A Associação dos Amigos do Poder que representa o MPF

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Nos tempos do Brasilianas, na TV Brasil, gravamos uma entrevista com o presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) Alexandre Camanho. A intenção era mostrar o lado legítimo do Ministério Público, a defesa da cidadania, dos direitos difusos, para contrapor ao lado arrogante de procuradores se considerando donos do mundo.

Na primeira entrada, Camanho bradou:

– O Brasil é um oceano de corrupção no qual a única ilha de honestidade é o Ministério Público!

O que dizer dessa explosão de humildade corporativa?

A ANPR representa a corporação do Ministério Público Federal. Seu presidente é eleito em eleições diretas. Suas duas grandes atribuições são definir o local do encontro anual dos procuradores; e organizar a eleição para a lista tríplice, da qual teoricamente sairá o novo Procurador Geral da República.

No MPF, a ascensão profissional se baseia na meritocracia, em um conjunto de filtros que definem a escala de promoção no órgão. Já na ANPR – e nas eleições para a lista tríplice – as escolhas refletem o pensamento médio da corporação. Portanto, para entender o MPF é necessário se fixar na ANPR.

Dias atrás, a Folha trouxe a informação de que Camanho fez o meio campo entre o grupo de Michel Temer e a Lava Jato visando aplainar o caminho para a tomada do poder (https://goo.gl/Ft355X). Ou seja, o presidente da única corporação virtuosa da República fazendo o meio campo da Lava Jato com a mais suspeita organização política da República. Honestos, honestos, amigos à parte.

É pouco?

Mal Temer foi empossado, o sucessor de Camanho na ANPR, José Robalinho, solicitou audiência especial com o novo presidente. Foi o primeiro a puxar o cordão dos puxa sacos. Sua alegação é que procurava Temer para defender os interesses da categoria (https://goo.gl/uHKj7J). Honestos, honestos, interesses à parte.

Leia também:  Dirceu começa a cumprir segunda condenação da Lava Jato

Como amor desinteressado é incondicional, mal foi anunciada a indicação de Alexandre de Moraes para o STF (Supremo Tribunal Federal), a brava ANPR correu a divulgar uma nota de apoio, na qual enaltecia as excelsas virtudes do indicado (https://goo.gl/m5n8nP).

Nas relações com o esquema Temer, só faltou mesmo beijo na boca.

Outro ex-presidente da ANPR é o atual Procurador Geral da República Rodrigo Janot. Sua campanha para a lista tríplice foi inteiramente calçada em temas corporativos. Para garantir sua indicação, visitou José Dirceu no hotel em que estava exilado, ofereceu jantares para José Genoíno, abriu seu melhor vinho, fez juras de amor eterno, segundo colegas seus presentes ao regabofe. Só faltou beijo na boca.

Nas eleições, Janot venceu duas procuradoras símbolos do MPF, Ela Wiecko e Deborah Duprat, referencias de direitos humanos.

O PGR é eleito apenas pelo Ministério Público Federal, mas tem ascendência sobre todos os demais Ministérios Públicos, o Militar, o do Trabalho, do Distrito Federal e territórios. Nas eleições paralelas dos demais MPs, Deborah Duprat venceu por larga margem. O que mostra um discernimento maior do coletivo do Ministério Público em relação ao MPF.

Hoje em dia é ocioso falar em lista tríplice, já que dificilmente futuros presidentes cometerão a imprudência de indicar o primeiro colocado. Mas vale a discussão sobre até que ponto a ANPR deve continuar como porta-voz de toda uma categoria.

É uma resposta que apenas os procuradores poderão dar.

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19 comentários

  1. No que diz respeito a mim, simples cidadã

    Pode fechar e jogar a chave na maré. Custa uma fortuma, e só serve a si mesmo. Que se dane …

  2. Na verdade, a eleição deveria

    Na verdade, a eleição deveria levar em conta outros “colégios eleitoriais” como sindicatos, e demais associações da sociedade civil. Seria muito mais justo do que simplesmente dar aos procuradores o poder de determinar quem vai ser seu chefe.

    • Não digo sindicatos

      Não digo sindicatos, mas com certeza todos os servidores do Ministério Público deveriam votar, além dos Procuradores. A atuação do PGR não se resume a política: da porta pra dentro o PGR toma inúmeras decisões que afetam (e muito!) a vida de todos os servidores. Janot, por exemplo, é criticadíssimo internamente por ter feito tudo e mais um pouco para os procuradores, mas fez ouvidos moucos a quase todas as reivindicações dos servidores do MPF.

      • “(…) mas fez ouvidos moucos

        “(…) mas fez ouvidos moucos a quase todas as reivindicações dos servidores do MPF.”  Que, em conjunto, tratam-se de pedidos de aumento salarial, benesses e congêneres. Faltou dizer.

        • Eu queria entender isso…

          Eu queria entender o motivo de alguém, sem ser do PSDB, ter um ódio tão puro assim de servidores públicos. Não confunda os procuradores e delegados da Lava-Jato com os demais servidores do MPF. Não caia nessa, a não ser que esteja fazendo isso de forma consciente.

