Sobre a tirania, o populismo, por Madeleine Albright

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Sobre a tirania, o populismo, por Madeleine Albright

Trecho de um livro e entrevista com Madeleine Albright, ex-secretária de Estado americana e autora de “Fascism: A Warning”

Do The Economist

MADELEINE ALBRIGHT foi a primeira Secretária de Estado da América, de 1997 a 2001. Nascida em Praga, Tchecoslováquia, a jovem “Marie Jana” foi enviada para a Grã-Bretanha durante a segunda guerra mundial para escapar dos nazistas. Logo após seu retorno após a guerra, sua família fugiu para a América para escapar dos comunistas. 

Criada como católica, Albright só soube que sua família era judia e que muitos parentes pereceram em campos de concentração nazistas quando ela tinha 59 anos, depois de uma extensa verificação de antecedentes. 

Sua narrativa pessoal, que se assemelha às forças obscuras da política do século XX, a torna singularmente qualificada para identificar e chamar as tendências do liberalismo no atual clima político. Pedimos a Sra. Albright para responder cinco perguntas à luz de seu recente livro “Fascismo: um aviso”. Suas respostas são seguidas por um trecho do livro. 

The Economist: O que é o fascismo?

Madeleine Albright: Não existe uma definição consensual, o que pode explicar por que o termo é tão indiscriminadamente utilizado. Em meu livro, o fascismo não é uma ideologia de esquerda, direita ou centro, mas sim uma abordagem para apreender e consolidar o poder por um indivíduo ou partido que alega estar agindo em nome de uma nação ou grupo. 

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Para merecer o rótulo, os protagonistas devem estar dispostos a usar a violência e quaisquer outros meios necessários para atingir seus objetivos. O fascismo é profundamente antidemocrático, embora um governo fascista possa alcançar o poder através de um processo democrático.

The Economist: O termo do século XX realmente se aplica às políticas iliberais de hoje? Talvez nossa crise política esteja agravada porque não temos um bom termo para descrever o que está acontecendo? Ou o “fascismo” ainda funciona?

Sra. Albright: Além da Coréia do Norte, eu não acuso nenhum governo atual de ser fascista. No entanto, vejo paralelos perturbadores entre as tendências contemporâneas e as condições que deram origem a Mussolini, depois a Hitler. Estas incluem disparidades econômicas, uma fé declinante nos principais partidos políticos, a corrosão do discurso público, a difamação de grupos minoritários e um esforço conjunto de líderes repressivos para minar a liberdade de expressão, a lógica pervertida e a distorção da verdade. 

Talvez seja alarmista observar tudo isso e falar do possível retorno do fascismo, mas o subtítulo do meu livro: “Um Aviso” está seriamente entendido. Milhões de pessoas estão ausentes de minha geração porque, em tempos antigos, sinais semelhantes foram ignorados.

The Economist: A partir de sua experiência como criança testemunhando a tirania, um estudante de regimes opressivos como um acadêmico e um diplomata interagindo com líderes odiosos, como se contraria o fascismo – não apenas os políticos, mas sua multidão de seguidores?  

Sra. Albright: Correndo o risco de parecer sentimental, a melhor resposta às mentiras é a verdade e a melhor resposta ao ódio é o tipo mais difícil de amor. Em meio à Revolução de Veludo, Václav Havel disse às autoridades comunistas de seu país que eles não precisam temer os democratas que estavam protestando nas ruas, “porque não somos como você”. 

Hoje, estaremos perdidos se abandonarmos a fé nas instituições e valores que separam democracias, por mais imperfeitas que sejam, da tirania. A história está repleta de valentões que pareciam formidáveis ​​por um tempo apenas para tentarem demais ou subestimando a coragem silenciosa de mulheres e homens honrados. Examinando o mundo neste momento, vejo causa abundante de preocupação, nenhuma por desespero.

The Economist: Os liberais e democratas são passivos demais? Será que uma política criminosa exige uma resposta mais forte por parte daqueles que defendem os valores liberais e as tradições democráticas? Ou alguém perde a alma rebaixando-se ao nível do adversário?

