Antônio Maria e a Bahia
por Rômulo de Andrade Moreira[1]
Antônio Maria foi um dos cronistas mais importantes de sua época, ao lado de outros escritores célebres, como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Era, sem dúvidas, um grande talento, morto precocemente, aos 43 anos, em Copacabana, vítima de um infarto fulminante.
Além das crônicas, trabalhou em rádio (onde tudo começou, aos 13 anos, em Recife, como locutor esportivo) e televisão, além de ter composto belas canções da música popular brasileira; autor, por exemplo, do clássico samba-canção “Ninguém me ama”, gravado em um compacto por Nora Ney, em novembro de 1952, que resultou no primeiro Disco de Ouro da história da fonografia brasileira, gravado também por Nat King Cole; além de ser levado às telas do cinema com o filme Carnaval Atlântida.
Nascido em Recife, Antônio Maria morou e trabalhou em Salvador, no início de 1945, como diretor artístico da Rádio Sociedade da Bahia, que pertencia aos Diários Associados, do paraibano Assis Chateaubriand, por décadas o maior conglomerado da imprensa brasileira, formado por jornais, rádios e televisões.
Na Rádio Sociedade da Bahia, então a emissora de maior audiência do estado, Antônio Maria reformulou toda a programação, além de promover concursos de música popular, revelando nomes como Riachão e Batatinha, ícones do samba da Bahia e do Brasil.
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Dois anos depois, em 1947, ainda em Salvador, assinou uma coluna esportiva no Diário de Notícias: chamava-se O comentário de Antônio Maria; e chegou a concorrer, sem sucesso, ao cargo de vereador.
Durou três anos a estada do negro pernambucano Antônio Maria nas terras da Bahia, sendo transferido para o Rio de Janeiro em abril de 1948, como diretor artístico da Rádio Tupi (a principal emissora do grupo de Chatô) e, depois, da Rádio Tamoio.
O período passado na Bahia foi inesquecível para Antônio Maria, rendendo crônicas memoráveis. Numa delas, Bahia, galinha e festas, publicada na Revista Manchete, em 11 de março de 1953, ele escreveu: “Se Deus ainda me quiser na Bahia, nem que seja por umas horas, eu quero ir buscar uma porção de saudades naquele canto da Barra.”
Nesta mesma crônica, ele disse que “nenhuma cidade do mundo tem tanta festa de rua. E todas elas pertencem ao povo, à gente mais tipicamente baiana, a ponto de manter sempre como espectador: jornalista, gente de dinheiro, poeta ou turista que, nelas, queiram tomar parte. É necessário ser pobre, baiano e, se possível, negro, para conquistar o posto de personagem numa procissão do Bom Jesus dos Navegantes ou na imensa noite campal da Senhora Sant´Ana, no Rio Vermelho.” Afinal, como escreveu, “as festas de rua da Bahia são uma longa história a contar.”
Um mês depois, na mesma revista, na edição de 18 de abril, voltou Antônio Maria a lembrar da Bahia, especialmente dos candomblés e dos pais de santo. No texto Bahia, candomblés e pais de santo, ele contou o episódio que envolveu a embaixatriz dos Estados Unidos no Brasil, uma tal senhora Berle, “muito interessada por tudo que fosse arte, seita, festejo e presença, enfim, do negro na ´boa terra`.” Sem conseguir chegar ao terreiro do pai de santo Ciríaco em razão de uma tempestade que caiu em Salvador e alagou o caminho até o terreiro, a mulher do embaixador, “muito cansada, desistiu de vencer a tempestade, recolheu-se ao hotel e pediu, se possível fosse, que organizassem uma macumba completa nos salões do Baiano de Tênis ou da Associação Atlética, para que ela pudesse ver tudo, sem as agruras dos caminhos.”[2]
O pedido da embaixatriz desagradou a gregos e a troianos, pois “os pais de santo da Bahia se negaram a deixar seus terreiros e transformar sua religião em show para americano achar graça”; mas, “também a sociedade, as famílias ´de bem` da Graça e da Barra, protestaram contra a possibilidade de trazer mandinga, cantoria e suor negro para os salões, onde os seus longos vestidos alisavam o assoalho, ao som de valsas e de blues.” Resultado: “a visitante foi embora sem ver candomblé e, naquela noite fria, molhada e lamosa, contemplávamos de trono, no local reservado aos convidados mais ilustres, a sessão do terreiro de Ciríaco.”
Além de Ciríaco, Antônio Maria recordou Joãozinho da Gomeia, pai de santo do “mais famoso candomblé da Bahia”, e contou mais uma história genial: “Numa noite de Iansã, fomos vê-lo, em grande montagem, numa das noites mais festivas de sua roça, em São Caetano. Com os trajes de Santa Bárbara (Iansã), Joãozinho dançava de olhos fechados, fascinando uma plateia de turistas, poetas, jornalistas e políticos da UDN, em trânsito por Salvador. Quando acabou de dançar, veio caminhando como um sonâmbulo e, quando todos lhe solicitavam palavras de conselho, explicava, em nagô, que não era Joãozinho e sim Iansã, e que não sabia falar em brasileiro.”
Joãozinho da Gomeia, então, aproximou-se de Antônio Maria e disse-lhe: “Vamos lá na camarinha tomar uma Brahma”; Maria entrou com ele “e o pai de terreiro, livrando-se dos sintomas de santo, tirou uma cerveja quente de debaixo da cama, para que eu e Santa Bárbara bebêssemos no mesmo copo.”
