80 anos depois, o fascismo segue à espreita, por Arnaldo Cardoso

No cotidiano das cidades italianas são abundantes as evidências de uma nostalgia fascista, ou da latência fascista.  

80 anos depois, o fascismo segue à espreita

por Arnaldo Cardoso

Completados oitenta anos no último 8 de setembro, do armistício entre a Itália e os Aliados, anunciado pelo marechal Pietro Badoglio chancelando a derrota do país na Segunda Guerra Mundial e do regime fascista, o ambiente político e social na Itália não endossa falas peremptórias de fim do fascismo, pelo menos não no que se refere à cultura fascista.

Neste ano, o primeiro no qual as datas mais importantes para a democracia italiana (25 de abril, 25 de julho e 8 de setembro) foram celebradas sob o governo da Primeira-Ministra Giorgia Meloni, do partido de direita Irmãos d’Itália (FdI), cujas raízes se encontram no Movimento Social Italiano (MSI), formado em 1946 como herdeiro direto dos camisas negras de Benito Mussolini, uma série de declarações de cunho fascista de membros do governo e apoiadores como o Ministro Matteo Salvini (Liga) e Ignazio La Russa, presidente do Senado, em meio a graves acontecimentos, evidenciaram a gravidade do problema, precariamente negado por Meloni.

La Russa, filho de um histórico fascista, não consegue esconder sua admiração pela personalidade de Mussolini e pelo regime do ditador. Nos festejos do último 25 de abril, data que comemora a Libertação da Itália da ocupação nazifascista, o presidente do Senado relativizou, em declarações públicas, o papel da Resistência e negou haver na constituição da República italiana qualquer referência a um antifascismo. Desde que assumiu o atual posto político, por ocasião da formação do governo Meloni em outubro passado, La Russa acumula declarações que aviltam a consciência de democratas, mas que são aplaudidas por membros do governo e parte da sociedade.

Se por um lado não se reconhece hoje nas sociedades modernas as condições objetivas para a instauração de regimes políticos como o fascismo italiano ou o nazismo alemão, a latência fascista não deve ser percebida como pouco danosa. Como lembrou o escritor italiano Umberto Ecco (1932-2016) ao conceituar o Ur-fascismo, ou fascismo eterno […] “embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis”.

No cotidiano das cidades são abundantes as evidências de uma nostalgia fascista, ou da latência fascista.  

Em Cerea, comuna de 16 mil habitantes na província de Verona, norte da Itália, o bar “Armando” não esconde a orientação ideológica de suas proprietárias, emitindo seus recibos impressos com a cabeça de Mussolini. Por anos essa foi uma prática no mês de outubro, em comemoração à Marcha sobre Roma de 28 de outubro de 1922. Desde o ano passado, com a posse de Meloni na condução do país, foi adotado como padrão o tal recibo, emitindo-o durante todo o ano.

“Aqueles que me atacam dizendo que sou fascista, apenas me fazem um favor. Não escondo meus ideais, tenho orgulho deles” declarou uma das proprietárias do bar, em recente entrevista a um jornal regional. E complementou “os problemas da Itália são outros e quem está no governo está trabalhando para resolvê-los”.

Sobre a tal latência fascista aflorada no presente, na Itália e também em outras partes do mundo, os estudos freudianos-adornianos com foco no discurso fascista continuam sendo contribuições importantes para a compreensão do fenômeno, particularmente acerca de sua natureza libidinal organizadora dos vínculos sociais em sociedades modernas.

O “mundo ao contrário” denunciado pelo general Vannacci

Sintoma desse fenômeno pode ser reconhecido no lançamento na Itália, no último 10 de agosto, do livro “Il mondo al contrario” (“O mundo de cabeça para baixo”, em tradução livre) escrito por um general italiano, Roberto Vannacci, que rapidamente alcançou o primeiro lugar do ranking Amazon Itália de livros de não-ficção.

Ao longo de 373 páginas o militar de 55 anos, ex-chefe dos paraquedistas da Brigada Folgore e ex-diretor do Instituto Geográfico Militar de Florença, expressa suas ideias contra a “ideologia de género”; contra supostos lobbies em favor da comunidade LGBT e do feminismo; contra as políticas de imigração europeias supostamente brandas e contra uma inaceitável flexibilização da concepção de italianidade, entre outras subversões da ordem, na percepção do autor, que tem colocado o mundo “de cabeça para baixo”.

A tese que o general tenta sustentar é a de que as sociedades democráticas estão prisioneiras daquilo que ele chama de “ditadura das minorias”.

