Pedaços de pau, bandeiras e celulares
por Arnaldo Cardoso
Desde o assalto às sedes dos Três Poderes da República em Brasília, no último 8 de janeiro, por uma turba irascível de indivíduos empunhando pedaços de pau, bandeiras e celulares, a avalanche de imagens bizarras chocou a maior parte da opinião pública nacional e internacional e repôs, com sentido de urgência, a necessidade de compreensão de quem são esses indivíduos e que caminhos percorreram para se tornarem o que hoje são.
Terroristas? Fascistas? Extremistas de direita? Fanáticos? Lobotomizados? Perdedores? Perversos? Ressentidos? Ignorantes? Idiotas úteis? Ou apenas constataremos como Hannah Arendt, ao assistir ao julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, que um grande mal pode ser produzido por “um indivíduo medíocre, um arrivista incapaz de refletir sobre seus atos”? Foi dessa chocante experiência que a filósofa judia criou o conceito de “banalidade do mal”. Vale lembrar que, ao final do julgamento, Eichmann foi considerado culpado e enforcado.
Se num primeiro momento, a identificação dos autores do atentado em Brasília atende ao imperativo legal de responsabilização, julgamento e punição por seus atos criminosos, a tarefa não se encerra aí.
Impõe-se para a sociedade nacional e para todo o mundo civilizado, uma análise sistêmica, contextualizada, desse acontecimento e outros similares que ameaçam escalar, como a invasão do Capitólio americano dois anos atrás. A tarefa, de grande complexidade, exige inclusive uma disposição para a autocrítica, pois há um fracasso a ser assumido coletivamente.
Civilização versus Barbárie?
Uma reflexão sobre o assalto a Brasília inserindo-o num quadro histórico e conceitual amplo, torna pertinente uma retomada de noções elaboradas por Sigmund Freud (1856-1939) como em seu livro “Totem e Tabu” (1921) onde desenvolveu uma investigação sobre os primórdios da civilização, reelaborando o mito da horda primeva e da morte do pai totêmico, fomentando hipóteses da origem das instituições culturais e sociais. Entre totens e tabus as liberdades individuais e coletivas se arranjam dando forma à cada sociedade.
Desse livro é importante reter, para a nossa reflexão, a formulação feita pelo autor a respeito da trajetória dos homens, da natureza em direção à cultura, na qual se daria a transformação da vida psíquica do indivíduo configurando inclusive suas relações interpessoais. É válido também reter, desta obra, a noção de que nesse processo ocorre a reconfiguração dos lugares da autoridade.
Mas o livro de Freud que mais parece contribuir para a reflexão em pauta é “O mal-estar na civilização” (1930), dada a formulação de uma crítica da civilização, sintetizada na problemática de que “o drama do homem consiste em, para ser homem, ter que se civilizar e deixar de ser ‘natural’”.
Cultura e civilização são tratadas na obra como antagônicas à barbárie, esta última entendida como a prevalência do uso da força, ou ainda, a busca de forma instintiva, da satisfação da sua vontade/prazer a qualquer custo.
A civilização ao nos privar de parte de nossa satisfação, gera um mal-estar, pois a energia psíquica não encontra realização imediata. (Não está em conformidade com minha vontade eu não aceito. Se não aceito, não deve existir).
A civilização depende da canalização dessa energia (libido) para outras formas de “realização” compatíveis com a vida social, gerando ao indivíduo os benefícios da convivência e do reconhecimento social. Através da sublimação (canalização da energia pulsional para o trabalho e produções artísticas e científicas) obter-se-ia um apaziguamento parcial do instinto primitivo.
Embora os textos políticos de Freud, como “O mal-estar na civilização” e “O futuro de uma ilusão” tenham intentado com razoável êxito, ampliar o alcance da teoria psicanalítica, as críticas que se seguiram, como as do sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980), focaram-se principalmente na forma abstrata com que o diagnóstico da civilização foi feito, com pouca atenção ao exame das condições concretas dos indivíduos nas sociedades capitalistas.