          Não, não eram benesses, aumentos de salário e congêneres. Dentre outras coisas, queriam a efetiva implantação do sistema de processo eletrônico, a implantação de uma política de prevenção de assédio moral em todos os ramos do MPF, como já existe no MPT e implantaçlão do regime de teletrabalho.

          Se você não sabe de nada do assunto, não venha cuspindo discurso de Tucano. Se informe primeiro.

  3. Mas vale a discussão sobre

    Mas vale a discussão sobre até que ponto a ANPR deve continuar como porta-voz de toda uma categoria?

    É uma resposta que apenas os procuradores poderão dar. 

    ?????????????????????????????

    Apenas os procuradores poderão dar? Ou o povo  é quem tem o direito constitucional de dar? Ou seja definir como deve ser a indicação do procurador geral..   Ao menos enquanto o artg 1º da Constituição estiver em vigor. Está na UTI mas vai sa recuperar. E não estou falando em eleições diretas, pq seria um desastre a campanha, mas há formas mais democráticas por serem mais abrangentes.

  4. A concursocracia tem formado

    A concursocracia tem formado uma geração de arrivistas interessados somente nas vantangens e privilégios do cargo, especialmente no judiciário e MP.

    Gente que coloca vaidade e ambições pessoais acima do exercício das funções.

    • Lá vem esse papo de novo!

      Se o cara coloca vaidade e ambições pessoais acima do cargo é defeito de caráter, e não uma forma de atuar exigida pelo concurso público. Deputados e senadores fazem isso o tempo todo e não são concursados. Na iniciativa privada vê-se a mesma coisa, sem concurso público.

      O concurso público ainda é a única garantia de que um cara como eu, filho de pobre e sem pistolão, pode disputar um cargo público com um filho da elite cheio de boas relações familiares.

      Quero ver se esse discurso cola e o concurso público é abolido, passando servidor público a ser escolhido por análise de currículo. Só as elites cursadas em universidade de ponta e com dinheiro pra bancar intercâmbios e estágios serão nomeados. Ou pior, por eleição. Quero ver o que vocês vão achar de Renans, Aécios e outros quetais eleitos para essas funções…

      • Não defendo a extinção do concurso público, mas é necessário aperfeiçoar o processo de seleção. Por exemplo, avaliações efetivas de desempenho e produtividade durante o período de estágio probatório. Da forma como funciona hoje, é uma piada.

        Atualmente, basta o candidato ser um ás na arte de decorar rodapés de apostilas. Começa na prova da OAB e vai até a magistratura.

        O objetivo é conquisar a estabilidade. Ou você acredita que o cidadão dedica 12 horas de estudos diários para ingressar no Senado, Judicário ou MP porque tem vocação, enquanto vive de mesada dos pais?

        Francamente.

        • Vê-se que você não sabe de nada

          Avaliações efetivas de produtividade e desempenho durante o probatório já existem. O servidor só é estabilizado quando é avaliado e aprovado três vezes, três avaliações anuais duplas, pela chefia imediata e pela chefia superior. Não sabes de nada do que falas!

          Eu te desafio a passar em qualquer concurso que seja decorando rodapé de apostila. Se decoreba fizesse passar na OAB não haveria 93% de reprovação no último concurso. Se na magistratura decoreba resolvesse não haveria concurso na magistratura todo ano, pois o grau de reprovação é tão alto que nunca se preenchem todas as vagas. Aqui no DF, em 2014, eram 92 vagas e só sete foram aprovados.

          Te desafio a ser aprovado numa prova escrita ou uma prova oral, como eu respondi, só decorando “rodapé de apostila”. Desafio!

          • Na sua longa trajetória

            Na sua longa trajetória dentro do serviço público, o sr. conhece alguém que não foi efetivado no cargo porque “dançou” no estágio probatório?

            Não vale mentir.

            A reprovação está ligada à formação precária dos candidatos, diplomados no bacharelismo fast food. Há faculdades convertidas em cursinho preparatórios! Consulte o edital e veja o conteúdo cobrado no concurso para juiz ou MP. Seria um engano menosprezar a capacidade de memorização. E perseverença, é claro.

            Quanto ao desafio, os iluminatis da lava jato estão aí para demonstrar que “decorar rodapé de apostila” não é vergonha alguma.

             

             

             

             

          • Insistes na má-fé?

            Permanece o desafio: seja aprovado num concurso público decorando rodapé de apostila, e deposi venha criticar “bacharelismo”. Passei dois anos estudando pra passar no concurso (isso em 1994, quando não havia a concorrência acirrada de agora), e dentro do serviço público fiz vários cursos, inclusive de pós-graduação, para poder atuar bem na minha carreira e chegar aos níveis mais altos do plano de carreira.

            Não tenho vergonha nenhuma de ser servidor público. Tenho orgulho de como desempenho bem meu trabalho – sem ele você certamente viveria num país muito pior. Quem acha que só a iniciativa privada presta deve estar muito satisfeito com o serviço dos planos de saúde, dos bancos, das operadoras de TV e de cartão de crédito…

            Quanto a alguém ser reprovado no probatório, sim. Agora em maio exonerei um colega por isso. Obviamente não posso dar o nome para você checar, por conta do sigilo. Aí você, privatopata, vai dizer que é mentira – aliás, já disse.

