Alguns apontamentos sobre o fim da União Soviética

Por Diogo Costa

GORBACHEV OU IÉLTSIN? – Algumas pessoas detonam até hoje a figura de Mikhail Gorbachev, em função de que ele seria o responsável pelo fim da antiga União Soviética. Será?

Gorbachev virou o líder da União Soviética em 11 de março de 1985. Já em 1986 Boris Iéltsin ingressa no Politburo (Comitê Executivo do Partido Comunista) e passa a fazer oposição aberta à Gorbachev a partir de 1987. Em fevereiro de 1988 Iéltsin é expulso do Politburo. Em março de 1989 ele conquista o mandato de deputado por Moscou, chegando ao Soviete Supremo da União Soviética. Consolida ali o seu papel de líder da oposição. 

Em maio de 1990 Iéltsin é eleito chefe do Soviete Supremo da República Socialista Federativa Soviética Russa, uma das repúblicas da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em junho de 1990 o parlamento russo adota uma resolução de independência política em relação à União Soviética (sem eficácia alguma). Em julho Iéltsin sai do Partido Comunista. 

Em março de 1991 ocorre um referendo onde os soviéticos, por larga margem, decidem a favor da manutenção da União Soviética, com 78% dos votos. A pergunta do referendo era: “Você considera indispensável a manutenção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas como uma Federação renovada de repúblicas iguais e soberanas na qual, sob quaisquer circunstâncias, os direitos e liberdade do cidadão de qualquer nacionalidade serão totalmente garantidos”? 

Como vemos, a ação de Gorbachev nunca foi em favor da dissolução da União Soviética, muito antes pelo contrário. 
Em junho de 1991 Iéltsin vence a eleição para Presidente da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, com 57% dos votos. Em agosto de 1991 tem vez a frustrada tentativa de golpe de estado contra Gorbachev, empreendida pela linha-dura do Partido Comunista. 

Curiosamente, enquanto Gorbachev se isola na Crimeia, quem impede o golpe de estado é justamente o recém eleito Bóris Iéltsin. Gorbachev volta ao poder no mesmo mês de agosto, mas aí os desdobramentos da crise deram conta de alçar Iéltsin no cenário político russo, consolidando sua força junto ao povo e relegando Gorbachev ao papel de mera “rainha da Inglaterra”. 

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Ao derrubar o golpe de estado, Iéltsin selou o fim da União Soviética e consolidou o seu poder de forma avassaladora. Em 08 de dezembro de 1991 é assinado o Pacto de Belaveja pela Rússia, pela Ucrânia e pela Bielorrúsia, ainda repúblicas soviéticas. Este pacto garantiu a independência das antigas repúblicas soviéticas e a criação da CEI (Comunidade dos Estados Independentes). 

Em 25 de dezembro de 1991 a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas deixava oficialmente de existir. 

Não é uma ironia da história ver que o fim da União Soviética veio pela mão dos liberais chefiados por Iéltsin, contrariando o referendo popular de março de 1991? Não é também uma ironia o fato de que Iéltsin consolidou seu poder ao salvar Gorbachev de um golpe de estado, para depois solapar de vez o seu poder e acabar com a União Soviética?

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18 comentários

  1. Para constar

    É razoável crer que Gorbachev desejava manter a unidade soviética e revigorar o socialismo. Pecou pela inabilidade política.

    Anos antes a China conduzia de modo sereno e discreto as mudanças que lhe permitiram o crescimento atual sem a perda do controle político, num país com movimentos separatistas e uma história com períodos de fortes dissidências internas.

    Gorbachev foi incompetente politicamente em conduzir um processo de mudanças econômicas que não tinha o menor cabimento para o contexto da época. Quis mudar tudo em pouco tempo. Atrelou as mudanças econômicas às políticas. No papel, perfeito. Na prática, abriu a porteira que liberou toda a insatisfação contida, desde os mais moderados reformistas do socialismo até os anti-comunistas que estavam calados até então. Claro, oportunistas de todos os lados inclusive…

    É sintomático observar que o julgamento da incompetência de Gorbachev não vem apenas de observadores estrangeiros: trata-se de uma das figuras políticas mais odiadas pelos russos.