O processo civilizatório brasileiro
Partindo dessa crítica e voltando o foco da reflexão para a realidade brasileira, recolocamos a pergunta esboçada no início deste texto, reiterada nos últimos anos e acalorada com o atentado em Brasília: quem são esses indivíduos e que caminhos percorreram para se tornarem o que hoje são? Que atalhos foram tomados que tornaram tão precário, ou inexistente, o aprendizado para a vida social na trajetória desses indivíduos? Eles compatibilizam o pedaço de pau, a bandeira e o celular – que deveriam representar momentos distintos de uma longa trajetória humana marcada pelas transformações tecnológicas e culturais – como instrumentos equivalentes e legítimos de participação política?
Há uma fértil literatura brasileira apta a responder essas perguntas na perspectiva da história da “civilização brasileira”. O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) é um dos mestres que nos ofereceu isso.
Recorrendo ao seu livro “O processo civilizatório” (1968) temos a oportunidade de nos encontrar numa história de mais de dez mil anos, por meio de uma abordagem epistemológica autônoma, anticolonial e alternativa à narrativa estritamente ocidental e cristã da humanidade. Suas páginas lançam luzes sobre a trajetória formadora do povo brasileiro e sua inserção na modernidade.
Darcy nos mostra que a ideologia operante durante o colonialismo no Brasil moldou todas as instituições que plasmaram a nacionalidade brasileira, na qual o mando de uma elite governante e dos detentores dos meios de produção – agentes da civilização – fizeram valer mitos e valores exógenos forjados por princípios e preconceitos como o da condenação da “preguiça dos indígenas”, do poder redentor do trabalho imposto pelos senhores aos seus escravos e subalternos, do império da vontade de Deus sobre a natureza dos homens e da honorabilidade da família patriarcal (contraditoriamente negada como possibilidade aos escravizados).
Tal ideologia, perversa e hipócrita, ainda hoje se manifesta e se reproduz na sociedade brasileira, através de seus “cidadãos de bem”. Em contextos de autoritarismo aflorado, como visto sob o governo Bolsonaro, evidencia-se a conduta também de parte dos subalternizados em atitudes de submissão voluntária e reprodução do discurso do opressor. Arbítrio, ignorância e pobreza de todas as ordens se combinam tragicamente.
Embora com contextos muito diferentes, mas com sentidos aproximados, a discussão sobre processo civilizatório, tanto em países do Velho Mundo quanto no Novo Mundo, colonial e pós-colonial, implica em refletir, em algum momento, sobre a relação entre educação e civilização. Idealmente a educação se erigiu como processo de refinamento das condutas e autocontrole nas relações sociais e pessoais, com aumento da consciência na regulação do comportamento.
A educação cerceada no Brasil
Por séculos restrita a uma ínfima elite, a educação escolar no Brasil nunca foi emancipadora, foi sempre instrumento de reprodução e conformação social, concebida e implementada – com raras exceções – por uma elite branca formada por valores conservadores, incapaz do exercício crítico de sua própria condição no mundo.
O educador Anísio Teixeira (1900-1971), considerado o criador da escola pública no Brasil por defender a universalização do ensino público, laico e gratuito, objetivando a igualdade de oportunidades entre as pessoas, integrava em sua visão de desenvolvimento, as dimensões individual e coletiva.
É de Anísio Teixeira a acurada explicação de que “a escola, através da história, constitui instrumento de controle social, de manutenção do tipo e qualidade de sociedade dominantemente aceitos. Daí dizer-se que plasma o caráter nacional, que difunde uma cultura geral, que não é geral, mas forma específica da cultura dominante no país, além de treinar os educados para certos tipos de ocupação, o que faz, entretanto, dentro do espírito e das peculiaridades da sociedade”.
E quais foram os elementos arregimentados por essa “cultura geral” que plasmou o caráter nacional no Brasil? Caio Prado Júnior (1907-1990) formulou que “a base da cultura brasileira é o engenho, é o binômio casa grande & senzala”.
Teixeira bem diagnosticou a extrema dificuldade de mudança na educação “seja na organização escolar, seja no conteúdo da educação, ou seja na expansão das oportunidades escolares” dada a relação orgânica entre educação e sociedade.