Os entusiastas do livro (um manifesto!)  que fazem coro agradecendo ao autor com exaltações como “finalmente qualcuno há avuto il coraggio di dire quello che si doverbe dire da tempo” (dito ao general, dias atrás, por uma senhora italiana de cabelos grisalhos em evento promocional do livro em Marina di Pietrasanta, comuna de Lucca, na Toscana), demonstram encontrar nas simplificações apresentadas pelo general respostas confortantes para suas ansiedades.

Em Castelfranco Veneto, Clara Abatangelo, proprietária da livraria Ubik, passou a receber ameaças de morte e sofrer cyberbullying por informar que não venderia o livro de Roberto Vannacci. Nos canais de mídia da livraria abundam insultos e ameaças.

Clara, que tem entre seus funcionários uma jovem brasileira que já foi vítima de racismo, diz não tolerar atitudes racistas, misóginas, homofóbicas e tudo o que fere a vida civilizada.

Normal e saudável

Na reducionista interpretação do general tudo o que não corresponde às suas precárias verdades é excluído do que ele classifica como “normal e saudável”. A contundência no ataque à comunidade LGBTQIA+ parece constituir um exemplo da ansiedade sexual estudada por autores como Jason Stanley, catedrático norte americano, autor de “Como funciona o fascismo” (2018).

No capítulo 8 “Ansiedade sexual” do referido livro, Stanley expõe as relações entre o modelo patriarcal de masculinidade e a ameaça identificada em quaisquer outras formas de sexualidade não binárias, que ponha em discussão a exclusividade da família tradicional. Como diria o poeta brasileiro “Narciso acha feio o que não é espelho”.

O livro de Vannacci não demonstra preocupação do autor com o estupro e outras formas de violência sexual, comuns no fascismo e em outros regimes de força,  e que hoje vem batendo recordes em sociedades como italiana.

Em recente missa em Roma, diante do anúncio do 79º feminicídio deste ano na Itália, o bispo Dom Baldo Reina bradou “É uma verdadeira matança que horroriza e revela como a cultura da morte agora, como uma nuvem negra, envolve tudo e todos”. Nas últimas semanas o noticiário italiano repercutiu dois casos de estupros coletivos, um em Palermo contra uma jovem de 19 anos e outro, em Nápoles, contra duas meninas, uma de 10 e outra de 12 anos.

Compondo um quadro cultural mais amplo, viralizou nas redes sociais italianas as fotos de urinóis em formato de boca de mulher instalados em banheiro masculino de uma academia de ginástica em Turim e, num resort na Sardenha, uma jovem mulher seminua, coberta de calda de chocolate decorava a mesa do bar para estimular os turistas que desfrutavam o calor do Ferragosto. Questionados, o proprietário da academia disse que os urinóis são “objetos de arte” e o gerente do resort disse não ter pensado que a decoração poderia ofender alguém.

Nenhum desses deploráveis episódios mereceu a atenção do general Vannacci. Devem caber perfeitamente em sua concepção do que é “normal e saudável”.

Rejeitando o simplismo tacanha

Submetido à leituras mais criteriosas e menos dispostas a reacionarismos, o livro do general se mostra um constrangedor exemplar do pior do negacionismo, do antiintelectualismo, de descaso com a Constituição Italiana, de intolerância com o diferente e de saudosismo fascista.

Se são numerosos os que aceitam o ilusionismo e se sentem confortáveis com a validação de modelos simplistas para explicar a complexidade, não são poucas nem menos vigorosas as vozes daqueles que rejeitam tanto o aplauso diante do intolerável quanto o silêncio conivente e se levantam em oposição, movidos pela crença na possibilidade de melhora da humanidade, combinando razão, responsabilidade e empatia com o próximo.

A crítica de Valerio Caprano

Uma destas vozes é a de Valerio Capraro, italiano natural de Roma, professor sênior de Economia na Middlesex University London, autor de “La scienza dei onflitti sociali” e de “Ogni scelta che fai”. Com formação matemática, doutorado e pós-doc em Psicologia e Sociologia ele utiliza uma combinação de ferramentas teóricas e empíricas para compreender a cooperação, o altruísmo, a honestidade e, de forma mais geral, o comportamento moral entre os humanos. Suas pesquisas já foram publicadas pelas principais revistas internacionais de psicologia, economia e biologia.

Abaixo reproduzimos em tradução livre do italiano,  parte de uma análise que fez do livro de Vannacci.

“Li todo o livro de Vannacci e estou literalmente estarrecido.

