EUA promovem golpe à lá Brasil, desta vez no Paquistão, por Marcus Atalla

Khan foi eleito democraticamente em 2018, concorreu como um político antissistema.

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EUA promovem golpe à lá Brasil, desta vez no Paquistão

por Marcus Atalla

Em março, a oposição parlamentar ao Primeiro-Ministro paquistanês, Imran Khan, chamou um voto de desconfiança para derrubá-lo do governo. Khan, denunciou haver um golpe em andamento promovido pelos EUA. Fundos estrangeiro financiaram a compra de parlamentares e a opinião pública. Argumentou haver interesses externos para reverter sua política externa independente.

Khan foi eleito democraticamente em 2018, concorreu como um político antissistema. Em 27 de março, Khan disse: “Nosso povo está sendo usado sem saber, mas alguns conscientemente estão usando esse dinheiro contra nós, nosso governo tem provas desses pagamentos”. Ele lembrou que seu antecessor Zulfikar Ali Bhutto foi derrubado em um golpe apoiado pelos EUA em 1977 e depois executado após um julgamento-espetaculoso, por fazer uma política externa independente.

Neste mês, o Primeiro-Ministro veio novamente a público e acusou o principal diplomata dos EUA, Donald Lu, de organizar uma “conspiração estrangeira” para derrubar seu governo. “Uma conspiração foi urdida com a ajuda dos Estados Unidos para me remover”. Um vídeo de Lu, testemunhando no Senado estadunidense, confirma o descontentamento de Washington com as crescentes relações de Khan com a Rússia e a China.

Anteriormente, Khan declarou que Washington enviou uma carta ameaçando-o por não permitir a implantação de bases militares estadunidenses no Paquistão. [o primeiro-ministro do Paquistão “absolutamente não” permitirá que a CIA use bases para operações no Afeganistão]. Segundo ele, Lu ameaçou o embaixador do Paquistão nos Estados Unidos, Asad Majeed, que haveria sérias “implicações” se Khan não fosse deposto e as relações EUA-Paquistão não poderiam melhorar enquanto Khan permanecesse no poder.  

Mesmo após a reunião, Khan ignorando as ameaças e sanções econômicas, anunciou que o Paquistão expandiria seus laços econômicos com a Rússia, importando trigo e gás. Houve uma série de deserções de partidos da coalizão governista na semana passada, o que lhe custou a maioria no parlamento.

Assim como no Brasil: “Com Supremo e com tudo”

O vice-presidente da Assembleia Nacional do Paquistão, Qasim Suri, havia suspendido a moção de desconfiança da oposição, argumentando que era inconstitucional, pois fazia parte de uma “conspiração” apoiada por “potências estrangeiras”. O que dissolveria o parlamento e daria 90 dias para que fossem realizadas novas eleições. Porém, a Suprema Corte paquistanesa decidiu, na quinta-feira, que a votação deve ser retomada, porque seria inconstitucional bloquear uma moção de desconfiança.

Segundo a BBC, no caso de Khan ser deposto do poder, o líder da oposição Shehbaz Sharif, o qual liderou a campanha pela moção, deve se tornar o primeiro-ministro interino e os partidos da oposição devem nomear um novo primeiro-ministro, que poderá ocupar o poder até outubro de 2023, quando uma nova eleição está programada.

O exército do Paquistão é conhecido por derrubar líderes civis. As forças armadas do país também estão intimamente ligadas aos Estados Unidos e agem para promover esses interesses. Qamar Javed Bajwa, chefe do Estado-Maior do Exército, elogiou os Estados Unidos e a Europa, criticou a Rússia por sua guerra na Ucrânia e, assim, rompendo com o Primeiro-Ministro.

Ambos os jornalistas independentes, Benjamin Norton e Pepe Escobar compartilham a opinião de que o golpe promovido no Paquistão é à lá Brasil.

Benjamin Norton:

Pepe Escobar:

Os porquês de Imran Khan incomodar tanto

É verdade que nenhum primeiro-ministro conseguiu terminar seus 5 anos de governo, mas esta é a primeira vez que a deposição ocorre por voto de desconfiança. Os avisos vieram após Khan criticar o governo dos EUA por usar o Paquistão para promover os interesses de Washington. “Sempre que os EUA precisam de nós, eles estabelecem relações, o Paquistão foi um estado de linha de frente – contra a União Soviética – e depois foi abandonado e nos impuseram sanções”. [Aqui]. Ele também elogiou a China por sempre ser uma amiga de Islamabad: “por outro lado, a China é uma amiga que sempre apoiou o Paquistão”.

1) Contrário à Guerra ao Terror

Khan sempre se opôs à “guerra ao terror” de Washington, e especialmente à guerra no Afeganistão. Argumentava que as soluções militares eram imorais e contraproducentes. Por isso, ele foi chamado de forma depreciativa de “Talibã Khan”.

2) Uma voz anticolonial

Em 2019, no discurso da Assembleia Geral das Nações Unidas, Imran Khan foi condenado como audacioso, por falar fortemente sobre questões de injustiça global. Três dos pontos enfatizados por ele em seu discurso irritou os supremacistas ocidentais.

Primeiro, Khan condenou os poderosos países ocidentais por permitirem que as elites do Sul Global saqueassem suas próprias sociedades. Em segundo lugar, destacou a islamofobia não como um assunto marginal, mas como um fenômeno perigoso que estruturava a ordem global, além de criticar severamente a caracterização ardilosa de alguns muçulmanos como “moderados” e outros como “radicais”. Essas distinções foram construídas para serem usadas na “guerra ao terror”. Em terceiro, Khan falou sobre a luta da Caxemira contra a ocupação indiana de uma forma incisiva, coisa nunca feita por seus antecessores.