     

    Adorado pelo Ocidente, é desprezado por muitos russos…

  2. Parece mais um lamento pelo

    Parece mais um lamento pelo fim da união soviética e do comunismo.

    ” Algumas pessoas detonam” quem será que lamenta o fim da união soviética.

  3. Acho que não é bem assim a história.

    Acho que não é bem assim a história. Na longa série Adeus Camaradas (que também se encontra no youtube, dividido em partes, mas acho que incompleta série, talvez só em inglês), e que passou na tv a cabo canal CURTAS!, vimos que havia uma ditadura (nada a ver com ditadura do proletariado), e Yeltsin botou o dedo nas feridas (claro que Yeltsin não estava só  nesse pensamento). A população estava de saco cheio. O fato de o referendo apontar ampla maioria (como sepre acontecia em votaçõs na URSS) me lembra também os 100% recentemente conquistados pelos governantes da Coréia do Norte. E quase isso na antiga União Soviética.

    Daniel Aarão no livreto sobre a história da revolução russa aponta pras divergências dos anarquistas revolucionários com os bolcheviques revoluconários: Os anarquistas propunham que os sovietes fossem do povo, mesmo, de verdade, e não tutelados por bolcheviques. Na série Adeus Camarads, há um discurso de Yeltsin em que ele se remete a 1917 (coincidindo aí não só com anarquistas, mas com muitos bolcheviques revolucionáriso que foram, por exemplo, fuzilados ou que fugiram do país (como Trotsky). Achar que tudo aquilo que vem da midia do mundo capitalista seja tendencioso ou mentiroso é simplificar demais, é ver interesses manipuladores capitalistas até debaixo da cama. Como tantos socialistas e comunistas ou não viram ou mentiam ou acobertavam o que havia de negativo naqueles países onde, inclusive , alguns foram fazer cursilhos, apartados da população em geral. Obs: mas não renego o papel imortante da revolução russa e da URSS, antes que leiam demodo ligeiro esse comentário.

  4. Há um aspecto bastante

    Há um aspecto bastante interessante da História soviética que é referido pelo autor Moshe Lewin em seu livro “O século sovíético”, que resenhei e publiquei na internet há sete anos. Abaixo um fragmento da resenha:

     

    A morte de Brezhnev abriu caminho para que Andropov chegasse ao poder em 1982. “Ele assumiu o poder com rapidez e suavidade. Começou muito cauteloso, mas o país rapidamente entendeu que algo sério estava acontecendo no Kremlin. Os primeiros passos eram previsíveis: restaurar a disciplina no local de trabalho. Mas isso ia além dos trabalhadores e requeria uma reeducação das elites, que não eram um brilhante exemplo quando se tratava de ética de trabalho. Ele zombava da predileção das elites por dachas e outros confortos (era conhecido por adotar um estilo de vida bastante austero).” 

    O autor refere que “…Kosygin e Andropov conheciam melhor a situação do que qualquer historiador ocidental, graças aos relatórios que liam, que só se tornaram disponíveis para nós 25 anos depois. Entre eles estava um sólido trabalho que não foi publicado, encomendado por Kosygin quando primeiro-ministro, feito pela seção econômica da Academia de Ciências. Três anos após as advertências de Nemchinov (que ocorreram em 1965), os acadêmicos apresentaram uma comparação sistematizada das estruturas econômicas dos Estados Unidos e da União Soviética – produtividade, padrões de vida, progresso tecnológico, sistemas de incentivo, direção e caráter dos investimentos. Seu enganoso veredicto foi: a URSS perdia em todas as frentes, exceto em carvão e aço. Este último era motivo de orgulho do regime, mas atestava o atraso do país, já que o setor foram um marco do século anterior.” 

    “O outro aspecto do cenário esdrúxulo o bastante para ser conhecido em toda Rússia, era a disseminação de uma corrupção tentacular. Integrantes da família Brezhnev estavam ostensivamente envolvidos nisso – um assunto sobre o qual o pobre Leonid não queria falar. As redes mafiosas, com as quais muitos funcionários do partido altamente situados se vincularam, era outra coisa que o país (se não certos líderes) tinha conhecimento. Nada dessas proporções havia ocorrido antes.” 