Vannacci começa o livro dizendo que “um dos propósitos do livro é o triunfo da sabedoria e das verdades objetivas”. Bem, não sei que concepção de “sabedoria” o general tem em mente, mas o livro contém contradições lógicas profundas e muito sérias que invalidam vários dos principais argumentos do livro”.

Capraro expõe as distorções que o general faz em favor da “legítima defesa” e ao tratar do problema da ocupação de imóveis desprezando o direito à moradia; também explicita a afronta à própria Constituição Italiana na problematização que faz em torno da questão da cidadania italiana, refutando o jus culturae, com claro viés racista.

Na análise do estudioso da ética e do comportamento humano, as coisas pioram ainda mais quando o general Vannacci tenta conferir cientificidade a teses já amplamente refutadas pela Ciência como a da “família tradicional” como modelo único na organização dos homens ao longo de sua história. Sustentado por extensa literatura especializada Capraro é enfático: “Vamos esclarecer isso de uma vez por todas: a monogamia entre os humanos não é natural, mas sim cultural e só evoluiu recentemente”.

Se a história, os conceitos e as teorias científicas não são, evidentemente, o forte na narrativa de Vannacci, o exercício da lógica então é ainda mais aviltado.

Ele parece não perceber que a denúncia que faz de uma suposta imposição de “pensamento único” caracterizador da “ditadura das minorias”, na verdade, é ele quem se apresenta como vocalizador do único pensamento defensável, o da ordem baseada na tradição e no patriarcado. É ele e seus seguidores os que não suportam o diverso e se sentem perdidos, “de cabeça para baixo”, diante da complexidade e da correspondente necessidade imperiosa de construção de um futuro diferente, mais democrático, inclusivo, igualitário em direitos e sustentável.

A crítica de Luca Sommi

Luca Sommi, italiano natural de Parma, jornalista e professor da Unversidade de Parma, leu em seu canal do Youtube uma “Carta aberta ao general Vannacci” na qual explicita sua posição crítica ao livro.  

Logo no início do vídeo (original em italiano) que, em poucos dias teve mais de 50 mil visualizações, Sommi diz haver no livro “fundamentos totalmente errados, tanto de natureza cultural quanto estrutural”.

Continua Sommi: “seu livro é contrário à sociedade multicultural, diversa, que deve assegurar às minorias o direito de serem aquilo que elas são perante a lei, minorias”.

Afirmando ter se incomodado de modo especial com a frase “desde sempre a sociedade e a cultura são formadas em torno de valores comuns e compartilhados”, extraída do livro, Luca Sommi refuta a falsa afirmação, argumentando que: “As melhores sociedades são formadas justamente pelo movimento contrário, são contaminadas por valores diversos, não comuns, de culturas diversas”.

E cita a própria Itália como exemplo da simbiose de culturas.

“A Itália, para além de sua mera expressão geográfica, é propriamente um país nascido do multiculturalismo, um país que foi atravessado por todo tipo de cultura, do Oriente Médio, da cultura nórdica, da africana, da mediterrânea. Nosso país é propriamente fruto da simbiose, da resultante do confronto de culturas diversas.

Tudo o que nós comemos, que nós pensamos, os maiores pensadores italianos são frutos desse tipo de cultura”.

O jornalista e professor Sommi sublinha o conflito entre as manifestações do voluntarismo autoritário do general com o espírito da Constituição Italiana ao discriminar diferenças de orientações sexuais, de etnias, entre outras.

Sommi lê o artigo 3 da Constituição Italiana afirmando ser um dos mais belos dentre as disposições fundantes da República:

“Todos os cidadãos têm igual dignidade social e são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, língua, religião, opinião política, condições pessoais e sociais”.

Lembra em seguida que “a constituição é laica e funda um Estado laico. Perante a constituição todos os cidadãos têm a mesma dignidade social”.

Sommi explicita: “General, em seu livro isso está negado. Os cidadãos não tem a mesma dignidade social. Há uns menos cidadãos que outros”.

O jornalista e professor faz lembrar da importância das minorias em momentos cruciais da História, promovendo revoluções científicas, artísticas, políticas e sociais, bem como denunciando injustiças.

Sommi pôs em destaque a honra, comumente invocada por militares, para defender que a honra não reside em medalhas e promoções de carreira, “é uma questão pessoal, existencial, baseada no respeito e no amor, não no ódio”.

Sem tergiversar, Luca Sommi resume: “O sentido último de seu livro é trazer discórdia, expressar o ódio no confronto com qualquer coisa ou pessoa […] seu livro é contra a fraternidade, contra o amor”.

