Catástrofe em Caraguatatuba completa 50 anos

Nesse sábado (18), completou 50 anos dos deslizamentos que quase soterraram toda uma cidade no litoral norte de São Paulo.
 
Foi uma tragédia grande no final dos anos 1960 e que fez o Estado criar a Defesa Civil, antes inexistente.
Segue matéria feita por um jornalista local, publicada em seu blog que trata da região. ( http://salimburihan.blogspot.com.br )
Grato
 
Tulio Magalhães
 
Por Salim Buriham de Caraguatatuba
 
18 de março: o dia que o caiçara jamais esquecerá.
 
Deslizamento da serra quase soterrou a cidade. 
 
Há 50 anos, no dia 18 de março de 1967, um sábado, a cidade de Caraguatatuba foi atingida por uma tromba d’água. A chuva insistente que caía sobre a cidade há vários dias, provocou desmoronamento. Pedras, lama, terra, árvores desceram das encostas da serra em direção à cidade. As ruas do centro, se transformaram rios de lama. A água levava tudo que encontrava pela frente: o que restavam das casas soterradas, animais mortos, entre eles, cavalos, vacas, cachorros, galinhas..,e pessoas. Várias pontes que ligavam a cidade aos municípios vizinhos foram levadas pela força das águas que desciam as encostas. A ponte sobre o rio Santo Antônio, a principal da cidade, se deslocou e ficou junto à margem, interrompendo o tráfego de carros e pessoas, Ninguém passava. A Santa Casa foi atingida pela lama. O estádio do XV, destruído pelas pedras e lama que desciam do morro do Jacu. Na região do bairro do Benfica, inúmeras casas ficaram soterradas. Na zona rural pouca coisa sobrou em pé. Acidade ficou sem água, sem energia elétrica, sem telefone, sem acesso pelas estradas e sem comida. O mar em frente a cidade se transformou num mar de lama e de troncos.
Centenas de pessoas perderam a vida. Oficialmente, falaram em 400, mas morreram muito mais, algo em torno de 2 mil pessoas. As vítimas resgatadas pelos moradores eram colocadas na prefeitura municipal, na época, localizada na praça Cândido Mota. Os desabrigados foram alojados na igreja, no clube XV, em escolas e acolhidos pelos moradores, cujas casas não foram atingidas pelas águas. A cidadã ficou isolada e ilhada. A maioria dos moradores evitava sair de casa, pois não podia e o risco era muito grande. O  mundo não sabia o que estava ocorrendo em Caraguá. Até que, um radio-amador, seu Thomaz Camanes Filho, conseguiu contato com outros rádio-amadores e comunicar a tragédia que abatia sobre a cidade. Muitas horas depois, algo em torno de 12 a 15 horas, as autoridades paulistas e cariocas tomavam ciência do que tinha ocorrido na cidade. Helicópteros começaram a sobrevoar a cidade. O exército chegou. A Marinha através de seus navios, trouxe água, remédios e médicos. Três dias depois, alguns números apresentados, extra-oficialmente, demonstravam o tamanho da tragédia: 30 mil árvores desceram as encostas em direção a cidade; 400 casas desapareceram debaixo da lama e 3 mil pessoas perderam suas casas. Caraguá tinha na época 15 mil moradores.
 
Veja como ficou a Santa Casa
 
 
A informação que chamou a atenção das autoridades: a chuva que atingiu a cidade em dois dias( 17 e 18 de março) atingiu um índice precipitação pluviométrica de 580 milímetros. Na época, a média de precipitação pluviométrica do Brasil, o ANO INTEIRO variava de 1000 a 1200 milímetros. Ou seja, choveu em Caraguá em apenas dois dias a quantidade de chuva acumulada de seis meses. A tragédia foi considerada a pior já ocorrida no pais até então, segundo um dos maiores especialistas mundiais em mecânica de solos e fundações: professor Artur Casagrande, que na época prestava acessória aos EUA, Índia e Suíça. Ele visitou a cidade no alguns dias depois da tromba d’água, a convite do governo do estado, acompanhado pelos engenheiros Joob Shuji Negami(DER), Darcy de Almeida(CESP) e Lincon Queiroz e Otto Kech e do geólogo Francisco Nazário. Considerados, na época, os maiores especialistas neste tipo de ocorrência natural. Reproduzo abaixo as considerações feitas pelo professor Artur Casagrande:  “Nunca vi coisa igual na minha vida. Isso só ocorrer a cada milênio. O que ocorreu em Caraguatatuba foi um evento natural- tromba d’água fato raro, raríssimo. Na história do Brasil nunca ocorreu nada igual”. Segundo ele, não ocorreu um terremoto, como imaginaram alguns moradores, mas sim, uma precipitação de água excepcional, com dificuldades no escoamento das águas que encharcaram os morros, numa área de cerca de 200 km quadrados na escarpa da serra do mar, junto a Caraguatatuba. Foi, segundo os cientistas, a maior tragédia natural ocorrida no Brasil até então.
 
