A Guerra Greco-Turca de 1919, por André Araújo

Quando se analisa a guerra civil da Síria é bom lembrar dessas raízes, pois História é uma continuidade de eventos

A Guerra Greco-Turca de 1919, por André Araújo

Com o fim da Grande Guerra de 1914, desfaz-se o outrora poderoso Império Otomano e Constantinopla é ocupada pelo Exército britânico. O Movimento Nacional Turco, partido político do General Mustafa Kemal assume o poder na Anatólia, parte asiática do Império Otomano, mas o Movimento não é reconhecido pelos Aliados. O MNT é herdeiro dos Jovens Turcos, uma espécie de “tenentismo” que nasceu antes mesmo da aliança da Império Otomano com as potenciais centris, o lado perdedor da Primeira Guerra (Império Alemão e Império Austro Húngaro).

Aproveitando a presumida fraqueza dos turcos derrotados, a Grécia, estimulada pelo Primeiro Ministro britânico Lloyd George, célebre desde sua hábil condução do Império britânico durante o grande conflito mundial, demagogo e controvertido político que conduziu a Inglaterra na maior parte do período da Grande Guerra, de origem não nobre, advogado de porta de cadeia que fez sucesso por sua esperteza e audácia, convenceu o primeiro ministro da Grécia (que era uma monarquia criada pelos ingleses em 1831, ocupada pela Casa Real dinamarquesa), Elefterios Venizelos a atacar a costa turca da Anatólia para tomá-la para a Grécia. Essa costa tinha como epicentro a cidade grega de Smyrna, que tinha mais gregos que Athenas, cerca de 630 mil contra 470 mil em Atenas, além de larga população judaica e armênia. Os gregos estavam lá havia 2.000 anos e com a derrota dos turcos era hora de tomar esse litoral para sempre.

Mas Lloyd George estava errado, os turcos, mesmo derrotados na Grande Guerra, eram formidáveis guerreiros e iriam defender com vigor sua terra. A guerra durou três anos e foi um desastre para a Grécia, pior ainda, a derrota da Grécia consolidou a República da Turquia e a liderança de Mustafa Kemal, que tornou-se o grande líder do povo turco.

Participaram do conflito aproximadamente 250 mil soldados de cada lado, com perdas também aproximadas de 40 a 60 mil de cada lado. Mas o grande desastre traumático dessa guerra inútil foi o Massacre de Smyrna. Os turcos esmagaram as forças gregas na Anatólia em agosto de 1922 e logo no começo de Setembro um grande incêndio queimou completamente as partes grega e armênia de Smyrna, provocando mortes estimadas em 60 mil gregos e armênios. O fogo não atingiu a parte cristã e judaica de Smyrna. O incêndio alegou-se que foi provocado pelos turcos mas há versões também respeitáveis que foi acidental, até hoje há correntes para defender os dois lados. Smyrna era uma cidade rica, um dos maiores portos e entrepostos do Mediterrâneo, com vasto movimento marítimo, milhares de lojas e armazéns.

Durante e depois do incêndio, os turcos aproveitaram para saquear tudo o que tivesse valor no comércio e nas casas dos gregos e armênios, com os inevitáveis estupros e deportação de homens válidos para o interior da Anatólia, onde a maioria morreu logo de maus tratos , fome e doenças, 30 mil mortes foi a estimativa. As mulheres, velhos e crianças foram resgatados por navios ingleses e americanos, um número estimado em 300 mil almas.

Com o fim dos gregos de Smyrna acabou o sonho da Grécia, os ingleses surpresos e emparedados pela vitória turca desocuparam Constantinopla e pelo Tratado de Lausanne Inglaterra e França reconhecerem a República da Turquia como estado, superando o tratado de Sevres assinado junto com o de Versalhes em 1919 que esquartejava o Império Otomano sem reconhecer algum Estado na Anatólia e legitimando a ocupação britânica de Constantinopla.

A vitória turca contra os gregos, que tinham os britânicos por trás foi um grande acontecimento geopolítico porque fez nascer um Estado turco sólido que a partir daí passou a ter um grande papel estratégico, até hoje, no Oriente Médio.

A República é completamente laica, moderna, progressista e militarizada. Constantinopla virou Istambul e a Turquia continuou a ser uma fonte de irradiação da cultura islâmica, apesar de não árabe o povo turco é muçulmano e o interior da Turquia é muito religioso. A Grécia se enfraqueceu como País e foi ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra, enquanto a Turquia ficou neutra, depois da Segunda Guerra passou a fazer parte da aliança ocidental. Outra consequência menor foi a partição de ilhas no Mediterrâneo oriental, como Chipre, meio turca e meio grega.

A Guerra Greco-Turca é pouco lembrada hoje mas esse conflito regional teve grande importância geopolítica que se estende até hoje, quando se analisa a guerra civil da Síria é bom lembrar dessas raízes, História é continuidade de eventos. O fim da comunidade grega de Smyrna levou muitos desses refugiados para os EUA onde reforçou uma já grande colônia grega, gregos ilustres e famosos nasceram em Smyrna, como Onassis, esse conflito foi apenas o primeiro de uma longa série de conflitos que desde então dilaceram o Oriente Médio. A primeira ideia oficial da criação do Estado de Israel também foi de Lloyd George, com suas eleições bancadas pela comunidade judaica de Londres cujo líder era o Barão Rothschild. Foi o Secretário do Foreign Office, Arthur Balfour, que em 1917 emitiu a “Declaração Balfour” que pela primeira vez em documento diplomático reconheceu a necessidade de criar um lar judeu na Palestina.

