21 de maio de 2026

TVGGN 20 Horas: Violência no Equador é resultado do desmonte liberal das instituições, diz ex-cônsul do Equador

Segundo Kintto Lucas, o medo também favoreceria plebiscito que o governo quer para implementar modelo neoliberal
Fotos: Rodrigo Buendia e Cancillería del Ecuador / Montagem: GGN

O que se vê no Equador hoje é resultado do desmonte das instituições provocado pelos governos liberais dos últimos anos, de Lenín Moreno, Guillermo Lasso e, mais recentemente, Daniel Noboa. E o medo propagado na população ainda pode atender a interesses de possível plebiscito neoliberal, que endurece a Segurança Pública, mas também consagraria modelo no país.

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A análise é do ex-vice-ministro do Exterior equatoriano, escritor, autor de mais de 25 obras e embaixador itinerante para a Integração do Uruguai na América Latina de 2013, Kintto Lucas, em entrevista exclusiva à TVGGN.

“Na realidade, o que ocorre no Equador é a destruição do Estado. Os últimos governos, o de Lenin Moreno, de Guillermo Lasso e, nos poucos dias que está este governo [Daniel Noboa], fizeram do Estado essa ideia de que o Estado deve ser menor, e o que aconteceu é que acabaram com tudo o que existia de segurança”, afirmou.

O ex-consul narrou a destruição das políticas públicas durante estes governos, incluindo a atuação, por exemplo, de unidades policiais comunitárias, ligadas à população e comunidades, que deixaram de existir. Como consequência, houve um aumento do desemprego de policiais. E o mesmo se repetiu com as políticas públicas na saúde, educação e outras: “um desmonte de tudo, como sabemos que é o modelo neoliberal”.

Segundo o jornalista Luis Nassif, que mediou a entrevista, “o que está acontecendo no Equador é, de uma forma mais drástica, assim como na Argentina, o resultado de políticas ultra-liberais, em que se associa mercado, dolarização e organizações criminosas.”

Kintto Lucas destacou que a consequência do “Estado destruído” foi a desinstitucionalização.

“Isso levou a um Estado destruído, que praticamente não existe Estado, mas também gerou outro problema, a desinstitucionalização. A desinstitucionalização de toda a Justiça, da política em si, hoje a Justiça está muito descredibilizada. No final, não se sabe quem manda na Justiça, porque por um lado está a Procuradoria, por outro está o Conselho Judicial, por outro o Tribunal Constitucional, e entre eles o único que se tem feito, nestes últimos anos, é perseguir politicamente aos aliados do governo de Correa.”

“Então, a Justiça foi desinstitucionalizada e, entretanto, não se perseguem os criminosos”, completou.

O escritor ressaltou a violência atual a partir do aumento do narcotráfico no país. “Isso se associou a outro fator, que o Equador começou a ser o maior ‘exportador’ de drogas da América Latina“, relatou.

“Tudo o que saia da Colômbia de cocaína está saindo diretamente do Equador. Somos um país sem grandes fronteiras, porque se poderia pensar que o Brasil seria o país que leve mais cocaína a Europa, uma vez que é de multiplas fronteiras, e o Equador não. Mas o Equador é o país da América Latina que mais leva cocaína a Europa.”

“Isso fez com que essas gangues criminosas que comandam o narcotráfico, vinculadas aos cartéis mexicanos e antigos cartéis colombianos, começassem a se instalar e gerar conflitos pelo domínio dos portos, das fronteiras e territórios. E assim começou a guerra dos cartéis de narcotráfico no Equador”, explicou.

Por fim, o cônsul alertou para o fato de que os ataques dos últimos dias, que assume ser real e partindo destes grupos criminosos, pode estar sendo utilizados pelo governo liberal para desestabilizar o país e criar terreno para o apoio da população às suas pautas e políticas.

“Os enfrentamentos dos últimos dias foram muito fortes, os ataques com bombas são reais, ocorreram, mas também se trataram de amplificar, com o intuito de gerar pavor, medo na população, que vem de grupos do crime organizado, mas também de grupos interessados. Porque o presidente está propondo um plebiscito que estabelece toda uma carta neoliberal“, contou.

Segundo ele, as propostas de modelo neoliberal também tratam de endurecer a segurança pública e, se levam “a um modelo neoliberal já certificado, por outro, levam a um Estado mais fascista”.

“Porque uma coisa é combater o crime organizado, outra é organizar um Estado de repressão, em caso de se iniciarem mobilizações contra as políticas que se querem implementar”, alertou.

Assista à íntegra da entrevista na TVGGN, edição que foi ao ar no dia 11 de janeiro:

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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