As evidências que temos sobre a política de cotas, por Rodrigo Zeidan

Sabe aquele seu amigo contra cotas? Responda com ciência! Nada de opinião. Somente econometria da melhor qualidade

Por Rodrigo Zeidan

De seu Twitter @RodZeidan

Sabe aquele seu amigo contra cotas? Responda com ciência! Um fio sobre as evidências que temos sobre cotas e outras políticas de ações afirmativas. Nada de opinião. Somente econometria da melhor qualidade.

O artigo da Fernanda Estevan e co-autores (2019), num dos melhores periódicos de economia, mostra que cotas geram redistribuição sem distorção! Esse resultado é importantíssimo para entender a justiça social de cotas.

https://academic.oup.com/ej/issue/129/619

Eles estudam o exemplo da Unicamp, que implementou sua política de ação afirmativa em 2004. Alunos de colégios públicos ganhavam 30 pontos (30% do desvio padrão) a mais e se declarassem ser negros, mulatos ou índios, mais 10 pontos.

Os autores são inovadores, pois conseguem mostrar uma relação de causalidade entre ações afirmativas e o esforço de alunos universitários. O primeiro resultado é de que essa política aumentou e muito a probabilidade de entrada de alunos de famílias de baixa renda.

Mais interessante, a adoção de ações afirmativas não mudou o esforço dos alunos de alta renda, tanto antes do ENEM quando depois da entrada na universidade. Isso provavelmente aconteceu porque a vantagem de ser rico ainda é muito grande, mesmo com cotas.

Além disso, alunos ricos e pobres se esforçam bastante para estudar para o ENEM. A introdução de ações afirmativas não mudou o padrão de estudos. Simplesmente aumentou-se a participação relativa de alunos de baixa renda, sem mudança da qualidade do ensino.

Ah, parte da razão da Unicamp ter feito essa política é pq estudos como Pedrosa e co-autores (2007) mostram que alunos de escolas públicas tem maior esforço e bom desempenho relativo a colegas mais ricos, de colégios privados.

https://www.oecd.org/site/imhe2006bis/37245034.pdf

Francis e Tannuri-Pianto (2012) estudam as cotas raciais da Universidade de Brasília. Eles encontram resultados parecidos – não há distorções no esforço dos alunos que estudam para o ENEM, brancos ou negros. Mais interessante, eles debelam um mito importante:

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As cotas não impactam o desempenho relativo dos alunos negros e brancos, mesmo depois da política aumentar a proporção de negros e pobres na Universidade! Nada de achar que a entrada desses alunos jogou o ensino pra baixo. É mentira!

Deve-se salientar ainda que os autores encontram dois resultados bem interessantes: há um número pequeno mas, estatisticamente significativo, de alunos que mentem sobre sua identidade racial mas, em contrapartida, inspira outros a assumires a sua.

Mas por mais que cotas tenham trazido maior justiça sem distorções (maior equidade se compararmos alunos que entraram versus aqueles “expulsos” pelas cotas), o efeito global ainda é bastante limitado, como mostram os mesmos autores em outro estudo:

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0272775711001385

Como eles afirmam: a maior parte dos brasileiros, principalmente os mais pobres, não tem qualquer chance de fazer uma universidade pública. As cotas ajudam, mas estão longe de serem tão comuns a ponto de mudarem o sistema de verdade.

Mais um exemplo do efeito de cotas. Ana Ribeiro (2016) mostra que alunos de direito que entraram por cotas tem 33% maior chance de passar no exame da OAB que se pagassem uma universidade. E, mais importante, nada acontece com a probabilidade de passar no exame da OAB dos alunos que perderam sua vaga nas universidades públicas! Ou seja, cotas realmente aumentam justiça social sem prejudicar muito os que foram deslocados por elas!

http://www.cedlas-er.org/sites/default/files/aux_files/ribeiro_0.pdf

Ah, os alunos de direito via cota tem desempenho pior que os outros alunos, 7.68%, mas a diferença de performance inicial era muito maior. Ou seja, os alunos que entram via cota conseguem recuperar bastante a distância inicial que os separa dos outros estudantes!

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Ainda, Alice Lopes (2015) mostra que uma diferença importante que se mantém mesmo com as cotas é que os alunos mais pobres tendem a se formar em cursos de menor potencial de ganhos financeiros.

https://t.co/lK9NaI5qLs?amp=1

Pra ficar num exemplo grosseiro, que não reflete a importância relativa de cada profissão, pensem em medicina vs serviços sociais. Ou seja, alunos de cotas são tão bons quanto os outros, mas acabam entrando menos, relativamente, nas graduações de “elite”.

Infelizmente, a atitude dos brancos precisa mudar. Robert Vidigal (2018) encontra que somente 6% dos alunos brancos da UFSC acha que cotas raciais são importantes na instituição. Pra não ficar só no pessimismo:

Indivíduos brancos que entendem mais de política tendem a expressar maior apoio à existência de cotas, além de ter atitudes raciais mais coerentes. Pra resumir:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981-38212018000200205&script=sci_arttext

Cotas são importante mecanismo de justiça social e NÃO PREJUDICAM os alunos que são deslocados por elas (os que entrariam nas universidades no lugar de estudantes negros e de colégios públicos).

Alunos que tem diferença grande inicialmente acabam recuperando boa parte dela ao longo do curso. Não conheço nenhum artigo científico que mostra que cotas gerem distorções no sistema de ensino (pode existir, é claro).

“Cotistas” não jogam a qualidade do ensino pra baixo. É ciência, não ideologia. Os resultados são bem consistentes. Cotas são relevantes como mecanismo de acesso, sem causar distorções.

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Por hoje, fico por aqui. Como sempre, peço para me seguirem pq, como mostra o fio sobre racismo, quanto mais leitores eu tiver mais informação de qualidade como essas se alastram pelo país. Numa época de obscurantismo, ciência importa! Fin.

 

 

 

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