 Caraguá ficou muitos anos esquecida. Foi difícil recomeçar. Muita gente abandonou a cidade, não acreditando que ela pudesse se reerguer. Muita gente perdeu tudo o que tinha. Muitos ficaram ricos aproveitando da desgraça dos outros (existem muitas estórias sobre mantimentos e donativos desviados, que nunca chegaram à cidade). A força e a raça de seu povo foi fundamental para que a cidade aos poucos fosse se reconstruindo e transformando no que é hoje: o centro comercial, educacional e cultural do Litoral Norte. Nossas homenagens a todos aqueles que perderam  suas vidas na tragédia de 18 de março de 1967 e a todos aqueles que colaboram no ressurgimento, crescimento e desenvolvimento da nossa Caraguá.  

Leia também:  Dom Pedro II na TV francesa, por Andre Motta Araujo

Nesta semana passamos momentos difíceis, com fortes chuvas e muita gente desabrigada. A situação assustou, mas felizmente, não tivemos mortes. Também na noite de ontem, sexta-feira, a Prefeitura, através da Fundacc, homenageou várias pessoas qque colaboraram e muito no dia da catástrofe, em 1967, entre elas, José Bourabeby, Keity Nakamura, Dadinho Fachini, Alaor Xavier Junqueira e Thomaz Camanes…Foi uma justa homenagem.   

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11 comentários

  1. Enchentes

    Não lembrava da catastrofe de Caraguatatuba e, no entanto, que catastrofe! Parece que em questão de chuvas e desmoronamento, a defesa civil hoje ja experiente às vezes demora a agir. Ha quatro ou cinco anos, uma amiga americana e uma inglesa ficaram apavoradas com a enchente que invadiu todo o vilarejo onde estavam hospedadas na Ilha Grande e com a falta de habilidade do exército que foi socorrer a população da ilha.

  2. Não conhecia esta tragédia.

    Não conhecia esta tragédia. Tiro, do texto, duas constatações:

    1.  ISSO SÓ OCORRE A CADA MILÊNIO. Ocorreu na serra do Rio de Janeiro, com mais de 2000 mortos. Até hoje, tem familia que não achou gente. MEMÓRIA CURTA, MATA…. Reproduzo abaixo as considerações feitas pelo professor Artur Casagrande:  “Nunca vi coisa igual na minha vida. Isso só ocorrer a cada milênio. O que ocorreu em Caraguatatuba foi um evento natural- tromba d’água fato raro, raríssimo. Na história do Brasil nunca ocorreu nada igual”.

    2. Os “éticos”, SEMPRE SOMEM COM AS DOAÇÕES. 🙁

  3. Também não me lembrava desta

    Também não me lembrava desta tragédia.

    Mas me lembro bem da chuva que assolou o Rio na mesma época, com desmoronamentos em Laranjeiras e Cosme Velho…

    • tambem…

      Grande lembrança para nos revelar como este país é estatico, incompetente e bovinamente paralisado. Mesmo com tamanha tragédia há 50 anos, nos dias de hoje continua tudo igual.  No RJ há alguns anos houve tragédia semelhante. Todos os anos, tragédias menores mas com os mesmos protagonistas: morros, deslizamentos, muita chuva sendo acusada pela culpa quando sabemos que é acontecimento recorrente  de todos anos. Dinheiro público para depois das tragádias que desaparecem sem deixar resultados. O Brasil se explica. 

      • também….

        Na serra, um pouco antes do seu termino, existe uma reta com uns 500 mts com uma mureta de concerto, de onde se tem uma excelente vista da cidade de Caraguatatuba. Todo aquele trecho da rodovia foi refeito. Todo aquele trecho da seera foi parar dentro da cidade.   