Sra. Albright: Devemos nos esforçar mais contra o cinismo da direita e da esquerda. O fascismo prospera quando não há âncoras sociais, quando a percepção toma conta de que a mídia sempre mente, os tribunais são corruptos, a democracia é uma farsa, as corporações são apegadas ao diabo, e apenas uma mão forte pode proteger contra o mal – seja judeu, muçulmano, negro, o chamado caipira ou a chamada elite. Por mais falhas que nossas instituições possam ter, elas são as melhores que 4.000 anos de civilização produziram e não podem ser deixadas de lado sem abrir a porta para algo muito pior. 

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A resposta certa para a política agressiva não é mais agressividade; é uma aproximação entre o espectro ideológico de pessoas que querem tornar as democracias mais eficazes. Devemos lembrar que os heróis que amamos – Lincoln, King, Gandhi, Mandela – falaram com o melhor de nós.

The Economist: Muitas pessoas argumentam que as ameaças à democracia exigem instituições fortes para salvar o dia. Você trabalhou no topo do governo e também falou sobre instituições. No entanto, você parece tão interessado nas fragilidades do coração humano e nas responsabilidades dos cidadãos individuais em tempos difíceis. Por quê?

Sra. Albright: As experiências que moldaram nossas instituições do pós-guerra se tornaram tão distantes que muitos não têm mais a menor ideia de por que esses corpos foram estabelecidos. Isso por si só não deveria ser alarmante. Não podemos nos preparar para o futuro nos apegando ao passado. Instituições de setenta anos, como pessoas de setenta anos, precisam de reformas e devem ocasionalmente aprender novos truques. 

Mas instituições de qualquer idade refletem inevitavelmente o caráter daqueles encarregados de gerenciá-las. Oro para que não tenhamos que suportar outro trauma da segunda guerra mundial para reconhecer a urgência da responsabilidade cívica, amizades internacionais, respeito pelo estado de direito e um pouco de cuidado um pelo outro. 

Nenhuma instituição, por mais bem construída que seja, pode nos ajudar se perdermos o senso de humanidade compartilhada e se as pessoas em todo lugar se considerarem vítimas com licença para pisar nos direitos dos outros em busca de vingança. Nós aprendemos com a história que os sábios e confiantes construíram sistematicamente com tijolo, enquanto a construção assustada e auto absorvida apressadamente com palha.

* * *

Trecho de “Fascism: A Warning” (HarperCollins, 2018), de Madeleine Albright

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Mussolini observou que, ao procurar acumular poder, é sensato fazê-lo da mesma maneira que alguém arrancando uma galinha – pena por pena. Suas táticas continuam no nosso não mais novo século. Quando despertamos todas as manhãs, vemos em todo o mundo o que parecem ser as primeiras manifestações do fascismo: o descrédito dos políticos tradicionais, o surgimento de líderes que buscam dividir em vez de unir, a busca da vitória política a todo custo e a invocação de governos nacionais. grandeza por pessoas que parecem possuir apenas um conceito deformado do que significa grandeza. Na maioria das vezes, os sinais que deveriam nos alertar estão disfarçados: a constituição alterada que passa por reforma, os ataques a uma imprensa livre justificados pela segurança, a desumanização de outros mascarados como uma defesa da virtude, 

Sabemos por experiência que o fascismo e as tendências que o levam estão sujeitos à imitação. Examinando o mundo de hoje, vemos autocratas aprendizes copiando táticas repressivas que tiveram seus testes na Venezuela ou na Rússia quinze anos atrás. Práticas antidemocráticas estão em ascensão, entre outros lugares, na Turquia, na Hungria, na Polônia e nas Filipinas, cada qual um aliado dos Estados Unidos. Os movimentos nacionalistas radicais – alguns violentos, outros não – estão alcançando notoriedade à medida que atraem a atenção da mídia, fazem incursões parlamentares e ampliam os limites da discussão pública em direção ao fanatismo e ao ódio. A América, a rocha contra a qual o fascismo caiu no século passado, pode ter começado a cair.

