Enquanto a maioria dos grandes nomes da advocacia brasileira prefere a discrição dos bastidores, Nelson Wilians, 53, escolheu os holofotes. O fundador do Nelson Wilians Advogados (NWADV) transformou sua rotina em um reality show para milhões de seguidores, exibindo jatos, helicópteros, carros importados e festas grandiosas. Nesta quarta-feira (15), no entanto, a exposição do defensor ganhou contornos policiais.
Wilians e sua esposa e sócia, Anne Wilians, são alvos da Operação Distrato, deflagrada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira-SP), que reúne o Ministério Público, a Secretaria da Fazenda e Planejamento e a Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo. A ação investiga um suposto esquema de venda de créditos falsos de ICMS que teria causado um prejuízo de R$ 3,8 bilhões aos cofres públicos.
O atalho tributário de R$ 3,8 bilhões
De acordo com as investigações, escritórios de advocacia e consultorias ofereciam a empresas paulistas um suposto planejamento tributário legítimo para reduzir o ICMS devido. O mecanismo consistia em lançar na escrituração fiscal das clientes créditos tributários sem lastro econômico ou autorização do Fisco, vinculados a massas falidas e empresas inativas.
Em troca do serviço, os intermediários cobravam honorários de êxito que chegavam a 70% do valor do imposto abatido. Para dar aparência de legalidade à fraude, o grupo utilizava contratos fictícios e até despachos falsificados atribuídos a auditores fiscais. Até o momento, a Fazenda estadual autuou 752 empresas que participaram da compensação irregular.
Esta é a segunda operação de grande repercussão que mira o advogado em menos de um ano. Em setembro de 2025, Wilians foi alvo da Polícia Federal em um inquérito sobre fraudes contra o INSS. Na ocasião, foram apreendidos em seus endereços carros de luxo, incluindo uma Ferrari e um Porsche, obras de arte atribuídas a Di Cavalcanti e Portinari, além de esculturas de bronze.
O advogado não foi denunciado nem condenado em nenhum dos casos, e as investigações seguem em fase de coleta de provas. Nelson Wilians ainda não se manifestou sobre a operação desta quarta-feira.
Do ‘fogão de lenha’ ao topo da Forbes
A trajetória do empresário contrasta com o império que ostenta. Natural de Cianorte (PR) e criado por pequenos agricultores em Jaguapitã, no norte paranaense, Wilians costuma lembrar que ouviu do pai na juventude que dele “só esperava o pior“. A desconfiança familiar e o conselho de um professor de faculdade para que voltasse ao campo teriam se tornado o combustível para sua ascensão, relatou à Folha de S.Paulo, em entrevista publicada em fevereiro de 2025.
Formado em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em Bauru (SP), onde foi colega de classe do ministro do STF André Mendonça, ele fundou o NWADV em 1999. Em vez do modelo tradicional de butique jurídica, apostou no crescimento por escala. Hoje, a banca afirma estar presente em todos os estados, gerir cerca de 450 mil processos e realizar aproximadamente 3.000 audiências mensais.
O modelo de negócios e a autopromoção agressiva renderam frutos comerciais e projeção nacional. Wilians foi o primeiro advogado a estampar a capa da edição brasileira da revista Forbes e representou clientes em disputas de heranças milionárias, como Rose Miriam di Matteo, viúva do apresentador Gugu Liberato, e herdeiras da família controladora do banco Bradesco.
Um reality show que incomoda a OAB
Diferentemente da postura reservada tradicional da advocacia, Wilians optou por dar ampla visibilidade à sua vida privada e profissional. À Folha de S.Paulo, o advogado explicou sua decisão de expor viagens em aeronaves particulares, carros de luxo e festas corporativas de grande porte para seus mais de 1,4 milhão de seguidores: “Eu estou na advocacia e tenho o que todo mundo que almeja sucesso gostaria de ter. Pensei: vou fazer da minha vida um reality show“.
No Brooklin, zona sul de São Paulo, o quartel-general de Wilians reflete sua obsessão pela própria imagem. Na sala de espera, uma televisão exibe em looping vídeos de sua rotina. Brindes, blocos de notas, caixas de charuto e até bonecos colecionáveis levam sua assinatura ou o desenho do “Dr. Nelsinho“, personagem criado pela cartunista Laerte.
A conduta divide opiniões no meio jurídico e já motivou notificações da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sobre limites de publicidade. Colegas de profissão chegaram a classificar seu estilo de exibição como “cafona“, mas o advogado defendeu seu posicionamento: “Exibido, eu sempre fui. Nunca tive vergonha das minhas conquistas. Não basta ser bom. Tem de parecer bom“.
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