    Mas as esperanças de revitalização do regime logo desvaneceram. O governo de Andropov durou apenas até 1984, quando ele saiu de cena por causa de uma doença grave nos rins. Foi substituído por Chernenko, que governou apenas 13 meses. 

    http://www.midiaindependente.org/pt/red/2007/11/402710.shtml

     

    Com tempo e apoio, talvez Andropov tivesse salvado a União Soviética. E hoje a URSS seria muito mais desenvolvida do que é e poderia servir de farol para a humanidade, que acabou presa entre dois modelos igualmente perversos: o fracassado capitalismo neoliberal norte-americano e o capitalismo autoritário super-explorador chinês.

    • Que segredo tem as Sete

      Que segredo tem as Sete Irmãs, que há muito tempo não dominam o petroleo do mundo, alias nem são Sete porque tres fundiram-se com quatro. 91% das reservas mundiais de petroleo pertencem a empresas estatais, no tempo das Sete Irmãs elas tinham 66% das reservas, hoje não tem praticamente mais nada. Essa expressão Sete Irmãs é dos anos 50, hoje é até comico citar isso.

      • Senhor A.M.A.

        ”COMICO” é o que o senhor paga quando teima em tergiversar.

        Não vê o vídeo e critica qualquer nota.

        Não perderei meu tempo rebatendo  argumentos sem sentido. O senhor pode fazer melhor. Mas flerta com a falácia com uma facilidade…

        Só devo lembrar que a queda da URSS data de 1991. O post é sobre o passado . Compreendeu agora?

  5. Gorbachov pode ser processado

    “O erro da era soviética foi corrigido pelo referendo do povo da Criméia” – Gorbachov

    RT | 18/03/2014 | Foto: RIA Novosti Alexánder Wil

    Para Mikhail Gorbachov, a iniciativa de aplicar sanções à Russia são prova de incompetência

    O último líder da União Soviética (URSS) e Prêmio Nobel da Paz Mikhail Gorbachov acredita que as ameaças ocidentais para impor sanções contra a Rússia por causa do resultado do referendo na Criméia “são incompetentes”, informa a agência Interfax. 

    “Para impor as sanções, as razões devem ser muito graves. E devem ser apoiadas pela ONU”, disse Gorbachov segunda-feira em uma entrevista coletiva. “a vontade do povo da Criméia e sua possível adesão à Federação Russa como uma de suas regiões não é uma dessas razões”, afirmou ele. 

    Gorbachov apoia o referendo que, em sua opinião, “terminou com um sucesso que atendeu às expectativas da Criméia.” “Se anteriormente a Criméia foi anexada à Ucrânia sob as leis soviéticas, ou seja, as leis do jogo, sem perguntar ao povo, agora as pessoas decidiram corrigir esse erro. Isto deve ser apoiado em vez de punido”, disse Gorbachov.

    ***

    Deputados russos querem processar Gorbachov pelo desmantelamento da URSS

    Agência Lusa | 10-04-2014

    Moscou, 10 abr (Lusa) — Cinco deputados russos de diferentes formações políticas pediram à Procuradoria-Geral da Rússia para investigar o ex-presidente Mikhail Gorbachov no sentido de o processar pelo seu papel no desmantelamento da União Soviética, informou hoje o jornal Izvestia.

    Os deputados, dois do partido no poder Rússia Unida (RU), dois do Partido Comunista (PC) e um do ultranacionalista Partido Liberal Democrático (PLD), consideram que Gorbachev e outros dirigentes da época cometeram crimes que levaram ao colapso da União Soviética no final de 1991.

    Gorbachov, em particular, é acusado de ter criado o Conselho de Estado da URSS, órgão que não estava previsto na Constituição do país e que decidiu o reconhecimento da independência das repúblicas soviéticas bálticas, Estónia, Letónia e Lituânia.