Tão regularmente quanto usamos o termo, poucos chefes de governo atuais incorporam plenamente o espírito do fascismo. Mussolini permanece em seu túmulo e Hitler nunca teve um. Mas isso não é motivo para vigilância descontraída. Cada passo na direção do fascismo – toda pena arrancada – causa danos aos indivíduos e à sociedade; cada um faz o próximo passo mais curto. Para manter a linha, devemos reconhecer que os déspotas raramente revelam suas intenções e que os líderes que começam bem frequentemente tornam-se mais autoritários quanto mais tempo eles detêm o poder. Também devemos reconhecer que as medidas antidemocráticas serão muitas vezes bem-vindas por algumas pessoas, em parte do tempo – especialmente quando essas medidas são consideradas favoráveis ​​às suas.

É importante lembrar que as ações tomadas hoje dependem em grande medida das expectativas sobre o futuro. Se um país estrangeiro se sente abandonado pelos Estados Unidos, ou incerto sobre sua liderança, essa nação pode ver a necessidade de agir com mais força – e talvez imprudentemente – por conta própria. No mínimo, o país não vê outra opção a não ser investir no seguro de política externa, fortalecendo os laços com os outros, deixando os Estados Unidos do lado de fora olhando para dentro. Há também a chance de palavras intempestivas e ameaças mal concebidas aumentando as tensões de repente, induzindo o pânico de alguns, e levando todo mundo para a guerra. Certamente existem pontos problemáticos suficientes – começando pelo Oriente Médio e pela Península Coreana – para merecer ansiedade. Durante a Guerra Fria, instalamos linhas de emergência para que o presidente dos EUA pudesse dissipar qualquer mal-entendido falando diretamente com um líder estrangeiro. Não tenho certeza de quanta fé investiríamos nessa opção hoje.

Finalmente, e ainda mais seriamente, temo um retorno ao clima internacional que prevaleceu nas décadas de 1920 e 1930, quando os Estados Unidos se retiraram do cenário global e países em toda parte buscaram o que consideravam ser seus próprios interesses sem maiores e mais metas duradouras. Ao argumentar que toda época tem seu próprio fascismo, o escritor italiano e sobrevivente do Holocausto, Primo Levi, acrescentou que o ponto crítico pode ser alcançado “não apenas pelo terror da intimidação policial, mas negando e distorcendo informações, minando os sistemas de justiça”. paralisando o sistema educacional, e espalhando uma miríade de maneiras sutis de nostalgia de um mundo onde a ordem reinava ”. Se ele está certo (e eu acho que ele está), temos motivos para nos preocuparmos com a crescente gama de correntes políticas e sociais que nos afligem hoje – correntes impulsionadas pelo lado escuro da revolução tecnológica, os efeitos corrosivos do poder, o desrespeito do presidente americano pela verdade e a aceitação cada vez maior de insultos desumanos. A islamofobia e o anti-semitismo estão dentro dos limites do debate público normal. Ainda não chegamos lá, mas estes parecem signposts no caminho de volta a uma época em que o fascismo encontrou alimento e tragédias individuais foram multiplicadas por milhões.

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Extraído de “Fascism: A Warning”. Copyright © 2018 por Madeleine Albright. Usado com permissão da HarperCollins, Nova York. Todos os direitos reservados.

5 comentários

  1. Fascismo hoje?

    É preciso desmascarar Bolsonaro! Dizer que ele é favorável à tortura. Mas explicar a população o que significa a tortura nos seus detalhes. Falar do testemunho daqueles que foram vítimas de tal abuso e, que, por defender a democracia, foram perseguidos na ditadura militar que ele e a Globo apoiaram e querem trazer de volta. Pedir para as pessoas dar uma lida no Livro – “Brasil: Nunca Mais – Um Relato para a História” – que retrata de maneira bem realista as formas de torturas que impressiona pela crueldade. Dizer que uma dessas formas era a de introduzir uma barata viva no ânus do torturado para confessar seus “crimes”. Ainda há tempo de se evitar os campos de concentração que podem vir se o fascismo vier a ser institucionalizado no Brasil. Não deixe o ódio vencer mais uma vez!!!

    Para mais informações, segue o link: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tortura_no_Brasil

     

  2. E o epicentro?

    Práticas antidemocráticas estão em ascensão, entre outros lugares, na Turquia, na Hungria, na Polônia e nas Filipinas

    E a Arábia Saudita, tia Albright? Falta coragem para dar o nome a esse boi?