        • Ali nas proximidades há uma

          Ali nas proximidades há uma enorme cachoeira e é perceptivevel os pinheiros que destoam da vegetação de Mata Atlântica, pois são exóticos e foram plantados como medida emergencial após a catástrofe, para darem sustentação à encosta. Tais pinheiros (Pinus ellioti) foram trazidos do Horto de Taubaté. Então é possível se ter uma idéia do tamanho da encosta que veio abaixo em 1967.

           

      • A maior providência a ser tomada nestas regiões é a evacuação!

        Há muita lenda do que se pode fazer para combater coisas como deslizamentos, fluxos lamosos ou fluxos de detritos. Obas para evitar problemas quanto a estas ocorrências custam geralmente muito mais que os imóveis que estão sujeitos a elas (e estou falando de imóveis caros). E há ainda um agravante, ao se fazer obras de contenção de encostas há chances altíssimas que não sejam necessárias em períodos muito longos (maiores que 100 anos). Logo a única coisa possível e viável de se fazer é um sistema de previsão meteorológico e esquemas de evacuação. O resto não é viável!

  4. O meu avô, Celiano Caçapava,

    O meu avô, Celiano Caçapava, foi o primeiro a alertar as autoridades via rádio amador. A época em que o rádio amador era a internet.

  5. Falando a verdade: Toda as encostas da Serra do Mar são….

    Há uma realidade que o brasileiro deve se acostumar, próximo as encostas da Serra do Mar tanto as encostas propriamente ditas como nas margens dos riachos são tecnicamente áreas de risco.

    Há vários anos eu tinha um blog que além de vários assuntos técnicos falava sobre eventos como este e comecei a fazer uma seção que se chamava “O desastre do mês”, em que descrevia os diversos eventos naturais que podem e levam vidas humanas.

    Temos que nos dar conta que países como Chile, Japão, Itália são imensas áreas de risco. Porém sempre teve que haver o primeiro desastre para as autoridades tomarem providências, pois simplesmente se tomam providências antes do acontecimento de grandes tragédias a população reclama.

  6. A pior catástrofe ainda está por vir

    A física envolvida em movimentos de massa (solo + rocha + lama + vegetação) é extremamente complexa e ainda pouco entendida a ponto de possibilitar previsões ou estimativas com grande precisão, mas se pode trabalhar com cenários de risco, baseados em eventos do passado. Nesse sentido, de cenário de risco, a pior catástrofe na Serra do Mar ainda está por vir, quando (não é se, é quando mesmo!) fenômeno semelhante (precipitações excepcionais) ocorrer na região de Cubatão, onde o regime militar construiu a maior refinaria de petróleo da Petrobrás (Artur Bernardes), e permitiu a implantação da COSIPA (usina siderúrgica) e o complexo petroquímico mais importante do país, pela vantagem estratégica da proximidade com o Porto de Santos.

    À catástrofe representada pela perda de vidas humanas no município de Cubatão, irá se somar a catástrofe ambiental no estuário, com a contaminação assustadora de poluentes das indústrias misturadas aos detritos, o que poderá inclusive comprometer o canal do porto de Santos, o mais importante do Brasil. O passo seguinte é a catástrofe econômica, pela paralisação do complexo industrial e do porto, tipo uma Lava-Jato!

    Se ao leitor isso pode parecer “catastrofismo” paranóico, vale lembrar que o efeito de grandes deslizamentos em áreas montanhosas se estende por vários quilômetros (só para terem uma idéia de dimensões em uma situação extrema, a terminação de um deslizamento submarino identificado numa das ilhas do arquipélago do Hawai fica a quase 300 km da ilha onde esse colapso ocorreu). Para termos então uma idéia do risco nessa região, considerando o desnível médio de 720 m entre o topo da escarpa da Serra do Mar e o estuário, é possível que um deslizamento afete uma extensão de até 10 km além da base da escarpa, o que, em princípio, torna toda a região de Cubatão e Santos uma área de alto risco geotécnico/geológico.

    Um desastre como esse pode ocorrer daqui a 1 mes, daqui a 10 anos, daqui a 100 ou daqui a 1.000 anos, mas a situação de risco é a mesma. Então vem a pergunta capital: como eliminar esse risco, que passa necessariamente pela remoção do complexo industrial??

     

     

     

     

     

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