Procuradores usaram denúncia do sítio contra Lula para desviar foco de Temer e Janot

Vaza Jato mostra que força-tarefa da Lava Jato no Paraná decidiu a data para divulgar denúncia sobre o sítio de Atibaia considerando impacto na mídia e proteção da PGR

Deltan Dallagnol, coordenador da Operação, o ex-procurador Rodrigo Janot. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Jornal GGN – O site The Intercept Brasil divulgou nesta segunda-feira (14) a 21ª parte da série de reportagens produzidas com base em conversas de chats no aplicativo Telegram, trocadas entre os procuradores da Lava Jato, e entregues ao jornal por uma fonte anônima.

Neste capítulo a revelação é que a força-tarefa no Paraná programou a divulgação da denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no caso do sítio de Atibaia, considerando o impacto na mídia e a proteção da Procuradoria-Geral da República.

Naquele momento, maio de 2017, o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, estava sob intensas críticas por causa de um áudio vazado da colaboração premiada dos irmãos Batistas, da JBS, usado como material de denúncias da PGR contra o ex-presidente Michel Temer. Além de haver a suspeita de que o áudio havia sido editado e manipulado, a PGR estava sendo acusada de fazer jogo duplo através do então procurador Marcelo Miller.

Miller era o braço-direito de Janot na Lava Jato até o início de 2017. A partir dali foi contratado pelo escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe, que trabalhava no acordo de leniência da JBS na operação Greenfield.

Em maio de 2017, a PGR aceitou o acordo de delação premiada da JBS. No mesmo dia em que o acordo foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal, os irmãos Joesley e Wesley Batista deixaram o Brasil. O acordo entre a JBS e o MPF também foi considerado excessivamente vantajoso para a empresa prevendo, inicialmente, total imunidade dos delatores: não seriam denunciados criminalmente, nem presos e poderiam se manter no comando as empresas do grupo JBS.

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Em setembro de 2017, entre os novos materiais entregues pelos delatores da JBS à PGR estavam conversas em que Joesley e o diretor de relações institucionais da JBS, Ricardo Saud falam sobre a atuação alinhada com Marcello Miller durante a negociação da delação, aumentando as suspeitas de que Miller teria usado o cargo na Procuradoria-Geral da República e sua proximidade com o então PGR Rodrigo Janot para ajudar os executivos da JBS.

A situação obrigou Janot a anunciar que iria rever as delações da JBS. O acordo de delação foi rescindido em 14 de dezembro e, em poucos dias, Joesley e Saud foram presos. Apesar do quadro, a PGR fez uma segunda denúncia contra o então presidente Michel Temer, com base nas informações da delação da JBS.

A primeira denúncia contra o ex-presidente havia sido feita em junho de 2017. No encaminhamento feito por Janot ao Supremo, Temer e seu ex-assessor e ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures foram acusados de corrupção passiva pelo recebimento de dinheiro ofertado por Joesley Batista e entregue por Saud.

Em junho de 2018, Miller foi denunciado pelo MPF por ter aceitado R$ 700 mil para orientar a JBS e os delatores durante as negociações. Mas, em setembro deste ano, a quarta turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região concedeu Habeas Corpus para o ex-procurador considerando inépcia da denúncia, ou seja, sem sustentação jurídica necessária para seguir adiante.

O que as mensagens trocadas pelos procuradores da Lava Jato no Paraná, e divulgadas pelo Intercept, mostram é que, em maio de 2017, a força-tarefa liderada por Deltan Dallagnol decidiu publicar a acusação contra o ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia para tentar distrair a população e a imprensa das críticas que atingim a PGR.

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A ideia partiu do ex-procurador Carlos Fernando dos Santos Lima no dia 21 de maio de 2017. Porém, alguns dias antes, em 17 de maio, a preocupação dos procuradores era o contrário, que a divulgação da denúncia contra Lula fosse “engolida pelos novos fatos”, como disse Dallagnol.

Em 19 de maio, entre os colegas, os procuradores Carlos Fernando dos Santos Lima e Jerusa Viecili opinam que os áudios divulgados pela PGR das conversas gravadas pela JBS incriminando Temer não eram capazes de derrubá-lo.

Na mesma conversa, Santos Lima comenta sobre a atuação de Miller dizendo que o então procurador “até poderia negociar valores” mas que não deveria ter “tratado do escopo”, possivelmente se referindo ao conteúdo da delação que foi negociada com a Justiça.

No dia 20 de maio, os procuradores expuseram a preocupação de que a situação envolvendo Miller pudesse prejudicar a imagem de todos e atingir a Lava Jato. Eles ainda observaram as condições excessivamente benéficas à JBS no acordo de delação.

Num trecho do diálogo entre Dallagnol e o procurador Athayde Costa, divulgado pelo Intercept, é possível ver que o coordenador a Lava Jato atuou orientando o então PGR Rodrigo Janot para apagar a crise.

Finalmente, no dia 21 de maio, no chat “Filhos do Januário 1”, Carlos Fernando dos Santos Lima apresenta a proposta de “soltar a denúncia de Lula”.

Naquele momento, os procuradores estavam aguardando um laudo da perícia da Polícia Federal que comprovasse a autenticidade das gravações da JBS, usadas no acordo de delação e que acusavam Temer de receber propina. Mas havia um contra-ataque da defesa do então presidente de que o material havia sido adulterado. Temer chegou a contratar o perito Ricardo Molina. Segundo o especialista, o áudio da conversa de Joesley Batista com o então presidente Temer era “vagabundo”, questionando a autenticidade.

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A preocupação de Dallagnol era que a divulgação da denúncia contra Lula fosse abafada por alguma nova operação. Por isso, procurou a força-tarefa de Brasília para saber se, naquela semana, estava prevista uma “festa”, como os procuradores se referiam às operações da Lava Jato.

*Clique aqui para ler a matéria do Intercept na íntegra.

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3 comentários

  1. Estão demorando muito para colocar essa corja de LAVAJATEIROS CRIMINOSOS NA CADEIA,
    INCLUSIVE O JANOT, QUE ALÉM DE TUDO CONFESSOU QUE TEM ÍNDOLE DE ASSASSINO.

  2. “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”. – Geraldo Vandré

    “Contra todos e contra ninguém
    O vento quase sempre nunca tanto diz
    Estou só esperando o que vai acontecer”

    Capital Inicial

  3. Todos os diálogos combinam com uma condenação antecipada…
    uma denúncia trabalhada dessa forma não serve nem ao seu propósito e mesmo assim foi aceita

    sinal de que a condenação já estava garantida

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