  3. Warming fascista

    Baback Obama mobilizou todas as forças de oposição no Brasil e todo o potencial da midia, para impedir a re-eleição da Dilma. Círculos financeiros e econômicos influentes estiveram envolvidos para ajudar Aécio Neves a ser eleito. Rubens Antônio Barbosa, ex-embaixador em Washington, considerado o principal agente da CIA no Brasil para influenciar o resultado das eleições e provavelmente ministro das Relações Exteriores, tivesse ele ganhado as eleições, é diretor da ASG em São Paulo. A ASG é um grupo de consultores de Madeleine Albright (secretária de Estado durante o bombardeio da Iugoslávia em 1999).
    Um dia depois do impeachment na Câmara, Aloysio Nunes foi a Washington em missão organizada pela empresa de lobby da Madeleine Albright, o Albright Stonebridge Group. Cabeça de um dos principais think-tanks nos EUA, o Council on Foreign Relations ela é também presidente da mais ativa ONG especializada em “revoluções coloridas”, o National Democratic Institute (NDI). Aloysio foi lá sondar Joe Binden, operador-sujo-em-chefe do manicômio White House e assegurar-se que usariam o porrete na Dilma “que já sangrava bastante”. Em maio de 2013, Binden viera ao Brasil pra falar de petróleo na esperança de convencer a turma no gogó (em 2007 a Petrobrás descobrira uma reserva monstro que transformava o país na maior potência mundial de petróleo e gás. Exxon e Chevron imediatamente entraram em campo para conquistar o controle disso tudo. Desde 2009, segundo Wikileaks, elas já tentavam alterar a lei encaminhada ao Congresso por Lula, que tornava a Petrobrás a principal operadora de todos os blocos do petróleo do pré-sal no Brasil. Em 2012 a Petrobrás fizera outra descoberta que incluia poços descobertos em 2011, uma das 10 maiores descobertas do mundo!). Dilma recusou-se de trair o Brasil. Os estadunidenses ficaram apopléticos; Snowden revelou que a NSA espionava Rousseff até na toilette do avião presidencial. Foi aí que deram o sinal verde meleca ao comandante supremo, general Villas Bôas que —ato contínuo—reunia-se com o alto comando das FFAA (que ele garante ser igual ao de 1964) para decidirem juntos o modelo da sua cadeira de rodas (sonhando a hi-tech usada pelo Stephen Hawking) e desse modo seguir sentado à frente deles na missão histórica de garantes da entrega do patrimônio brasileiro e desmonte do formidável e inédito know-how tecnológico no campo militar, realizados nos governos do PT. Mourão já fizera comício para ser galardoado com o “Negrinho do Pastoreio”. O STF instituia o GRU; Etchegoyen retirou o terno da tinturaria e com a boca espumando, despachou um sniper na porta da Dilma. O resto é história conhecida.    —> ALBRIGHT: «Para ser um fascista o protagonista deve estar disposto a usar violência ou quaisquer meio necessário para atingir seu objetivo. O fascismo é profundamente antidemocrático. Vejo paralelos perturbadores entre as tendências contemporâneas e as condições que deram origem a Mussolini, e a Hitler. Estas incluem disparidades econômicas, fé declinante nos partidos políticos, corrosão do discurso público, difamação de grupos minoritários e um esforço conjunto de líderes repressivos para minar a liberdade de expressão e a distorção da verdade.»
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    Segundo Madeleine Albright o único país fascista, hoje, é a Coreia do Norte  (!!??)  Todos os acordos, convenções e cartas valem nada, nenhum tem valor, nem moral nem legal. Os EUA assinam e cancelam acordos à vontade. Não respeitam qualquer acordo, qualquer compromisso, nada, nenhuma carta. Um analista politico escreveu: «Hoje estão conversando com o presidente da Coreia do Norte, levando-o pela trilha das flores, dizendo a ele que, se destruir suas armas atômicas, eles darão permissão a empresas dos EUA para ir e investir na Coreia do Norte. Se os norte-coreanos confiarem nos EUA e destruírem [o arsenal nuclear], como fez a Líbia, por exemplo, os EUA dirão às empresas de mudarem-se para lá, que devem organizar eleições, cumprir tais e tais critérios de direitos humanos, etc., etc. E a chantagem continuará (indefinidamente). O fato é que a Coreia do Norte e o Vietnã mostraram-se fortes demais para os militares dos EUA. Naqueles conflitos o desempenho dos EUA teria sido muito pior, não fosse o recrutamento, que teve o efeito de incorporar gente menos incompetente, mas teve o efeito indesejado de recém-alistados matarem a tiros seus superiores incompetentes – um dos capítulos menos conhecidos da história militar dos EUA.»  video dick  https://mail.google.com/mail/#all/1640548cbc93c668?projector=1
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    ALBRIGHT: «Se um país estrangeiro se sente abandonado pelos EUA, ou incerto sobre sua liderança, essa nação pode ver a necessidade de agir com mais força – e talvez imprudentemente – por conta própria.» Trump e Albright assumem que os EUA devem poder fazer o que lhes dê na telha na arena internacional: Trump porque é o maior país do mundo; Albright porque é força excepcional para o bem global.  — Vale a pena conhecer a doutrina que é a base teórica da “guerra justa”, chamada “paradoxo da graça”.
    Quando a jovem Madeleine e sua família fugiram para a América escapando dos comunistas, a classe dominante estadunidense de pós guerra preparava-se para uma vida dedicada inteiramente ao delito. Preparava-se para assumir postos de dirigentes ou apologetas de um periodo de conquistas globais. Ora, governar o mundo conduz inevitavelmente a cometer crimes monstruosos. A história ensina. Quem detém um poder que pode ser nocivo a outro terminará por autodesculpar-se dos próprios atos. E assim apareceu a doutrina do “paradoxo da graça”, doutrina que saiu da cabeça de um dos gurus mais escutados nos EUA, chamado Karl Paul Reinhold Niebuhr (1892-1971), o “teólogo do establishment”; para Kennedy e Kennan ele era <O> cara; para Noam Chomsky, Niebuhr era um intelectual modestissimo (mas um assombro se posto ao lado do general Mourão). A doutrina do “paradoxo da graça” era o seguinte: por mais que voce procure ser bom, sempre será mau. Simples assim. Uma tese atraente pra quem está pensando em dedicar a própria vida ao crime. “Por mais que eu queira fazer o bem a todos, inevitavelmente farei o mau a alguém”. Uma grande sacada para os Don Corleone da vida.