Ao final da leitura da “Carta aberta ao general Vannacci”, subsidiando suas argumentações, o professor Sommi invoca pensadores como Rousseau em seu “Sobre a origem da desigualdade entre os homens”, Diderot em seu diálogo filosófico “O sobrinho de Rameau” e Montaigne em sua diferença com Maquiavel, ao defender ao invés da “razão de Estado” a autoconsciência dos cidadãos que deve ser a base da construção de uma sociedade melhor”.

Por fim Sommi indaga o general:

“Afinal, qual é o constructo de seu livro “Il mondo al contrário? Por que “ao contrário”?

“O seu “il mondo” mais parece “immundus” (do latim), “sporco”. […] Um mundo imundo, onde só há ódio, não há amor. Um mundo sporco onde só há preconceitos, injustiças gratuitas, sporco de classificações discriminatórias”.

Contrastando com “o mundo de Vannacci”, Sommi expressa sua crença em um “universo belíssimo como o nosso que só pode ser conhecido através da diversidade, reconhecendo a diversidade, lembrando que somos todos filhos do mesmo mundo”.

Não passarão!

Se o passivo do fascismo histórico pesa sobre a Itália assim como o nazismo sobre a Alemanha, é certo que as ameaças no presente incidem sobre sociedades de todo o mundo.

Enquanto o 8 de setembro foi vivido na Itália sob espreita do fascismo, o 7 de setembro no Brasil foi sentido como marco de restabelecimento da normalidade democrática depois de seguidos anos de ameaças golpistas de forças reacionárias de inspiração fascista.

Na Itália, a recepção ao livro do general Roberto Vannacci tem estimulado seus admiradores. Um companheiro de farda de Vannacci tem defendido a criação de um think tank para organizar um “movimento cultural” em torno das ideias expressas no livro. Já foi inclusive criado um site na internet “Mondo al contrario”.

Na contramão da propaganda fascista, o centenário do nascimento do fascismo foi acompanhado pela publicação em todo o mundo de muitas obras que, ao ampliar e atualizar a compreensão de suas origens e evolução, se prestam a alertar as sociedades sobre as formas de sua recorrência.

No Brasil, uma destas obras é “Crítica do fascismo” de Alysson Leandro Mascaro que, apoiado na teoria marxista, alerta sobre a insuficiência das instituições políticas e jurídicas liberais em salvaguardar as sociedades das ameaças fascistas.

Mascaro avalia que:

“Desde há muito, os fascismos ampliaram a desgraça das sociabilidades capitalistas pelo mundo. Se é verdade que da época de seu surgimento até hoje encontraram resistências e oposições, a maior parte das críticas ao fascismo, ao não alcançar a materialidade de suas causas, contribui para sustentar as condições de possibilidade e reafirmação de tal experiência”.

Em chave diversa, autores liberais como o norte-americano Michael Sandel, filósofo político e professor em Harvard, autor de livros como “Tirania do Mérito: O que Aconteceu com o Bem Comum?” e “O Descontentamento da Democracia”, no qual discute questões candentes do atual debate público – como aborto e casamento homossexual – refletindo sobre a moral e a política na contemporaneidade.

Crítico contundente do governo de Donald Trump, Sandel concentra esforços em compreender o ressentimento daqueles que se tornaram os perdedores da globalização econômica e se sentem ameaçados pelo “progressismo liberal” em termos de valores morais reformulados e incertezas com o futuro.

Sandel identifica também no esvaziamento do debate público, no esgarçamento do contrato social, na exaltação do senso comum, o terreno fértil para o surgimento de lideranças carismáticas que propagam o negacionismo e o ódio como afeto mobilizador da ação social.

Como bem sintetizou o italiano Umberto Ecco:

“Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini”.

A exortação feita ao final da famosa palestra de Ecco proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, sobre o Ur-fascismo se mantém atual ao lançar a missão que continua incontornável para aqueles que almejam a liberdade, a igualdade, a justiça e a felicidade.  

“[É preciso] recordar o que aconteceu e declarar solenemente que ‘eles’ não podem repetir o que fizeram”.

Arnaldo Francisco Cardoso, cientista político, escritor e professor universitário.

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Redação

1 Comentário

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  1. O fascismo pode ser reeditado, porém não será mais uma tragédia, mas uma farsa. A história não se repete senão como farsa, constatou Marx no 18 Brumário.
    Não sabem esses neofascistas que o passado é para se refletir, não para se reproduzir.

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