São dois os problemas da Comissão de Verdade: excesso de brilho e carência de suor.
Não há mais problemas com a abertura de documentos. Existe uma profusão de arquivos já disponibilizados, exigindo a leitura de milhares de documentos, a sistemização.
Há um pesquisador incansável na Comissão, o ex-procurador geral Cláudio Fontelles. E há notáveis bem intencionados, mas sem tempo ou disposição para se debruçar sobre os documentos.
Todo notável tem uma atividade principal que lhe toma tempo. E tem maior especialização em atividades midiáticas do que em trabalhos sistemáticos fora da sua área.
Analise-se o papel da Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos. Constituída em meados dos anos 90, jamais tomou qualquer iniciativa. Em todos os momentos, limitou-se a responder a algumas provocações de terceiros.
No início, julgava-se que não andava devido à falta de meios. Depois, constatou-se que era devido à falta de vontade política. Ora, se não tem vontade de obter resultados, qual a razão para seus integrantes permanecerem nos cargos? Apenas vaidade.
Ontem, a presidente Dilma Rousseff criticou a falta de empenho da Comissão da Verdade. Mas jamais houve empenho da própria presidência da República em cobrar resultados. Há muito, a Ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos Maria do Rosário deveria ter providenciado a substituição dos integrantes da Comissão Sobre Mortos, que já possui um amplo histórico de não-resultados e de ampla má vontade com as próprias famílias dos desaparecidos.
Nada foi feito, para não criar problemas com os tais “notáveis”.
Outro episódio, a entrega dos restos mortais do espanhol Miguel Nuet à família, foi quase uma operação clandestina. Esperava-se que ocorresse na cerimônia de entrega do Prêmio de Direitos Humanos. A presidente poderia ter aproveitado o momento para um pedido formal de desculpas do Estado brasileiro à família de Nuet, que morreu por engano, confundido com militante.
O excesso de cuidados acabou restringindo o episódio a uma cerimônia discreta em um salão da Faculdade XI de Agosto.
Essa postura inicial acabou se refletindo sobre os trabalhos da Comissão da Verdade que, ainda, se tornou alvo de disputas mesquinhas de egos.
Com a nova postura de Dilma, espera-se que os trabalhos deslanchem agora, sem nenhum espírito de vingança, mas com o compromisso de clarear episódios soturnos da vida nacional.
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