10 de junho de 2026

O juiz que sequestrou um jornalista, por Felipe Pena

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O juiz que sequestrou um jornalista

por Felipe Pena

“Tenho Pena dele” é o nome da página no facebook que minha mulher fez pra mim.

No começo, não achei a ideia boa. Argumentei que não ficaria bem perante a minha comunidade, mas acabei cedendo às pressões do amor midiático da Karlinha, esposa amada e zelosa.

Como sabem, sou juiz da Liga de Futebol de Várzea do meu bairro. Quando me visto de preto, todos me respeitam a abaixam a cabeça. Apito com força e conhecimento. Sou formado pela Soccer Judge Association, em Harvard, capital intelectual do esporte.

No campo, minhas decisões são rápidas. Não hesito em distribuir cartões vermelhos. Já mandei muita gente pro chuveiro mais cedo. Em alguns casos, deixo o jogador trancado no vestiário por meses até que ele entregue o técnico que o instruiu a entrar de carrinho no adversário. Aí expulso o técnico, o massagista e até o porteiro do clube. Sou o justiceiro da liga.

Os torcedores me amam. Quer dizer, a quase totalidade me ama. Os de amarelo amam um pouco mais. Tiram até selfies comigo quando vou a restaurantes, shows e homenagens. Mas, no ano passado, tivemos um pequeno problema de comunicação e minha dileta consorte pediu vênia para fazer a tal página no livro dos rostos.

“Será um desagravo a você” – dizia, com uma admiração karnal, ultrapassando a metafísica e querendo me defender de um episódio controverso.

Ela se referia ao fato de eu ter divulgado gravações de conversas com os jogadores durante uma partida. Na época, vazei tudo para a imprensa, mesmo sabendo que era ilegal. O importante era garantir a transparência do jogo através do grampo no meu apito. Mas o pessoal da federação não gostou e puxou a minha orelha. Quer saber? Obrei pra eles.

O problema mesmo é que ficaram irritadinhos porque chamei o capitão do time adversário pra uma conversa coercitiva com meus lindos e poderosos bandeirinhas. Nada demais, só uma vasculhada nas gavetas e duas ou três invasões de domicílio pra causar um AVC nos familiares.

E ainda fui obrigado a adiar a conversa porque um jornalista cretino vazou a operação. Quem ele pensa que é? Só quem vaza informação nesse jogo sou eu, meu querido. “Vai se arrepender” – pensei, e aguardei um ano pra dar o troco. Um ano de paciência, mas a hora do sujeito finalmente chegou.

Hoje, meti uma coercitiva nele. O meliante do microfone foi arrancado de casa pelos meus bandeirinhas musculosos (comandados por um hipster todo trabalhado no fascismo) e conduzido para a sede da federação dos juízes. E ainda levei computadores, celular, tablet e aquela parafernália eletrônica do blog. Se ele conseguir sair do cativeiro, vai ficar um bom tempo sem trabalhar.

Os colegas do cara nem reclamaram. São todos meus amigos e vivem das informações que vazo pra eles. Se não fosse por mim, não teriam notícias. Acha que alguém é louco de me peitar nesse bairro?

O futebol é meu esporte.

Sou o dono da bola e faço as regras aqui na várzea.

Os poucos que não se enquadram enfrentam a fúria de Karla, minha esposa, minha protetora e minha blogueira.

Entrem na página que ela fez pra mim no facebook.

Hoje, deixei um vídeo pra vocês. Amanhã, mostrarei as algemas do cativeiro e as fotos do sequestrado para aumentar o número de views.

Eu sei, eu sei: quando um juiz se preocupa com a popularidade, não faz justiça, faz política.

Mas quem se importa?

Isso é apenas futebol.

De bairro.

E de várzea.

Tenho pena de mim.

Felipe Pena é jornalista, escritor e psicanalista. Doutor em literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado pela Sorbonne III, foi visiting scholar da NYU e comentarista da GloboNews. É autor de 15 livros, entre eles o ensaio “No jornalismo não há fibrose”, finalista do prêmio Jabuti.