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    Saddan invadiu o Kuwait; o Irak pagou um preço exorbitante em vidas humanas para tirá-lo de lá quando todas as chancelarias sabiam que a paciȇncia e a tratativa teriam obtido o mesmo resultado. Os artigos de jornais da época eram repletos de descrições mentirosas: «armas de destruição em massa», «700 mil soldados iraqueanos no Kuwait», «arsenais missilisticos e tanks impressionantes», «o Irak é a quarta potência militar do planeta, etc., etc.», tudo isso porque Bush ainda não tinha a opinião pública do lado dele e temia que o Congresso não aprovasse a farra (já circulava um relatório detalhado da CIA, segundo o qual o embargo estava quebrando o país. Para o então diretor William Webster, as sanções tinham privado o Irak quase totalmente das exportações, de cerca 90% das importações e um abatimento de quase 50% da sua capacidade produtiva!!     —     No programa “60 minutos” da CBS (12/5/1996), perguntaram a Albright: “Já morreram cerca de 500 mil crianças com menos de cinco anos; mais crianças mortas que em Hiroshima. O preço valeu a pena?” Albright respondeu sem piscar: “Entendemos que sim, valeu a pena.”     —     Foi devastador. Pesquisadores da universidade de Harward, concluíram que a situação alimentar gerada pelo embargo, determinara a morte nos 10 meses sucessivos à guerra, de pelo menos 165 mil crianças!!! A perversa elite estadunidense planejara aquele embargo apenas para fazer sofrer o povo iraqueano, antes de bombardeá-lo [segundo informação do Estado Maior da aeronáutica dos EUA, no final da operação “Tempestade no Deserto”, de um total de 88.500 toneladas de bombas (inteligentes) lançado sobre objetivos militares do Irak, cerca de 70% erraram o alvo (61.950 toneladas cairam sobre estradas, habitações civis, campos e localidades sem qualquer interesse bélico). Ficou conhecido o caso da bomba “inteligente” lançada contra a ponte do distrito de Adhamiya; a ponte ficou intacta mas o prédio residencial distante 180 metros foi pulverizado]. As TVs ocidentais entretiam o espectador com Patriot versus Scud; não falavam nem mostravam a destruição sistemática das estruturas civis do Irak (água, luz, esgȏto, estradas, centrais elétricas, roubo dos museus e sitos arqueológicos, etc).    —> ALBRIGHT: «A melhor resposta às mentiras é a verdade e a melhor resposta ao ódio é o tipo mais difícil de amor. A resposta certa para a política agressiva não é mais agressividade; é uma aproximação entre o espectro ideológico de pessoas que querem tornar as democracias mais eficazes.»
    Desafiando mulheres jovens que mostravam preferência por Bernie Sanders, Albright disse: “Vocês têm de ajudar. Hillary Clinton sempre as defenderá. E lembrem: há lugar reservado no inferno para mulher que não ajude mulher.”   –   Eu diria que há lugar reservado no inferno para diplomata  – homem ou mulher e, no caso, a própria Albright – que entenda que as sanções contra o Iraque, que a ONU calcula em 500 mil, apenas de crianças, teriam “valido a pena”.  (Ray McGovern, 19/9/2016, Consortium News).
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    ALBRIGHT: “O fascismo prospera quando não há âncoras sociais, quando a percepção é que a democracia é uma farsa, as corporações são apegadas ao diabo, e apenas uma mão forte pode proteger contra o mal”     —     LARS SCHALL: Há muita conversa em seu país sobre o socialismo. Acho que é uma discussão muito falsa; você concorda comigo que é hora de acordar e conversar sobre o fascismo nos EUA?   THOMAS DRAKE: Realmente, essa é a palavra… Sempre que uso a palavra “fascismo” as pessoas se encolhem. Eles não querem ouvir falar disso; mesmo com a avassaladora evidência de que nós realmente temos um governo fascista com ligações extraordinárias a Wall Street, ao setor financeiro bancário e grandes corporações em uma escala realmente extraordinária. […] Conheço pessoas nas minhas redes que são progressistas; infelizmente, eles não se dão conta porque a face do fascismo não é coisa legal de se ver porque significa que você está se olhando no espelho.   LARS SCHALL: E vocês [os EUA] combateram os fascistas na Segunda Guerra Mundial.   THOMAS DRAKE: Sim, com certeza. Quer dizer, meu próprio pai lutou na Segunda Guerra Mundial […] Eu entrevistei 50 veteranos, da Segunda Guerra Mundial até as dos dias de hoje e os veteranos da Segunda Guerra temiam pelo futuro da nossa república. Eles dizem, “Puxa, tudo aquilo contra o que lutei foi em vão?” Para alguns deles nós nos tranformamos exatamente naquilo contra o que lutamos.
    Trecho da entrevista “Informação secreta: a moeda do poder”, de Lars Schall, Asia Times Online, a Thomas Drake, 18/12/2013 (Trad. coletivo VV) Essa entrevista foi transcrita e editada exclusivamente para Asia Times Online. O áudio da entrevista foi publicado na página alemã de finanças “Die Metallwoche”   —   Thomas Drake, nascido em 1957, é o ex-executivo sênior da Agência de Segurança Nacional dos EUA, que denunciou um programa de fraude e ocultação da fraude, de vários bilhões de dólares, e o programa secreto de vigilância ilegal generalizada daquela Agência. Em abril de 2010, o Departamento de Justiça dos EUA processou-o e condenou-o nos termos da Lei Antiespionagem [orig. Espionage Act] do tempo da 1ª Guerra Mundial, acusado de dez crimes, inclusive “manipulação indevida de documentos”. Por fim, o caso construído contra ele foi arquivado. Acabou sendo julgado por transgressão menor, por uso não autorizado de um computador.  Drake é criptolinguista e ex-supervisor de equipe em missão de guerra eletrônica. De 1991 a 1998, trabalhou para a empresa Booz Allen Hamilton como consultor de gestão, estratégia e tecnologia e engenheiro de qualidade de software. Em 2011, Drake recebeu o Prêmio Ridenhour (para os que contam a verdade ao povo) e o Prêmio Sam Adams. É graduado em várias áreas e tem dois diplomas de pós-graduação.
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    LAPSUS: Quando Madeleine Albright fala de «autocratas aprendizes copiando táticas repressivas que tiveram seus testes na Venezuela ou na Rússia quinze anos atrás», fala dela mesma e dos EUA.