Não bastam reformas curriculares adaptáveis a uma mesma concepção de conhecimento e, tampouco bastará expansão de vagas em escolas públicas e privadas.
A manutenção da educação formal voltada apenas a treinar indivíduos para realizar determinadas funções no sistema de produção e distribuição de mercadorias e serviços, certamente só reproduzirá e agravará os problemas estruturais da sociedade brasileira, dentre os quais a precária cidadania existente no país.
A educação formal instrumentalizada para criar um espírito de devotamento à própria sociedade, injusta e desigual como é no Brasil, desvirtua e deslegitima a escola como instituição social idealmente dedicada ao desenvolvimento integral do ser humano.
Desde muito já está diagnosticada a necessidade de mudanças profundas no conjunto de atitudes e hábitos pelos quais a sociedade brasileira acostumou-se a caracterizar o “homem educado”.
O ataque às sedes dos Três Poderes em Brasília, seguido da divulgação de imagens e informações sobre seus autores materiais e intelectuais, ilustram com lastimável nitidez o que os parágrafos anteriores expuseram. Quem são e como agem esses autoproclamados “cidadãos de bem” que nos últimos anos, vestidos com as cores da bandeira nacional ocuparam avenidas e praças bradando vazios slogans moralistas?
Sendo a Esplanada, um espaço de valor material e simbólico reunindo expressões elevadas da arquitetura, da engenharia, das artes, do direito, da política, do empenho do trabalhador comum que ergueu uma capital modernista em meio ao cerrado, é também registro da história da nação em sua marcha ao futuro.
A fúria destrutiva dirigida contra esses símbolos tem sido interpretada por alguns como eloquente expressão da ignorância, da vileza de espíritos brutos (ou embrutecidos?), da incapacidade de reconhecer valor simbólico, intangível em realizações mais elaboradas do talento humano. E o que dizer da ignorância em relação à política? Uma verdadeira overdose de contradições. O que será que significa para eles “tomar o poder”? Qual o sentido da destruição de prédios e obras de arte? Que patriotismo é esse? Que moral é essa desses hipócritas moralistas? Que pátria defendem? Defendem de que e para quem? Que nação pode ser “melhorada” a partir da disseminação de ódio e de fake news?
Além do incontrolável asco pelo espetáculo patético da autoincriminação produzida por meio de selfies e vídeos com as cenas de destruição ao fundo postados nas redes sociais, o que dizer desse desejo de protagonismo, desses medíocres e torpes indivíduos?
E engana-se quem, insiste no discurso de que são pobres desgraçados aliciados por trocados e promessas vazias. Entre os perpetradores dos crimes estão empresários, funcionários públicos, políticos, pastores evangélicos, militares, agentes de segurança, professores(!), aposentados e uma miríade de outros “cidadãos”, com níveis de escolaridade acima da média nacional, incluindo uma extensa lista de autores de crimes pregressos e fugitivos da lei.
É mais que oportuno indagar, que papel teve a escola na vida dessas pessoas? O que a educação escolar significou para essa gente? O que sabem da história do país que contraditoriamente orgulham-se de carregar a bandeira nas costas? O que seus professores lhes ensinaram sobre a construção dessa nação que rompeu com o colonialismo há dois séculos e, desde então, luta contra as forças do atraso e da opressão? O que sabem da luta por soberania e autonomia desse país no sistema internacional de nações?
Alguma vez, algum devotado professor lhes sugeriu pensar a formulação do filósofo francês, Jean-Paul Sartre (1905-1980), a respeito da relação entre liberdade e responsabilidade? Sartre sentenciou: é livre quem não é escravo da vontade ou, ainda, a liberdade reside em aceitar as consequências dos próprios atos.
Já ouviram falar do paradoxo da tolerância, formulado pelo filósofo austro-britânico Karl Popper (1902-1994), defensor da democracia liberal? Popper respondeu à pergunta “devemos tolerar os intolerantes?” com a seguinte resposta: “para ser verdadeiramente tolerante, a sociedade deve ser intolerante à intolerância” pois, prossegue ele “a tolerância ilimitada leva à extinção da própria tolerância”.