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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13 Comentários
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  1. adroaldo lima linhares

    22 de março de 2017 11:01 am

    Vamos entrar num acordo? É

    Vamos entrar num acordo? É juiz ou sequestrador?

  2. Ly

    22 de março de 2017 11:29 am

    Simplesmente…

    FENOMENAL!!!

  3. Paulo F.

    22 de março de 2017 11:31 am

    Delicioso !

    Pena que tome cuidado, senão ….

    Lembrei de imediato das Cartas Chilenas, brasileiro é muito bom em rir da própria desgraça, desde a Colonia.

    http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000293.pdf

  4. Jorge Leite Pinto

    22 de março de 2017 11:41 am

    Só se esqueceu de dizer que

    Só se esqueceu de dizer que nunca marca pênalti contra o time de azul…

  5. João de Paiva

    22 de março de 2017 12:26 pm

    A melhor crônica sobre o torquemada paranaense

    Prezados,

    Na semana passada Felipe Pena escreveu uma belíssima crônica criticando Gilmar Mendes sem citar o nome do ‘ministro’ do STF. Hoje ele publica essa obra-prima de humor, fina ironia, crítica polítca e social contundente e inteligente. Pena (e vale o trocadilho) que ele ainda publique textos tão bons em veículos do PIG/PPV. 

     

    1. Roberto Amaral

      22 de março de 2017 4:00 pm

      Que bom que ele publica no PIG!

      Permita-me discordar, João de Paiva,

      Ótimo que ele publica no PIG.

      Aqui, nos deliciamos com o texto.

      Lá no PIG, fico só imaginando a cara dos leitores …

  6. Maria do RJ

    22 de março de 2017 12:33 pm

    Quem é esse? O moro? Só pode

    Quem é esse? O moro? Só pode ser né Felipe Pena! Que horrorrrrrrrrrrrr!!!

  7. Hmagalhaes

    22 de março de 2017 12:42 pm

    No futebol?

    A comparaçao não vale: no futebol não se permite estas violaçoes do “estatuto do torcedor” , lá o moro e o gilmar não teriam vez.

     Vejam o que fizeram com a constituição de 88.

    Dona carmem disse que quer voltar a dar aulas, mas não para meu neto, espero. Ele não vai querer.

     

     

  8. Fábio de Oliveira Ribeiro

    22 de março de 2017 1:11 pm

    Perfeito.
    Você furou a bola

    Perfeito.

    Você furou a bola do dono da bola. 

  9. ze sergio

    22 de março de 2017 1:27 pm

    o juiz…..

    A pergunta a ser feita: onde está a democracia? É este o resultado de 3 décadas de ConstituiçãoEscárnioCaricaturaCidadã? Ditadura travestida de democracia? Décadas após Carandiru, nos surpreendemos com Pedrinha ou Alcaçuz? Surreal. Um Judiciário sem controle. censura e coersão descarados.  Agora com Moro é que nos assobramos? Salários de 600.000 mil reais, vendas de sentenças a criminosos, aposentadorias nababescas como pena por crimes cometidos, muitas vezes estupro ou pedofilia? Universo Paralelo ou Loucura. O que é o Brasil?  

  10. Em defesa da democracia

    22 de março de 2017 1:40 pm

    Perfeito! Será que os

    Perfeito! Será que os burrofascistas entendem ironia?

     

  11. Roberto Amaral

    22 de março de 2017 3:52 pm

    Sen-sa-cio-nal!!!

    Sensacional, e sem nenhum sensacionalismo.

    Nada a acrescentar ou remover.

  12. Roxane

    22 de março de 2017 4:21 pm

    https://www.youtube.com/watch

    https://www.youtube.com/watch?v=Rvq7R9dwJ3U

    Do savonarola como prova de amor para o blogueiro sujo , mas ”gostoso”

     Deve ser por aí  o causo do Torquemada  cafona, inculto e o Dr. ”Freud” exprica”, né Dr. Pena?

     

     

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