Lava Jato do Peru pediu para delator mentir contra ex-presidente, mostra Intercept

Material entregue obtido pelo jornal mostra que procuradores induziram preso a mentir ou omitir sua ligação com investigados da Lava Jato peruana

Ex-presidente do Peru. Ollanta Humala. Imagem: Fotos Públicas

Jornal GGN – Arquivos de áudio entregues ao site The Intercept revelam que o vale-tudo jurídico não é restrito apenas aos brasileiros. O material mostra dois membros do Ministério Público do Peru induzindo um preso a mentir ou omitir fatos sobre sua ligação com investigados na Lava Jato peruana.

A reportagem sobre o caso foi divulgada neste domingo (3), pelo Intercept em parceria com o site de jornalismo investigativo OjoPúblico. Foram mais de 12 horas de conversa na prisão Piedras Gordas, gravadas em março de 2019, entre os procuradores David Castillo e Elmer Chi e o preso Martín Belaunde Lossio e seu advogado Luis Fernando de la Cruz.

Belaunde é ex-marqueteiro e operador político que, até hoje, tenta fechar um acordo de delação premiada para se livrar da prisão. Ele é considerado ex-braço direito do ex-presidente Ollanta Humala em duas campanhas eleitorais à presidência. O depoimento de Belaunde é tido como central em pelo menos um processo contra Humala, que governou o Peru entre 2011 e 2016.

Os procuradores gravados na conversa com Belaunde e seu defensor não estão diretamente ligados à equipe da Lava Jato no Peru. Mas as informações do ex-marqueteiro poderiam auxiliar nas investigações da Equipo Especial.

Nas gravações obtidas pelo Intercept, o marqueteiro afirma que um procurador do Equipo Especial (o mesmo que a força-tarefa da Lava Jato no Brasil) pediu para ele mentir e dizer que não sabia de uma suposta doação eleitoral de 400 mil dólares da Odebrecht para Humala.

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“O que o senhor vai nos dizer precisa ter concordância com a tese da procuradoria”, disse ainda o procurador Castilho para Belaunde e seu advogado. O motivo do pedido era para que o depoimento do ex-marqueteiro não desmentisse o depoimento de Jorge Barata, ex-diretor da Odebrecht no Peru e principal delator da empresa no país.

Na versão original, o ex-marqueteiro disse que conhecia Barata e tratou diretamente com ele o repasse dos 400 mil dólares para a campanha de Humala. Barata negou à Justiça ter feito o pagamento e muito menos que conhecia Belaunde.

Na gravação obtida pelo Intercept, o ex-marqueteiro diz que esse relato foi retirado do seu depoimento concedido à Lava Jato peruana, por conta da contradição. “Simplesmente que Barata negou tudo, então obviamente que Juárez colocou de lado [o que eu disse]. Não é parte da colaboração.”

Juárez é Germán Juárez, esse sim membro da Equipo Especial, responsável pelo caso que investiga Ollanta Humala e a mulher dele.

A reportagem destaque que a versão de Belaunde sobre o dinheiro de campanha havia sido usada para reforçar a ordem de prisão contra Humala, em 2017. “Negado pela própria Odebrecht, porém, o relato ficou de fora não apenas do registro escrito da proposta de delação de Belaunde como também foi ignorada na denúncia contra Humala, feita dali a menos de dois meses”, prossegue a matéria assinada por Rafael Neves, Ernesto Cabral e Rafael Moro Martins.

A Lava Jato peruana colocou quatro ex-presidentes sob investigação e alvos de mandados de prisão. Um deles foi Alan Garcia, que se suicidou com um tiro na cabeça antes de ser preso em sua residência, em abril deste ano. Os outros ex-presidentes são, além de Humala, Alejandro Toledo e Pedro Pablo Kuczynski.

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Alejandro Toledo encontra-se atualmente preso nos Estados Unidos a pedido da Lava Jato peruana. Kuczynski renunciou à presidência no ano passado, diante da iminência de um impeachment por causa da acusação de receber propinas da Odebrecht.

Já Ollanta Humala e a esposa, Nadine Heredia, chegaram a ficar presos preventivamente por mais de nove meses, de julho de 2017 a abril de 2018.

A reportagem do Intercept ressalta que o decreto que criou regras para as colaborações premiadas no Peru determina que devem ser negados acordos em que o candidato a delator informa algo que não seja útil, nem relevante e, ainda que a “falsidade da informação” resultará na anulação do acordo.

*Clique aqui para ler a reportagem do Intercept na íntegra.

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