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12 comentários

    • A postagem é mesmo boa, mas o
      A postagem é mesmo boa, mas o ódio entre turcos e armênios é por causa do genocídio, que até hoje a Turquia não reconhece que fez.

  1. bélicas

    Bom artigo do André Araújo: recordar é preciso.

    O fracasso dos gregos pode ser visto como a segunda derrota dos britânicos frente aos turcos. A primeira foi a Campanha dos Dardanelos.

    Quanto sonhou o Almirantado com a posse – direta ou em mãos de testas-de-ferro – daqueles estreitos…

  2. Hattay , Aleppo , Siria (França ), e os “turcomanos”

        Ou, “reflexos de Lausanne “.

         Muito da atual situação de guerra civil na Siria, é causa deste passado turbulento, oriundo do desmembramento do Império Otomano, que mesmo após o reconhecimento formal do Estado turco, pelas potencias da 1a Guerra Mundial, muitos povos de etnia/lingua turca ( turcomanos ), ficaram fora das fronteiras turcas, situação nunca totalmente aceita, tanto pelo governo de Ancara, como por estas populações. Caso dos sirios – turcomanos.

          Em 1938, por pressão interna regional e da Liga das Nações, o Mandato francês da Siria – Libano, deveria ter realizado dois plebiscitos nas regiões turcomanas deste Mandato, a saber, os antigos “vylayets” otomanos de Hattay e Aleppo, o primeiro foi realizado, tanto que Hattay tornou-se uma provincia turca, já o de Aleppo, o maior território em questão, o plesbicito foi negado pelo Alto Comissário francês, pois sabendo da derrota que seria clara, deixaria a Siria/Libano praticamente inviavel enquanto um estado continuo.

            Hj. com a atual situação siria, os turcomanos sirios, que sempre foram perseguidos pelo governo dos Assads, conseguiram o apoio direto de Ancara, e com o Ahr Al-Sham, procuraram no inicio das confrontações com o governo central ( Damasco ), tornar a provincia siria de Aleppo, na pratica, uma extensão da Turquia, e somados a Frente Al Nusra, ocuparam a 2a cidade mais rica da Siria, o problema é que após esta “vitória”, não conseguiram mante-la frente ao deslocamento do ISIS, e hj. a região de Aleppo é palco de batalhas, tanto entre as forças rebeldes, como as do governo central, e os militantes do ISIS.

      • Tem novos tambem

          É muito dificil controlar os estoques oriundos das ex-republicas soviéticas, vc. pode ter certeza que tem muita gente ganhando dinheiro, estados inclusive, como: Ucrania, Bulgaria, Romenia, Croácia e Sérvia, até mesmo a “européia” Polonia.

  3. Ódio?…

    A Armênia virou soviética.e os ressentimentos se acalmaram nesse novo tempo.

    A conduta da Turquia na Segunda Guerra mereceu respeito e reconhecimento do governo Sovietico na epoca e depois de Stálin, e, até hoje pelos governos das  ex-Republicas Soviéticas.

  4. Balanço de poder no Oriente Médio

    Acho interessante a questão do “Balanço de Poder” no Oriente Médio. A Turquia kemalista buscou uma aproximação do Oeste e renegar uma parte da sua questão islâmica como forma de se afirmar como um país laico e moderno. O governo erdoganista mudou esse foco não só pela questão de ser um partido de origem islamita, como por perceber que a atual crise síria é uma ameaça ao Estado nacional turco. Isso até pela própria legitimação e possibilidade de precisar fazer uma coalizão com partidos nacionalistas, que sempre repudiaram o nacionalismo curdo, em aliançaA partir daí, traz um novo elemento no “Balanço de Poder”

    De um lado, o chamado crescente xiita, liderado pelo Irã, com a Síria de Assad, o Iraque e o Hezbollah, com apoio russo e uma aliança com os curdos. Do outro, o grupo sunita liderado pelos emirados do Golfo, principalmente a Arábia Saudita, que foi a base de grupos como o Estado Islâmico. E a Turquia até por uma questão política, religiosa e cultural tende a ir para o lado sunita. E no meio disso tudo, o Ocidente indeciso e sem capital político para travar mais uma guerra, como em 1922, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial.

    Obs: Tem um filme interessante chamado “Promessas de Guerra” estrelado e dirigido por Russell Crowe com um bando de gregos contra os nacionalistas turcos. E os gregos nesse filme parecem mais com os caras do Estado Islâmico.

  5. bom post
    Bom post.
    Não me lembro ter lido sobre esse acontecimento.

    Resumindo mais uma aventura colonialista europeia que quem pagou com a vida foram os outros.

    Fico me perguntando se isso é ensinado nas escolas inglesas? Teriam eles uma visão critica desses acontecimentos?

  6. Houve um denominado “bandido austríaco” que provocou uma guerra, e com todos os desdobramentos dessa guerra, acabou o eterno sonho corsário de uma determinada nação insular de querer dividir o mundo a seu bel prazer e parar de encher seus cofres, primeiro com pirataria pura e manobras internacionais provocativas e obscuras, depois com lucros de opio (nasce o HSBC) e até hoje com agiotagem (eterniza-se o HSBC)….esse banco está em todos locais onde se possa agir abertamente com narcotráfico, contrabando, pirataria, corrupção escancarada e roubalheira. Voltando ao assunto principal, imperialistas sempre semearam e sempre semearão guerras pelo mundo para atingir seus objetivos financeiros….sejam ocidentais e possivelmente agora os orientais….

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