Filha da elite política catarinense, Gabriela Hardt segue perfil autoritário de Moro

 
Por Lia Bianchini
 
 
“É tempo de responder às minhas perguntas. Eu não vou responder interrogatórios nem questionamentos aqui. Está claro? Está claro que eu não vou ser interrogada?”. Logo nos minutos iniciais de seu interrogatório com ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 14 de novembro, a juíza Gabriela Hardt deixava nítido que não iria despender simpatia ao ex-presidente. Naquele dia, o “pulso firme” da substituta de Sergio Moro foi comemorado pelos defensores dos métodos autoritários da Operação Lava Jato.
 
Juíza desde 2009, Hardt assumiu o posto de substituta da 13ª Vara Federal em 2014. Desde que Moro pediu exoneração do cargo de juíz federal para assumir o posto de Ministro da Justiça do governo Bolsonaro, é ela quem assume os processos da Lava Jato. Hardt ficará no cargo até o dia 30 de abril de 2019, quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) deve escolher o novo titular da Vara.
 
No dia do depoimento do ex-presidente Lula, a presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, afirmou que Gabriela Hardt é a “sequência do que Sergio Moro quer”, dizendo também que a juíza é amiga de Moro e assumiu seu posto para “seguir o roteiro de condenar Lula”. 
 
De fato, a relação de Hardt e Moro vai além de uma simples substituição de cargo. Os perfis dos juízes fazem parte de uma estrutura conservadora e oligárquica que caracteriza o poder judiciário brasileiro. Nas palavras de Ricardo Costa de Oliveira, Professor do Departamento de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a maioria dos magistrados brasileiros “nascem da mesma bolha de privilégios, representam uma tradição autoritária da elite estatal, estão sempre dentro do Estado, se beneficiando dos melhores salários, das melhores pensões, dos melhores recursos e do privilégio estatal”. 
 
Oliveira já debruçou sobre as origens familiares de membros da Operação Lava Jato, na pesquisa intitulada “Prosopografia familiar da Operação Lava Jato e do ministério Temer”. No artigo, o professor afirma que não se pode compreender os agentes da Operação como “indivíduos abstratos, que agem de “acordo com o que ‘diz a lei’”. É preciso, antes de tudo, “compreender a rede de relações sociais, profissionais, políticas e ideológicas que constituem estes agentes”.
 
Oligarquia catarinense
 
A “bolha de privilégios” na qual Gabriela Hardt nasceu foi formada em Indaial, um município do Vale do Itajaí, no estado de Santa Catarina, com aproximadamente 66 mil habitantes. O sobrenome Hardt, ali, está em uma das ruas principais, em avenida, no parque municipal, na escola de educação básica municipal e nas fachadas de uma rede de lojas de departamento e confecções. 
 
A genealogia de Gabriela remonta à elite política da pequena Indaial: seu bisavô, Frederico Hardt, foi o primeiro prefeito de Indaial, pela Aliança Liberal, entre os anos de 1934 e 1941; também da família, Alfredo Hardt foi prefeito entre 1961 e 1966; já entre 1993 e 1996, o tio da juíza, Frederico João Hardt, assumiu a prefeitura de Indaial, pelo PMDB, com vice do PSDB. 
 
Na década de 1920, Frederico Hardt começou a construir o império empresarial da família. A Firma Frederico Hardt teve início como uma fábrica de laticínios pioneira na região. Mais tarde, na década de 1940, ampliou o mercado para comercialização de outros gêneros alimentícios, ferragens, louças, tecidos e confecções. Desde a década de 1970, a família é proprietária da Hardt Confecções e das Lojas Hardt, uma rede de lojas de departamento, com mais de 150 funcionários, distribuídas também nas cidades catarinenses de Timbó e Blumenau.
 
“Essas oligarquias políticas familiares são extremamente conservadoras, com pensamento político sempre de direita, autoritário, o que contribui a explicar o comportamento político da juíza em relação ao processo do Lula”, explicou o professor Oliveira. 
 
Elite jurídica
 
Segunda dos três filhos de Jorge Hardt Filho e Marilza Ferreira Hardt, Gabriela nasceu em Curitiba, mas foi criada em São Mateus do Sul, cidade com cerca de 45 mil habitantes, a pouco mais de 150 km da capital paranaense. 
 
Na cidade interiorana, o pai de Gabriela trabalhou por mais de 20 anos como engenheiro químico em uma unidade de industrialização de xisto da Petrobrás. Já a mãe, foi professora em colégio particular e Secretária Municipal de Educação. 
 
Quando jovem, Gabriela cogitou seguir os passos do pai e cursou engenharia química por dois anos. Optou, no entanto, por fazer carreira no poder judiciário. Mudou-se para Curitiba e formou-se em Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a mesma em que Sergio Moro foi professor de Direito Penal e Processual Penal entre 2007 e 2018. 
 
No ano em que Moro começou a lecionar na UFPR, Hardt foi aprovada em concurso para juíza substituta federal. Entre os 52 aprovados naquele ano, o nome de Gabriela Hardt consta como 49º, com média geral de 6,62. 
 
Em entrevista à TV da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), em maio de 2017, Hardt diz que “entrou tarde” na magistratura, com 34 anos, já mãe de duas filhas. Antes de chegar à 13ª Vara Federal, Gabriela atuou na Justiça Federal de Paranaguá, litoral paranaense, e foi corregedora da penitenciária federal de Catanduvas.  
 
Na Lava Jato, enquanto cobria férias de Moro, Hardt foi responsável por expedir ordem de prisão ao ex-ministro José Dirceu, em maio deste ano. Depois da exoneração de Moro, a juíza já condenou 10 réus em processos da Lava Jato, entre eles, o ex-diretor de serviços da Petrobras, Renato Duque, e o lobista João Antonio Bernardi Filho. 
 
Ainda na entrevista à Ajufe, Hardt afirmou que a carreira de juíza “exige sacrifícios de ordem pessoal e familiar, mas é uma carreira gratificante, a gente se sente valorizado”. 
 
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4 comentários

  1. o professor oliveira é muito

    o professor oliveira é muito corajoso.

    parabéns a ele.

    espero que não seja perseguido por esses infames lavajateiros com suas lavachatices. 

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