    VENEZUELA BOLIVARIANA: a presença conspirativa dos EUA tem antecedentes históricos. É uma questão de Estado e prioridade destacada do Departamento de Estado e do Pentágono. Desde a primeira eleição de Hugo Chávez, em 1998, os EUA buscam desestabilizar o país promovendo golpes de Estado, conspirações, traições, infiltrações, sabotagem, atentados, assassinatos de civis, etc. (Jeferson Miola)  
    O objetivo é sempre ‘mudança de regime’ a ser obtida mediante violência política, guerra de informações (a Venezuela já passou por um golpe de estado ‘pós-moderno’, do tipo que os EUA financiam pelo mundo, em 2002, que durou 47 horas e foi derrotado pela população nas ruas e trouxe de volta o Comandante Chávez, que reassumiu seu mandato constitucional) e guerra econômica, além de assassinatos ‘seletivos’, aumento artificial nos sequestros relâmpago e roubos, sempre com a participação do crime organizado e outros agentes estrangeiros. Se a rede MSM, anglo-sionista, ‘noticia’ grave crise econômica, pode-se ter certeza de tensão econômica criada artificialmente, parte de uma ação multidimensional que implica sabotar  a produção, promover contrabando massivo de produtos básicos (que vão de artigos de maquiagem a itens considerados básicos na – deformada – dieta dos venezuelanos), pela fronteira Venezuela-Colômbia, diretamente para os supermercados colombianos; especulação com preços, desvalorização da moeda, excessiva importação de itens de alimentação, em vez de atenção para consolidar um aparelho de agronegócios produtivo; na maioria dos casos, esses são desenvolvimentos hipertrofiados de buracos negros ou pontos de maior fragilidade que ainda há na economia.

