Entrevistando Gideon Levy no programa Agenda Mundo, por Ruben Rosenthal

Gideon alertava para a catástrofe humanitária que resultaria caso tropas israelenses entrassem em Rafah, na Faixa de Gaza

Gideon Levy no Museu da Palestina, EUA, 2023 \ Foto: Palestine Museum US Corp.

do blog Chacoalhando

Entrevistando Gideon Levy no programa Agenda Mundo

por Ruben Rosenthal

Para Gideon Levy, o caminho que ainda resta para se alcançar a paz definitiva entre judeus e palestinos é através da implementação da solução de um único Estado, com direitos iguais para todos.

Na terça dia 5, foi iniciada a temporada 2024 do programa Agenda Mundo, com a entrevista de Gideon Levy, do jornal israelense Haaretz. Ele é uma das poucas vozes em seu país a defender os direitos dos palestinos. Acredito que esta talvez tenha sido a primeira entrevista de Gideon a um veículo de mídia audiovisual no Brasil. Em vídeo anterior do programa, foi apresentado um mini documentário, com inserção de pequenos trechos de entrevista de Gideon Levy a um programa internacional.

Havíamos encerrado o ano de 2023 trazendo Bruno Huberman, judeu não sionista, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP. Tratamos na ocasião de várias questões, incluindo o massivo bombardeio indiscriminado à Gaza, na sequência do mortífero ataque surpresa do Hamas de 7 de outubro. Desde então, a situação dos palestinos na Faixa de Gaza se agravou de tal forma, que a África do Sul entrou com uma acusação de genocídio contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

A ideia de de entrevistar Gideon Levy me ocorreu após publicar a tradução de um artigo de opinião no Haaretz, em que Gideon alertava para a catástrofe humanitária que resultaria caso tropas israelenses entrassem em Rafah, na Faixa de Gaza. Até então todas as entrevistas no Agenda Mundo haviam sido conduzidas em português, incluindo a de estrangeiros residentes no Brasil. Isso ocorreu com a do jornalista Glenn Greenwald, que inaugurou o programa, e do professor russo Alexander Zhebit (parte 1parte 2), que na ocasião abordou a questão Rússia-Ucrânia, quando os principais analistas ainda acreditavam que não ocorreria um conflito militar entre os dois países.

Me pergunto o motivo do Gideon ter aceitado o convite, sem conhecer o programa e o entrevistador. Talvez tenha sido a necessidade de aproveitar cada oportunidade que surgisse, para denunciar os crimes cometidos por Israel contra os palestinos. Talvez o fato do entrevistador ser também de origem judaica tenha contado a favor, pois é do meio judaico que precisa partir o movimento que derrube de vez a falácia propagada por Israel de que o antissionismo é uma expressão de antissemitismo.

E é essa falácia que mantém reféns de Israel, a maioria de governantes e políticos dos Estados Unidos e da Europa, que se borram de medo de ver suas carreiras políticas destruídas pela ação do poderoso lobby pró-Israel. Abordamos o papel coercitivo desempenhado pelas entidades judaicas em diversos países, atuando no sentido de abafar críticas às ações de Israel. Jornalistas independentes também são atacados, como ocorreu com o Breno Altman, que está sendo processado pela CONIB, a Confederação Israelita do Brasil.

Um dos temas principais foi a questão do regime de Apartheid, a que palestinos de Gaza e da Cisjordânia vêm sendo submetido há décadas. Gideon relatou como a esquerda sionista foi também responsável por negar aos palestinos o direito à autodeterminação em um Estado próprio, antes mesmo de Netanyahu chegar ao poder. E de como a presença de ministros neonazistas na atual coalização que mantém Netanyahu no poder, levou a extremos a opressão aos palestinos.

O jornalista analisou a questão do impasse para se encontrar uma solução que leve ao cessar-fogo em Gaza, e a tolerância dos Estados Unidos com o genocídio em andamento. Foi abordada também a situação ao norte de Israel, com a possível escalada do conflito com o Hezbollah, e as perspectivas de se um dia se chegar a um acordo de paz com a Síria, que leve à devolução das Colinas de Golã.

Uma questão central discutida foi a aplicação de sanções contra Israel através do movimento BDS- boicote, desinvestimento e sanções. Gideon considera de máxima importância a participação dos países do Sul Global e dos jovens nos países do Ocidente, notadamente nos EUA.

Conversamos também sobre Marwan Barghouti, importante liderança palestina que se encontra encarcerada, cumprindo uma sentença de prisão perpétua. Barghouti foi o tema de um artigo recente no blogue Chacolhando. Segundo Gideon, Barghouti seria talvez o único que poderia atualmente conduzir os palestinos no caminho da paz com Israel.

Perguntei ao Gideon, se a melhor forma de se resolver a questão da autodeterminação dos palestinos seria através da formação de uma confederação de duas nações. Para ele, o caminho que ainda resta para se alcançar a paz definitiva entre judeus e palestinos é através da implementação da solução de um único Estado, com direitos iguais para todos.

Ele está ciente das dificuldades que surgirão, mas considera que esta é a única solução viável, pois avalia que seria impossível remover a ocupação ilegal exercida por cerca de 700 mil colonos judeus presentes na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, o que inviabilizaria completamente a solução de dois Estados.

Em retrospectiva, considero que ele poderia ter incluído em sua resposta uma análise sobre a confederação, a qual não entra necessariamente em contradição com a solução de um Estado. A confederação poderia ser a forma de implementar a solução de dois Estados, sem precisar remover os colonos judeus, como também poderia evoluir gradualmente para a solução de um Estado preconizada por Gideon, possivelmente de forma menos traumática que a implementação direta desta solução. Avalio agora que eu deveria ter insistido mais nesse ponto.

Deixei para o final do artigo, comentar sobre o começo da entrevista. Fiz questão de iniciar a entrevista procurando saber um pouco mais sobre a vida pessoal do entrevistado. Sobre os pais, que chegaram a Israel fugindo do nazismo, e sobre possíveis ameaças sofridas pelo jornalista, em função das posições defendidas por ele, principalmente agora, em que o ministério da segurança do país está nas mãos de um extremista de direita, como Itamar Ben-Gvir.

Para concluir, posso dizer que entrevistar Gideon Levy foi para mim foi uma experiência marcante.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, responsável pelo blogue Chacoalhando e pelo programa de entrevistas Agenda Mundo, veiculado no canal da TV GGN e da TV Chacoalhando.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Redação

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador