5 de junho de 2026

O que a governança da China pode ensinar ao Brasil e ao mundo?

A esquerda brasileira "tem muito a estudar" da experiência chinesa, defende o representante da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar
Seminário de Governança da China e do Brasil | Dr. Wu Xingzhi, Dr. Evandro Menezes de Carvalho, Hu Kaimin, Huang Yehua, Henrique Couto da Nóbrega, Ivone Maria da Silva, César Benjamin, Sun Yanping e Valter Pomar.

A autossuficiência da economia da China e o seu modelo de governança, um Estado político de esquerda diretamente ligado ao forte mercado, são o que elevam o país a uma das maiores potências mundiais. Essa receita foi exposta no evento de lançamento do livro Superar a Pobreza de Xi Jinping, nesta semana, no Rio de Janeiro, com a participação do GGN.

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Na segunda metade do evento realizado nesta terça, 12 de novembro, o diretor do Departamento de Estratégia de Desenvolvimento do Instituto de Administração de Zhejiang, Wu Xingzhi, destacou pontos importantes sobre a particularidade da governança chinesa. O principal deles é a relação entre o governo e o mercado.

Segundo Wu, ao contrário do que ocorre nas sociedades capitalistas contemporâneas, onde o mercado tem muita força para influenciar diretamente as políticas estatais e até mesmo derrubar governos, na China é diferente. O modelo chinês, que ele estuda, apresenta tanto um governo forte quanto um mercado forte. Apesar de a China ter empresas privadas, o Estado continua a ditar os objetivos coletivos de desenvolvimento. O governo chinês também é acionista das empresas privadas e se envolve diretamente nas decisões, algo incomum na economia ocidental. Esse é um dos pilares que Wu considera base para o sucesso do modelo.

A experiência de Xi Jinping no desenvolvimento regional

Wu lembrou que em Superar a Pobreza, Xi compartilha sua experiência entre 1988 e 1990, quando liderava uma sub-região da província de Fujian. Xi utilizou essa experiência em uma pequena região para criar políticas nacionais para seu governo. A integração entre políticas regionais e nacionais é outro pilar de sucesso no modelo de governança do Partido Comunista Chinês, que trabalha com uma divisão de lideranças do micro ao macro. Xi começou em uma posição pequena e foi ascendendo dentro do Partido, acumulando experiências de pequenas regiões até se tornar o Secretário-Geral do Partido e Presidente da China.

A filosofia de desenvolver pequenas regiões segue o princípio de “trabalhar dentro das capacidades e fazer o máximo”, destaca Wu. Ou seja, mesmo em regiões limitadas, com poucas possibilidades de desenvolvimento, existe um potencial, e esse potencial deve ser trabalhado ao máximo para extrair os melhores resultados possíveis dentro daquela realidade. Se uma região só pode produzir chá, os esforços devem se concentrar em aumentar ao máximo a capacidade de produção desse produto.

O “passarinho fraco”

Nesse sentido, o livro de Xi, que plantou o sonho de erradicar a pobreza extrema, realizado pelos chineses em 2021, também tem o papel de erradicar conceitos. Sun Yanping, diretora do Instituto Confucius da PUC-Rio, destacou a mentalidade coletiva dos chineses para superar as barreiras das limitações de determinadas regiões. Esse é o primeiro capítulo do livro de Xi: “Como pode o passarinho fraco ser o primeiro a voar?”.

A criação de um sonho utópico é apontada como um dos fatores de sucesso da política de erradicação da pobreza de Xi. Transformar uma comunidade coletivamente, para que o “passarinho fraco” pudesse ser o primeiro a voar, foi o que impulsionou o desenvolvimento econômico chinês, iniciando seus “voos” com os “passarinhos fracos”.

Lições da China para a esquerda brasileira

Valter Pomar, diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, apresentou reflexões sobre como a esquerda brasileira pode aprender com o Partido Comunista Chinês. Pomar citou a revolução de 1949, o Estado e a sociedade resultantes daquela revolução, e a política de abertura econômica iniciada em 1978, que ele considera como alguns dos fatores que explicam o sucesso da China. E enfatizou a necessidade de observar o papel do Partido Comunista Chinês.

“A verdade muitas vezes esquecida por quem estuda a China é que não é possível entender a China atual se não levamos em conta o papel do Partido Comunista.”

E a esquerda brasileira deveria estudar a experiência chinesa. “Estudar, não copiar”, completou. Apesar de o modelo ser bem-sucedido, como foi lembrado durante todo o evento, realidades diferentes requerem soluções diferentes.

“Somos países diferentes, culturas diferentes, tradições políticas diferentes. Qualquer tentativa de copiar seria desastrosa, mas temos muito a estudar.”