            Seu problema é confundir o ímpeto antipetista e antipaís dos procuradores da Lava-Jato com o resto inteiro do serviço público. E de quebra desprezar a formação universitária com isso, acusando indiscriminadamente todos de “bacharelismo”. Lembra-me que o desprezo à educação formal é um traço comum dos radicais, de Pol-Pot a Hitler…

  5. É preciso acabar com o mp antes que o mp acabe com o Brasil…

    Não tens mais o direito a ingenuidade, aliás, infelizmente, nenhum de nós têm…

    Impossível sanar o insanáveis males que acometem o ministério público desse país sem uma completa reforma constitucional de suas atribuições, que coloquem, de uma vez, freio e arreios nessa besta-fera corporativa…

    Difícil dizer qual modelo seria idela, mas tenho uma certeza: o que está em vigor NÃO É!

    Perdão, mas você erra, clamorosamente, quando diz que a ascensão funcional do MPF é feita por “meritocracia”…

    Uai, como assim, Nassif, você ainda acredita na lenda que está por detrás desse vocábulo inútil: meritocracia?????

    Os laços que movimentam todas, eu repito,TODAS as relações no ministério público, seja ele federal, dos estados, ou de outras cercanias (trabalho, militar, etc) é o puxassaquismo, o estrelato, a vaidade, o desprezo pelo Estado de Direito, a busca pela bajulação e pelo senso comum raso, desses que pontuam em programas vespertinos do tipo “escorre-sangue”…

    Meu nobre blogueiro, o judiciário e o ministério público desse país são doenças incuráveis, que precisam de urgente extração do nosso tecido social…

    São esses cânceres que serviram de martelo e bigorna para cada um dos que golpearam a Democracia, quando ditadores assaltaram o poder!

     

    São esses covardes togados que mantiveram a Lei de Anistia!

    São esses que condenaram sem provas os réus da ação 470, para dar a cabeça deles a Casa Grande em seu primeiro ensaio de golpe…

    São esses nanicos morais que permitiram que carniceiros ladrões golpeassem uma presidenta eleita, e depois, entregaram o país aos caprichos de um fascista de primeira instância!!!

    Não, Nassif, cada texto seu procurando uma forma delicada de tratar esses cretinos é como um tapa em nossas faces!

    “procuradoras” referência em direitos humanos????

    Onde estavam essas digníssimas senhoras enquanto seus pares assaltaram o poder?

    Cadê suas vozes em pública e política censura aos seus pares powerpoint ou nas perseguições desumanas contra Lula e pior, contra a MULHER MARISA…

     

    Nassif, são todos farinha do mesmo saco e merecem o mesmo paredão da História…

    Porque se houver um paredão que seja de verdade, sou voluntário a empunhar o fuzil…

     

     

  6. Bravo Nassif!

    É uma honra, uma satisfação pode ler as argutas análises-reportagens de Luís Nassif. Com esta ele exuma mais um cadáver: o da ANPR. Parabéns Nassif. Com sua brava atuação não está ficando pedra sobre pedra. A Fraude a Jato é um cadáver com as pútridas e fededorentas entranhas expostas à luz solar.

  7. MP – a batata está assando…

    No artigo 127 da Constituição de 88 o Ministério Público foi empoderado para cumprir o seguinte objetivo: defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais.

    O que se tem observado é que parte significativa do Ministério Público se ateve apenas à defesa dos interesses individuais. Neste caso, os interesses individuais são os dos próprios membros do MP.

    Penso que o próximo presidente legítimo, seja quem for, cuidará de retirar poder do MP e responsabilizar seus membros pelos irresponsáveis e criminosos excessos cometidos.

  8. datas

    Só uma correção: a matéria da Folha de São Paulo linkada não é de “dias atrás”, mas de 25/05/2016. Um achado de alguém aí pelas redes sociais. Eu vi esse link hoje mais cedo num twitter, não lembro de quem, e como a matéria não fazia qualquer menção ao “caso da mala”, desconfiei que era anterior ao escândalo envolvendo Loures. Quando fui conferir, vi que era de um ano atrás. 

  9. “EU JÁ SABIA”: OCASO DE MORO, “ACORDÃO” E LUTA PELA PRESIDÊNCIA

    “EU JÁ SABIA”: OCASO DE MORO, “ACORDÃO” E A LUTA PELA PRESIDÊNCIA

    O Núcleo Duro passa o noticiário (nada…) caótico dos últimos dias em revista.

    E ligando todos os pontos “soltos”.

    Sempre torcendo para estar errado, né…

    O que, infelizmente, nunca se confirma.

    (suspiro)

    Não mesmo! – Fernando Morais conseguiu um furo “exclusivo” dos termos do “acordão” sendo negociado.

    Quer dizer… “exclusivo” apenas para que ~não~ leu o blog nas últimas semanas… rs

    Porque os leitores vão todos repetir comigo em jogral:

    <<EU JÁ SABIA!!>>

     

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