3) O Corredor Econômico China Paquistão (CPEC) e as Novas Rotas da Seda (BRI)

Talvez o mais preocupante para as elites ocidentais seja como Imran Khan fortaleceu o relacionamento de décadas do Paquistão com a China. Islamabad e Pequim são parceiros-chave nos projetos de infraestrutura destinados a conectar a região. Ambos trabalham juntos no Corredor Econômico China Paquistão (CPEC) e nas Novas Rotas da Seda (BRI).

O presidente Xi Jinping e a liderança chinesa consideram Khan um líder paquistanês genuinamente interessado na cooperação para o desenvolvimento do Paquistão, livre da enorme corrupção e incompetência que caracterizam outras forças políticas no país. Xi construiu um relacionamento muito próximo com Khan. Além disso, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, participou da Cúpula da Organização de Cooperação Islâmica (OIC) em Islamabad, em março deste ano. Yi falou muito sobre a aceitação da China pela liderança do Paquistão no mundo muçulmano.

4) Khan aproximou o Paquistão da Rússia

O governo paquistanês nunca teve uma relação próxima à Rússia. Moscou sempre foi considerada uma aliada de Nova Délhi. Nas Olimpíadas de Pequim, Putin estendeu um convite ao primeiro-ministro Khan, que vendo uma oportunidade de neutralizar uma potência regional historicamente inimiga de Islamabad, concordou com a visita. Assim que Khan chegou a Moscou, Putin lançou seu ataque militar contra a Ucrânia. Khan foi criticado pelo ocidente por não condenar a Rússia.

5) Uma liderança no mundo islâmico

Ao sediar a 48ª Sessão da Organização da Conferência Islâmica em Islamabad, Imran Khan transformou-se em um dos líderes políticos muçulmanos mais populares da atualidade. Khan imitou o primeiro-ministro Zulfiqar Ali Bhutto, que em 1970, também organizou uma reunião da OIC em Lahore, o que lhe deu grande popularidade na época.

Os discursos de Khan têm um ethos civilizacional islâmico, centralizado na justiça social e em promover uma política de combate à supremacia ocidental. Ele não se encaixou no servilismo aos EUA, como outros governantes muçulmanos da região fazem, assim, foi retratado como um “fundamentalista” pelos EUA.

6) O contrapeso à Arábia Saudita no mundo islâmico

Imran Khan se inclinou gradualmente como um contrapeso à hegemonia liderada pela Arábia Saudita no mundo muçulmano. Na Cúpula de Kuala Lumpur de 2019, o primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, convocou o Paquistão ao evento. Os outros participantes entenderam o quão importante seria a presença do primeiro-ministro paquistanês.

Entretanto, no último minuto, Islamabad desistiu. Dias antes da Cúpula de Kuala Lumpur, Khan foi convocado a Riad, onde foi avisado que não deveria ir para a Malásia e, se o fizesse, a Casa de Saud iniciaria a deportação de trabalhadores paquistaneses, interromperia o petróleo subsidiado e rescindiria os empréstimos ao Paquistão.

7) Os militares não conseguiram controlar Khan

Imran Khan chegou ao poder com a bênção do exército paquistanês. O entendimento era que os militares tinham um relacionamento confortável, a ponto de Khan ter sido visto como um fantoche dos militares. Porém, não foi isso o que ocorreu. Os militares sempre estiveram no controle da segurança nacional e da política externa do Paquistão.

No entanto, Khan afirmou firmemente seu direito de fazer parte de qualquer questão crucial de segurança nacional, direito cuja maioria dos governos anteriores renunciavam. Desse modo, o primeiro-ministro paquistanês caiu em desgraça com os militares. Para Washington, ter militares para “endireitar” os líderes “desobedientes” do Sul Global, tem sido o procedimento operacional no mundo todo, inclusive na América-Latina.

8) O apoio de Khan à libertação palestina

Outra razão das forças imperialistas exigirem a expulsão de Imran Khan é o seu apoio consistente à luta palestina. Em 2020 e 2021, houve uma intensa pressão e ameaças contra Islamabad. Vários países do Golfo normalizaram as relações com o apartheid de Israel. Durante meses, os paquistaneses experimentaram um ataque violento de guerra da informação destinado a tornar o público mais receptivo à ideia de reconhecer e aceitar o apartheid israelense.

Os principais partidos políticos nacionais e setores do comando militar paquistanês, expressavam a disposição em considerar a ideia de normalização. Mas o primeiro-ministro Khan não cedeu e condenou a guerra de Israel em Gaza. “Estamos com a Palestina. Estamos com Gaza”, disse ele. [Multipolarista].

Ninguém é só virtudes

Há contra Khan críticas de má gestão e má governança, além de sua visão patriarcal e autoritária. A imprensa também o acusa de promover uma dura repressão à dissidência e a mídia. Em contrapartida, é difícil saber quais dessas denúncias são verdadeiras, desde o início do governo, a maioria da imprensa e mídia eletrônica tem sido incessantemente anti-Khan.

Setores dominantes da elite, líderes da oposição e alguns membros do partido de Khan, o Movimento Paquistanês pela Justiça (PTI), uniram-se em uma blitzkrieg contra ele. Embora as razões acima não sejam as que motivaram uma guerra-híbrida, não cabe uma iconofilia ao primeiro-ministro Khan. A receita do golpe no Paquistão tem os mesmos ingredientes da usada no Brasil, em 2016.

Marcus Atalla – Graduação em Imagem e Som – UFSCAR, graduação em Direito – USF. Especialização em Jornalismo – FDA, especialização em Jornalismo Investigativo – FMU

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