O paradoxo do depoimento de Sérgio Moro, por Lenio Streck

"Se Moro interrogasse Moro, imaginem o que aconteceria com um réu se assim falasse...", descreveu o jurista em artigo

Foto: Agência Senado

Jornal GGN – As acusações de Sérgio Moro contra Jair Bolsonaro são um paradoxo, uma vez que se comprovadas incriminam ao próprio acusador. “Se Moro prova o que denunciou de Bolsonaro, auto incrimina-se. Portanto, se vence, perde. Se Bolsonaro fez tudo o que Moro disse que fez, então Moro sabia. Se sabia, prevaricou, no mínimo. Consequência: desdisse-se. Tergiversou”, escreve Lenio Luiz Streck. “Portanto, Bolsonaro pode ficar tranquilo”, completa, em coluna ao Conjur.

Entretanto, até agora, dentro da comunidade jurídica a análise é que “Moro disse nada”. E neste meio termo, outras contradições do ex-ministro e ex-juiz surgem. Uma delas quando Sérgio Moro afirma que destruiu mensagens trocadas com Bolsonaro, alegando não serem importantes. “Como lembrou Pedro Serrano, se algum depoente da Lava Jato falasse isso seria preso cautelarmente por obstruir a investigação.”

“E a delegada e os procuradores aceitaram tudo isso passivamente, reverenciando o depoente. Digam-me: é o depoente quem diz o que é importante para uma investigação?”, questionou.

Outro ponto destacado por Lenio Streck foi o trecho em que Moro esvazia as perguntas feitas pelas autoridades com a resposta “pergumte a ele, o presidente”. “Se Moro interrogasse Moro, imaginem o que aconteceria com um réu se assim falasse…”, descreve o jurista no artigo.

“E pensar que Moro saiu do Ministério recitando o conceito de rule of law. Vejamos então o conceito de rule of law e comparar com os atos do Moro, como juiz e ministro. O rule of law, segundo o conceito clássico, é o que chamamos no mundo continental de Estado de Direito, o mecanismo, processo, instituição, prática ou norma que apoia (sustenta) a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, assegura uma forma não arbitrária de governo e impede o uso arbitrário do poder pelos órgãos estatais. Que tal?”, conclui.

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5 comentários

  1. Moro disse que destruiu parte das conversas com Bolsonaro porque não eram importantes para investigação. Mas que não sabe se o que Bolsonaro fez foi crime, ficando a cargo das instituições decidir.

    Ou seja, ele não sabe o que é crime mais sabe o que não é importante pra investigação?

    Né não?

  2. E como sabia…
    de repente a melhores provas perderam-se com o que foi dispensado

    mas não podemos esquecer que a alta periculosidade de certos bandidos amedronta qualquer um, a ponto de causar ausência de produção de provas no momento do fato (intimidar pela proximidade)

    perda forçada de oportunidades é marca registrada da elite da alta periculosidade

  3. Num dos trechos do depoimento ele diz que começou a destruir conversas e arquivos de seu celular depois que seu aparelho foi rackeado. Isso sugere, na minha inteligencia, que ele se referia aos arquivos vazados na vaza Jato. Se ele não reconheceu os arquivos vazados porque começou a deletá-los?
    Outra questão, a PF possui programas de alta tecnologia que conseguem recuperar os arquivos deletados. Neste caso poderiam se debruçar sobre outras coisas que estão ainda sem reposta com o envio de delegado para colher informações de um do assassinos de Mariele e também da pressão para que o porteiro do condominio mudasse seu depoimento.
    Coisas pequenas que fariam imensa diferença!!

  4. O paradoxo está no capitalismo, sob o qual juízes como Moro atuam. Quem detém riqueza, detém os melhores advogados, que, por sua vez, detém maior probabilidade de obter “justiça” para seus clientes. As contradições e paradoxos do capitalismo tornam-se a cada crise, mais explícitos. Moro é a “justiça” do grande capital, só isso. Destruímos florestas e rios para produzir papel e tinta em que rabiscamos milhões de palavras sobre justiça, que se transformou, tal como as florestas e rios, em mercadoria.

    • Pois é, e quem vai tirar, mais que Bolsonaro, essa turma do poder institucional se eles são precisos, rigorosos cumpridores da ordem institucionalizada, o capitalista? O pecado que Bolsonaro comete, e que a dita classe média esclarecida condena, é expor a verdade sobre o Capitalismo, sem (ou pelo menos com muito pouca) hipocrisia. No estilo “deixa que eu chuto”. Quem vai arrancar de nossos corações e mentes o Capitalismo com que envernizaram nossos saberes, nosso modo de nos relacionarmo-nos?

      Sentimentos são pessoais e intransferíveis…

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