    Mikhail Degtiariov, do PLD, disse ao Izvestia que a investigação permitirá avaliar juridicamente os acontecimentos que ocorreram há mais de 20 anos.

    “Até agora não foi feita uma apreciação jurídica da destruição do Estado, quando todos os factos mostram que foi uma ação planeJada. Os culpados devem ser castigados, entre eles Gorbachov”, adiantou.

    Degtiariov considerou que as consequências do desmantelamento da URSS ainda se sentem atualmente, dando como exemplo a crise na Ucrânia.

    “Em Kiev morre gente e haverão mais mortes por culpa daqueles que há muitos anos decidiram no Kremlin acabar com o país (a URSS)”, assinalou.

    Gorbachov qualificou de “disparate completo” a iniciativa dos deputados.

    “Estes apelos refletem o desejo de alguns deputados de aparecerem na mídia. Gostam de ser citados, que falem deles. Mas são pedidos absolutamente infundados do ponto de vista dos fatos histórico””, disse o ex-presidente soviético à agência Interfax.

    A 08 de dezembro de 1991, os líderes da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia assinaram um acordo para a dissolução da URSS e a criação da Comunidade de Estados Independentes. No dia 25 do mesmo mês, Gorbachov anunciou a sua demissão da presidência.

    Em março daquele ano, 77,8 por cento dos soviéticos, segundo os resultados oficiais, tinha-se pronunciado em referendo a favor da preservação da União Soviética como Estado.

    ***

    Mikhail Sergeevich Gorbachov:

    “Como dizem em nosso país, na Ásia Central o vento sopra, os cães ladram e a caravana passa.”

    “As eleições russas se transformaram numa chacota aos olhos de todo o mundo”, criticando Putin.

  6. Citação de ministro alemão

    “A crise na Ucrânia mostrou que o velho gênio da geopolítica mundial foi libertado da lâmpada”

    Sigmar Gabriel, ministro da economia da Alemanha.

  7. Gorbachov

    Gorbachov foi um visionario solitario na tentativa do avanço do socialismo da ussr.o problema é estar no lugar errado na hora errada.até tinha uma boa mao de poker AA,apostou e perdeu e assim todos  perderam.vejam o documentario do oliver stone “untold history united states” falando de Gorbachov  com fatos e nao com propaganda conservadora e parcial que temos aqui descritas de uma forma cômica e superficial dos programas jornalisticos humoristicos da televisao.

  8. (e espero senso de humor dos

    (e espero senso de humor dos participantes);

    Diz-se que 2 cachorros se encontraram bem na divisa do muro de Berlin. Não sei em que brecha eles se viram e trocaram o seguinte diálogo: do lado ocidental, tava um cachorro nem tão gordo, nem tão magro, mas não estava tristonho; e, do outro lado, estava um cachorro mais forte, um cachorro que pela aparência demonstrava muito boa saúde, porém meio entristecido. Então o cachorro meio magro perguntou ao seu colega do outro lado porque ele era tão entristecido, se estava com boa aparência. Então o cachorro do lado de berlin oriental respondeu: – Sim, sou bem de saúde, mas não posso latir.

     

    • Eu não disse?!…

      pela só 1 estrelinha na minha piada, que tem muito de verdade, vejo que os participantes (ou parte deles) e/ou os visitantesnão são apenas de uma visão só, pois parece que perderam o senso de humor (e da verdade que o comentário traz). A visão única, o asssunto único, as unanimidades… a cegueira que nos conforta e a sensação de que estamos fazendo política com P maiúsculo são fatores que estreitam a humanidade. Pois que fiquem com o tema único e se confortem a si próprios – não seria assim, nem será assim que novos caminhos para as transformações radicais se abrirão.

  9. Nenhum desses lideres

    Nenhum desses lideres sovieticos teve culpa pelo fim do socialismo, o fim se deu pela propria natureza de INVIABILIDADE

    de um sistema que iguala todos por baixo e impede que os competentes liderem o processo economico. Como todos são funcionarios publicos ninguem tem interesse em fazer nada de especial, o modelo morre de mediocridade generalizada.

  10. + comentários

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