    RUSSIA: Para aferir o grau de desarranjo entre os neoconservadores nos EUA, cito um artigo recentemente publicado (agosto de 2014), de Herbert E. Meyer, ex-assistente especial do Diretor da CIA e vice-presidente do Conselho Nacional de Inteligência da CIA durante o governo Reagan, em American Thinker, e que leva o título, modesto, de “Como resolver o problema Putin”. Eis a ideia do gênio-aí:   «Dado que sutilezas não funcionam com russos, o presidente [dos EUA] e contrapartes europeus devem tornar claro que não temos interesse de nenhum tipo em como aquela gente (os oligarcas russos) resolvem o problema Putin deles. Se conseguirem conversar o bom Vladimir e convencê-lo a deixar o Kremlin com honras militares e salva de 21 tiros de canhão – para nós, estará ótimo. Se Putin for cabeça-dura e não reconhecer que sua carreira está acabada, o único modo de arrancá-lo do Kremlin é na horizontal e com um buraco de bala na nuca – o que, pra nós, também estará muito bem.  Nem objetaríamos, sequer, a uma gota de justiça poética (…) Por exemplo, se da próxima vez que Putin voar de volta a Moscou, depois de mais uma visitinha a Cuba, Venezuela, ou Irã, o avião dele for derrubado dos  por algum grupo que, ninguém sabe como, pôs as mãos num míssil terra-ar.»    Não sei se esse Mr. Meyer acha que Mrs. Nuland entregando bolinhos na praça Maidan é o tipo da ‘sutileza’ que russos nem entendem nem gostam, ou se esse artigo é, ele mesmo, expressão da ‘sutileza’ da CIA, mas não há dúvida de que Meyer teve aí seu “momento Pat Robertson” [pregador religioso, que pregou na TV para que os EUA assassinassem Hugo Chávez]. (The Saker, Vineyard of the Saker, 29/8/2014)

