20 de junho de 2026

Organização criminosa, milícia e ocultação: os crimes que resultaram na prisão preventiva de Vorcaro

André Mendonça acolheu pedido da PF e mandou prender dono do Banco Master, seu cunhado e outros dois integrantes de suposta milícia privada
Daniel Vorcaro, do Banco Master - Reprodução

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), decretou na segunda-feira (3) a prisão preventiva de Daniel Bueno Vorcaro, controlador do Banco Master, e de mais três pessoas investigadas na Operação Compliance Zero. A decisão, de 48 páginas, acolheu representação da Polícia Federal que aponta a existência de organização criminosa com quatro núcleos distintos, incluindo um braço armado responsável por intimidação de jornalistas, ex-funcionários e autoridades públicas.

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Também foram presos Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como operador financeiro do grupo; Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado pelo apelido de “Sicário” e descrito como coordenador de um grupo informal chamado “A Turma”; e Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado que teria integrado a mesma estrutura de coerção.

Outros quatro investigados receberam medidas cautelares diversas da prisão, entre eles dois servidores de alto escalão do Banco Central do Brasil.

O esquema investigado

Segundo a Polícia Federal, o Banco Master, sob comando de Vorcaro, estruturou um esquema de captação agressiva de recursos por meio da emissão de CDBs com rentabilidade muito acima da média de mercado. Os valores obtidos teriam sido direcionados a operações de alto risco, ativos de baixa liquidez e fundos vinculados ao próprio conglomerado, configurando, segundo os investigadores, gestão fraudulenta de instituição financeira.

A investigação identificou quatro núcleos de atuação: um financeiro, responsável pelas fraudes ao sistema financeiro; um de corrupção institucional, voltado à cooptação de servidores do Banco Central; um de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, valendo-se de empresas interpostas; e um de intimidação e obstrução de justiça, que monitorava ilegalmente adversários, jornalistas e autoridades.

Os crimes investigados incluem gestão fraudulenta de instituição financeira, corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional, fraude processual e obstrução de justiça.

Servidores do BC

A decisão detalha a relação entre Vorcaro e dois chefes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do Banco Central. Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto, e Belline Santana, então chefe do departamento, teriam atuado como consultores informais do banqueiro, orientando-o sobre como se comportar em reuniões com a própria presidência da autarquia e revisando previamente documentos que o Banco Master enviaria ao Banco Central.

As mensagens de WhatsApp transcritas no processo mostram Paulo Sérgio dando sugestões a Vorcaro sobre postura a adotar em reunião com o presidente do Banco Central, e chegando a fazer alterações em minutas de ofícios que seriam enviados ao departamento que ele próprio chefiava. Belline Santana teria tido conduta semelhante.

Em troca desses serviços, os dois servidores teriam recebido vantagens indevidas pagas por meio de contratos fictícios de consultoria, operacionalizados pela empresa Varajo Consultoria Empresarial. Uma mensagem de Zettel a Vorcaro pergunta: “Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?”. Vorcaro responde: “OK”. Em outra troca, Zettel informa: “Belline cobrando. Paga?”. Vorcaro: “Claro.”

Para ocultar a origem dos pagamentos, Vorcaro instruiu que um terceiro, identificado como Leonardo Augusto Furtado Palhares, efetuasse os repasses e fosse reembolsado em seguida.

Os dois servidores não foram presos, mas tiveram suas funções suspensas, acesso físico e digital ao Banco Central bloqueado, passaportes apreendidos, proibição de contato com outros investigados e uso de tornozeleira eletrônica determinados.

A milícia privada de Vorcaro

A parte mais impactante da decisão trata da estrutura de intimidação mantida pelo grupo. Mourão, o “Sicário”, recebia cerca de R$ 1 milhão por mês de Vorcaro, valor repassado por Zettel, e o distribuía entre os integrantes de “A Turma”. Uma das mensagens transcritas mostra Mourão avisando Vorcaro: “O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando.”

O grupo teria realizado consultas ilegais em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de organismos internacionais como o FBI e a Interpol, valendo-se de credenciais funcionais de terceiros.

As conversas revelam ainda ordens explícitas de Vorcaro para intimidar pessoas que ele considerava ameaças. Em mensagem sobre um jornalista que publicou reportagem contrária a seus interesses, Vorcaro escreveu: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.” Mourão teria reagido com sinal positivo e respondido: “Pode? Vou olhar isso…” Vorcaro confirmou: “Sim.”

Sobre uma ex-empregada, Vorcaro teria escrito: “Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda.” E pediu a Mourão que levantasse o endereço dela.

Bilhões ocultos

A Polícia Federal apontou que, mesmo após Vorcaro ter sido posto em liberdade em 28 de novembro de 2025, quando o TRF-1 revogou sua prisão em investigação anterior, a organização continuou em funcionamento. Em janeiro de 2026, na segunda fase da Operação Compliance Zero, foi bloqueada a quantia de R$ 2,24 bilhões em conta registrada no nome do pai de Vorcaro, junto à empresa conhecida como REAG.

“Enquanto o Fundo Garantidor de Crédito sangrava para cobrir o rombo bilionário deixado pelo Banco Master, montante que alcança quase R$ 40 bilhões, Daniel Vorcaro ocultava mais de R$ 2 bilhões de seus credores e vítimas”, escreveu a Polícia Federal em trecho reproduzido na decisão.

Empresas suspensas

Cinco empresas investigadas tiveram suas atividades suspensas por prazo indeterminado: Varajo Consultoria, Moriah Asset, Super Empreendimentos e Participações, King Participações Imobiliárias e King Motors.

A decisão também registra um atrito institucional com a Procuradoria-Geral da República. Concedida vista ao órgão por 72 horas, o prazo expirou sem manifestação. Quando a PGR protocolizou petição pedindo mais tempo, argumentando não enxergar “perigo iminente” que justificasse análise tão rápida, o prazo já havia vencido. André Mendonça indeferiu o pedido de dilação e prosseguiu com a decisão.

“Lamenta-se que a PGR diga que ‘não se entrevê no pedido a indicação de perigo iminente’ (…) uma vez que as evidências dos ilícitos e a urgência para adoção das medidas estão fartamente reveladas”, escreveu o ministro. “Tempus fugit, no caso específico destes autos, a demora se revela extremamente perigosa para a sociedade.”

A decisão ainda será submetida ao referendo da Segunda Turma do STF.

Confira a petição na íntegra:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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4 Comentários
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  1. Sergio Navas

    4 de março de 2026 4:28 pm

    Qual seria a distância entre contratar para quebrar todos os dentes e eliminar, e o pior, com o apoio dos falsos cristãos brasileiros.

  2. Guilherme Souto

    4 de março de 2026 4:36 pm

    “A milícia privada de Vorcaro”, hehehehe, me veio antes de ler o subtítulo que esse cara era miliciano.

  3. Rui Ribeiro

    4 de março de 2026 5:56 pm

    Enquanto isso, o Rato de Minas voava no jatnho do Moedor, esperando que não fosse vazado. Agora diz que Bolsonaro disse para a extrema direita nao se prejudicar.

    Quem vazou a maracutaia?

  4. Rui Ribeiro

    4 de março de 2026 7:46 pm

    Para o Nikolas, o problema não foi voar nas asas do Vorcaro, mas a traição vazante. E ele sabe quem publicou seus segredos. O Allan $anto

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