Mesmo com a correlação de forças que tensiona o atual governo petista, a postura diante desse conflito precisa ser de transformação. Como ele mesmo diz: “A correlação de forças não era favorável quando o Partido Comunista da China foi criado em 1921.” Para ele, o Brasil, os movimentos e os partidos de esquerda precisam aprender com essa disposição de enfrentar as dificuldades, considerando a correlação de forças como algo momentâneo, e como um obstáculo a ser superado e “principalmente de não adotar a mediocridade como meta e parâmetro para nosso país”.

Se o setor financeiro e o setor primário exportador continuarem dominantes, Pomar acredita que as possibilidades de o Brasil dar um salto em direção ao desenvolvimento serão apenas isso, possibilidades.

“O PT e a esquerda não podem aceitar o papel de gestores do status quo. É preciso disposição para transformar profundamente o Brasil.”

Pomar acredita que, com o tensionamento à esquerda, levando o país na direção da industrialização, do desenvolvimento e do bem-estar, é possível superar as barreiras encontradas pelo caminho. Nesse sentido, a visita de Xi Jinping ao Brasil, para participar da Cúpula do G20, no Rio de Janeiro, pode ser uma peça fundamental para elevar a relação Brasil-China a “outro patamar” e direcionar o país a uma trajetória própria de sucesso.

O evento

O seminário contou com a presença de Evandro Menezes de Carvalho, tradutor de Superar a Pobreza, professor da FGV Direito Rio e diretor da Editora Go East Brasil; Wu Xingzhi, diretor do Departamento de Estratégia de Desenvolvimento do Instituto de Administração de Zhejiang; Ivone Maria da Silva, presidenta do Instituto Lula; Sun Yanping, diretora chinesa do Instituto Confucius da PUC-Rio; Valter Pomar, diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo; Huang Yehua, presidente da China National Offshore Oil Corporation no Brasil; César Benjamin, editor-chefe da Contraponto Editora; e Henrique Couto da Nóbrega, presidente da Associação de Amizade Brasil-China.

Icaro Brum

Repórter no Jornal GGN, produtor e apresentador do Programa “Em Movimento” na TV GGN.

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4 Comentários
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  1. Haaatireiopaunogatoto

    15 de novembro de 2024 10:35 am

    Iii meu caro o Brasil ensinará a China como acabar com a guerra na Ucrânia através de Biden e Lula,não poderá se deixar Trump ser o herói do fim guerra !!! Obs.:Deverá ter outro candidayo a presidência da Câmara q não seja esse favorito aí q anistiará o Bolso !!!

    1. Joao A

      15 de novembro de 2024 6:43 pm

      Brasil tem muito a aprender com o modelo econômico chinês, excelente matéria!

  2. Douglas da Mata

    15 de novembro de 2024 10:49 am

    Que coisa mais vira latas.

    Ou é vira latas dos EUA, ou é a Europa, ou da China.

    A China já fazia a pólvora quando no Brasil os hominídeos catavam frutos que caíam das árvores.

    É a história, estúpido.

    A China tem um bônus demográfico que permite crescer em um segundo, basta direcionar uma fração da economia para esse ou aquele lado.

    A China tem um modelo autocrático de capitalismo estatal (estado distributivista), fez uma revolução, sangrou em guerras e invasões, enfim, é um mundo a parte.

    Vem um bocoió desses falar que temos que aprender com a China?

    O que?

    Remunerar a mão-de-obra com 1 dólar ao dia para inundar o mundo de replicas?

    Tenham paciência.

  3. GalileoGalilei

    15 de novembro de 2024 5:54 pm

    O segredo de Polichinelo que tornou a China a potência atual, a meu ver, é composto por três pilares: o primeiro é a importância política que foi dada à Educação. Importância esta refletida na preocupação de fazer o possível e o impossível para não deixar ninguém para trás. Aliada à população muito bem, educada, o segundo pilar resulta de uma política de saúde que, apesar da idade média tender a subir, produziu uma força de trabalho bastante saudável, principalmente se comparada aos padrões ocidentais. Finalmente, o terceiro pilar foi o de garantir o acesso habitacional a esta população. As obras de infraestrutura revolucionando a mobilidade urbana e os meios de comunicação complementam esses três pilares e fazem da enorme população da China, a segunda maior do mundo – atrás apenas da da Índia – uma gigantesca e criativa força de trabalho, responsável pelo atual “milagre chinês” que surpreende o mundo científica e tecnologicamente. Nada disso, entretanto, ocorreu da noite para o dia. Foram necessários vários anos de esforço até que os frutos pudessem começar a ser colhidos. Pelo tamanho gigantesco da população, o feito é de se tirar o chapéu.

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