    New York Times: «Um grupo que trabalha sem finalidades de lucro e promove a democracia é o mais recente grupo ligado aos EUA a ser banido de território russo, nos termos da lei sobre organizações “indesejáveis” que o presidente Vladimir V. Putin assinou.  O gabinete do procurador geral da Federação Russa declarou banido o “National Democratic Institute” NDI, acusado de “ameaçar os fundamentos da ordem constitucional e da segurança nacional da Rússia.» Esse trecho, publicado NYT dedica-se atentamente a não explicar o que realmente é o tal grupo “sem finalidades de lucro e pró-democracia”. Nem alguma mínima referência à fonte do dinheiro que mantém o tal grupo ou às relações com outros estados e governos não russos. O NYT, atrasista e golpista, não apenas não informa, como faz o possível para que seus leitores tenham chance zero de virem a ser corretamente informados sobre esses fatos.
    O NDI operava na Rússia desde o final dos anos 1980s; em 2012 fechou o escritório mas continuou a criar e implantar programas na Rússia mediante organizações parceiras. Madeleine K. Albright é a presidenta do NDI. Para saber o que é essa organização é importante conhecer a posição russa. Mas o ‘jornalista’ do NYT esconde de seus leitores o fato de que o NDI presidido por Albright é organização mantida pelo governo dos EUA.  É “organização sem finalidades de lucro” tanto quanto as Forças Armadas dos EUA são “organização sem finalidades de lucro”.  A  NDI envolveu-se ao longo dos anos em dúzias de golpes de direita para “mudança de regime”. É filha em linha direta de descendência de outra “organização sem finalidades de lucro”, a National Endowment of Democracy [aprox. Dotação Nacional para a Democracia] estadunidense, organização de direito privado, mantida pelo Congresso dos EUA, e ferramenta de política externa dos EUA, porque sempre atua apoiando esforços dos EUA para derrubar governos estrangeiros. Como escreveram Jonah Gindin e Kirsten Weld, no NACLA Report on the Americas de jan./fev. de 2007:  «Desde [1983], a NED e outras instituições governamentais e não governamentais para promoção da democracia intervêm com sucesso a favor, não de qualquer democracia, mas só de um tipo muito particular de democracia de baixa intensidade, que opera em cadeia com economias pró-mercado, em países que vão da Nicarágua às Filipinas, da Ucrânia ao Haiti, sempre derrubando governos ‘autoritários’ pouco amistosos no trato com os EUA (muitos dos quais, antes, foram apoiados, quando não foram diretamente postos no poder, pelos EUA), e substituindo-os por aliados pró-mercado escolhidos a dedo» [Nota 2, no orig., sem referência (NTs)].  A NED opera principalmente mediante quatro institutos centrais: o National Democratic Institute for International Affairs (NDIIA ou NDI), o International Republican Institute (IRI), o American Center for International Labor Solidarity (ACILS) e o Center for International Private Enterprise — os quais representam respectivamente: os dois maiores partidos políticos dos EUA, os grandes sindicatos nacionais e a comunidade empresarial.
    Designar o NDI e congêneres como “não governamentais” é falso. Dizer que seriam “pró-democracia” só é verdade se se esclarece que se trata   de “democracia” que só funciona em países estrangeiros, onde seja preciso promover interesses empresariais e comerciais dos EUA, acima dos interesses das populações locais. O NDI que o procurador russo chutou para longe da russia é órgão do governo dos EUA que atuava clandestinamente financiando operações, ações e movimentos contra o governo legal e legítimo que os russos elegeram, e contra o interesse do próprio povo russo. (Moon of Alabama, 12/3/2016).  —  Não foi escrito no despacho mas ficou subentendido o pedido à Madeleine de ir procurar uma rola fora da Russia.
     

    • Madeleine-The Economist-Globo e o “boi de piranha”

      Totskij: “E’ necessario ter a cabeça vazia pra reduzir os antagonismos mundias e os conflitos militares à luta entre o fascismo e a democracia”

      saiba mais no Youtube:  “Há a possibilidade de um golpe militar” – Análise Política da semana, PCO, a partir de 00:37:20

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