades sociais cada vez mais profundas e, apesar desse esforço político concentrado em pró da exportação – como se exportar fosse a razão principal de um país existir e não a de atender à nação = todo o nosso “comércio exterior” não passa de 12% do PIB, ou de 1,2% das transações internacionais.

    E vou parar por aqui, se não eu mesmo canso, mas, para concluir, diria que um país tem a estatura dos seus políticos, o que lamentavelmente e neste momento torna o Brasil um gigantesco anão.

  7. Antonio C.

    9 de maio de 2015 10:16 pm

    Comentário.

    Ler o/sobre Habermas me dá desânimo. A lembrança que tenho dele é do Discurso Filosófico da Modernidade, que me fez prestar mais atenção na situação histórica da América Latina e da África, em Mariátegui e Gunder Frank, dado que Habermas se centra na realidade europeia (leva em conta uma análise dos “ganhos” do capitalismo com a construção do Estado de Bem-Estar Social sem levar em conta a divisão internacional do trabalho que financia este Estado). Ele deu tanto valor para a sua “razão comunicativa” que foi arrastado pelo neoliberalismo nos anos de 1990. Nunca tomei a sério os “frankfurtianos” como “marxistas” – nunca foram, eles possuem mais influência de Simmel do que se possa imaginar – , mas se Habermas tivesse começado com a Crítica da Economia Política ou algo que o valha, não se lamentaria por não ter sido economista. Nas nossas paragens, os principais erros cometidos por alguns críticos da sociedade são: desconsiderar a obra psicossociológica (e, de quebra, Simmel) do Adorno, enfatizando a crítica à indústria cultural e a estética adorniana; considerar Horkheimer apenas pela obra em quatro mãos com o Adorno e retirar o seu real papel como crítico da racionalidade instrumental (mais do que Adorno); e superestimar a obra de Habermas. O seu diagnóstico sobre a globalização é de uma magreza abissal: todos os elementos que constituem o capitalismo (divisão do trabalho, alienação, leis que permitem o desenvolvimento da Economia e de sua reprodução, o dinheiro como a mercadoria por excelência) estão presentes. O s Estados nacionais continuam aí, fazendo o serviço a que se servem (os trabalhadores sabem como nunca sobre isso) e fazendo suas vítimas. Quem sabe – especulo – Habermas tenha dito “economista” para evitar Marx como projeto que foi distorcido, abandonado e que, de algum modo, continua válido?

  8. Tiago Maximiliano Bevilaqua

    10 de maio de 2015 12:17 pm

    Não há submissão total

    O autor foi de um extremo ao outro. Pressupôs, o que nunca existiu nesse país, que teria havido autonomia política (no sentido restrito de total liberdade), incluindo aí a política econômica, para outro extremo, a sobredeterminação, total, ao “capitalismo globalizado”, ainda que Habermas, fale, de forma mais apropriada, em globalização do mercado de capitais. Nenhuma margem de manobra teríamos, pois a tal globalização submete tudo e a todos.

    Dizer que a atual política econômica é uma imposição e não uma opção é uma barbaridade. Não temos escolha a não ser aceitar os ditames do capital financeiro. Os Estados não teriam mais poder algum, são apenas escravos desse capital. Insisto no apenas, pois não há dúvida que a margem de manobra se reduziu bastante, mas não têm como uma única possibilidade se submeter integralmente.

    E uma coisa que muito me desagrada, é a forma arrogante como apresenta seus argumentos, sintetizada, de forma grosseira, em que os que n comungam das ideias do autor são tolos ou cínicos ou ingênuos.

Recomendados para você

Recomendados