Quais livros leram nos últimos anos? Conhecem a literatura de Conceição Evaristo ou o talento revelado de Itamar Vieira Júnior com seu premiado Torto Arado? Conhecem a escrita contundente de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) em livros como Quarto de despejo, traduzido para vários idiomas? Ou o tempo que se puseram a ler foi dirigido para toscas mensagens golpistas, piadas infames e reprodução de fake news através de seus celulares?
Conhecem a argumentação do professor Antonio Cândido (1918-2017) que vê a literatura como instrumento de humanização? E a defesa que ele faz do direito à literatura ser incluído no rol dos direitos humanos?
E da pedagogia desenvolvida pelo admirável educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997) o que sabem, além de infâmias a ele dirigidas? Sabem de sua defesa da educação como prática da liberdade? Os anos recentes foram pródigos em repetir violências do regime militar que governou o Brasil por vinte e um anos (1964-1985). Perseguição e difamação foram as armas utilizadas contra Freire, patrono da Educação no Brasil, admirado em todo o mundo.
Sim, a maneira como a educação vem sendo tratada em nosso país é parte do problema com o qual estamos defrontados.
É triste observar que a profissão de professor, especialmente das áreas de Humanidades, segue sendo vilipendiada, em um país com tamanho déficit de conhecimento histórico, filosófico e sociológico, de habilidade de leitura, de interpretação de texto, de pensamento crítico, como tem sido evidenciado em inúmeros testes e rankings de desempenho de jovens, com o Brasil ocupando posições abaixo de países mais pobres e de menor desenvolvimento material.
Nos últimos anos acelerou-se o processo de marginalização de disciplinas de Humanidades, como Filosofia e Sociologia, substituídas por aquelas chamadas “aplicadas” atendendo a “demanda do mercado”. Toscos gestores de escolas privadas e uma massa de professores que mistura os propagandistas do mercado e os submissos a contratos precarizados e sob frequente assédio moral, realizam aquilo que Paulo Freire, criticamente, chamou de “educação bancária”. Essa é uma das peças que forma o cenário em que se produz e reproduz a cultura geral em nossa sociedade.
Some-se a isso a programação dos canais de televisão aberta que com frequência adequam-se às oportunidades de receitas publicitárias – parte delas estatais – e um jornalismo com sérias debilidades e, em sua maioria, reprodutor da cultura patrimonialista e complacente com surtos antidemocráticos.
Desta vez, o golpe não prosperou
O exposto neste texto parece-nos ajudar a responder às perguntas lançadas logo no início da reflexão.
O golpe não prosperou e mais de mil integrantes da turba foram encarcerados. Os crimes imputados são diversos. Em recente entrevista o Ministro da Justiça do Brasil, Flávio Dino, teceu a seguinte avaliação:
“O 8 de janeiro terminou servindo como ponto de virada para a democracia brasileira. Foi o dia da infâmia, mas foi também o da mais contundente resposta da democracia brasileira”.
Que a avaliação do Ministro esteja certa e que o povo brasileiro em toda a sua diversidade, tenha discernimento para compreender e condenar o que aconteceu em Brasília naquele domingo e, também, saiba apreciar essa vitória, consciente de que a luta não terminou.
Criminosos presos é como podem ser referidos neste momento, parte daqueles que violentaram a nação.
Por enquanto, os principais mentores que estimularam, apoiaram e financiaram estão soltos e continuam travestidos de “cidadãos de bem”. A parte da sociedade que se sentiu agredida, persevera animada por projetos de futuro com justiça social, solidariedade e prosperidade para todos.
Na longa trajetória da humanidade entre o pedaço de pau, as bandeiras e o celular, as boas realizações do espírito humano deixaram marcos importantes, mas não podem ser esquecidos os marcos de destruição, desonra e morte que também integram a história.
Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político (PUC-SP), escritor e pesquisador.
Referências:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise. São Paulo: Companhia das letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu, contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos. São Paulo, Companhia das letras, 2012.
RIBEIRO, Darcy. O processo civilizatório. São Paulo: Companhia das letras, 2000.
TEIXEIRA, Anísio. Educação e a sociedade brasileira, In: Educação no Brasil, Rio de Janeiro, 1999.
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