Nesta mesma crônica ele conta também a sua derradeira conversa com o pai de santo Manezinho, de Brotas, de outro “terreiro de muita fama e frequência.” Certo dia, Antônio Maria recebeu um recado de Manezinho para vê-lo imediatamente; indo, meia hora depois de receber o recado, soube do que se tratava: o pai de santo disse-lhe, “com os olhos rasos d´água, que a sua situação era muito séria. Só naquelas redondezas, havia mais de trinta serviços contra ele, querendo a sua saída da Bahia, o mais rapidamente possível e, se isto não fosse muito viável, a sua morte seria a satisfação de muitos.”
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Preocupado e contrariado, Antônio Maria perguntou ao pai de terreiro se ele o aconselhava a procurar um advogado, obtendo como resposta que “advogado não tem nada a ver com macumba. Depois, sem cobrar nada, deu-lhe umas pipocas e um breve poderosíssimo igual ao qual só existia um: o que foi mandado ao sr. Getúlio Vargas, depois do golpe de 29 de outubro.”
Não deu outra: ele não morreu na Bahia, mas trinta dias depois deixava Salvador “condenado a todas as suas lembranças e saudades, como até hoje vivo, sem esperanças de revê-la, de respirar-lhe o vento macio da Pituba, de pisar-lhe o chão de ladeiras que sobem e descem, levando e trazendo mistérios, mostrando e escondendo doçuras.”
Quando Neruda visitou Salvador, em 1946, “estava linda a Bahia, o céu azul todos os dias. As comidas de azeite eram de ouro, duas, três vezes por dia. O mistério da lagoa de Itapuã amanhecia cada vez mais indecifrável.” A visita do poeta chileno à Bahia foi descrita na crônica Neruda e a Bahia, publicada em 06 de fevereiro de 1964, em O Jornal.
Escreveu Antônio Maria: “Neruda chegou e se reuniu a nós. Grande, os olhos sonolentos, o braço fraterno por cima dos nossos ombros. Chamava-me de ´me vecino`, porque nossos quartos eram parede-meia e lá íamos nós, pelas ruas do mercado, a comprar enfeites, colares, santos e abecês de poetas populares, que tratavam Hitler com as honras de Satanás.”
Depois, quando soube da morte da maior quituteira da Bahia, Maria de São Pedro, Antônio Maria, numa crônica publicada em O Globo, em 04 de junho de 1958, escreveu: “Maria de São Pedro, os dentes e o branco dos olhos mais brancos que eu já vi. Sabia do dendê todos os milagres e consequências. Quem passasse na Bahia, nós levávamos para lá. Um dia foi o Braga, com Tônia Carrero (naquele tempo, Mariinha) e Aníbal Machado. Voltavam da Europa e traziam as primeiras notícias do existencialismo. Contavam de Sartre, como ele era, onde parava, quem o seguia.”
A Bahia era, pois, nas palavras de Antônio Maria, “uma escala obrigatória, um porto de mistérios, um cais de violeiros, uma feira de contadores de histórias, um cenário de Jorge Amado, uma religião musical de Caymmi, um prato de dendê no sorriso branco da Maria de São Pedro.”
Esta crônica, Um botão de rosa a Maria de São Pedro, terminava, liricamente, assim: “Maria fez, com o seu dendê, o que fez Caymmi em sua canção, Pancetti em sua tinta, Jorge Amado em seu romance, Marta Rocha em seus olhos azuis… Outros muitos, com o coração tocado pelas emoções do céu e do chão, do homem e da cantiga, na cidade indecifrável e amada. Recado errante: leve um botão de rosa a Maria de São Pedro.”
Depois de deixar a Bahia, esse grande cronista brasileiro voltou a Salvador especialmente para a inauguração de uma praça que levava o nome de um de seus melhores amigos: Dorival Caymmi; na crônica Discurso a Caymmi, publicada na Revista Manchete, em 18 de julho de 1953, escreveu Maria:
“Volto e, perante o luar, o povo e a praia de Itapuã, me penitencio de ter ido, quando a grande beleza era esta e só aqui seria possível a tão desejada reconciliação comigo mesmo. Ninguém se encante quando o navio passar de noite, carregado de luzes, chamando para longe… Ninguém se encante e ninguém vá: fique na Bahia para que, depois, num tardio e irremediável arrependimento, não venha deplorar o que fez diante dos que ficaram.”
Tais palavras, segundo Maria, não se deviam ao seu deslumbramento pela volta, mas “eram para o companheiro e irmão, poeta e cantor, o suave Dorival Caymmi, cujo nome, num magnífico gesto dos pescadores, acabava de ser escrito naquela praça.”
Lembrou, com saudade, “que a Bahia é bonita, que o seu povo é o suave, crente, bem-humorado, heroico e festeiro povo de todas as doçuras baianas. Andai pelo mundo em fora e, em toda parte, numa confissão de mulher ou de poeta, haverá sempre um grande desejo de conhecer o Bonfim, de contemplar o silêncio feiticeiro da Lagoa do Abaeté, de sentir a exuberante autenticidade do casario baiano, com o azulejo de suas fachadas e o jacarandá sisudo dos seus balões.”
Então, dirigindo-se diretamente para o homenageado, disse: “Meu querido e fraterno Dorival, deixa que me orgulhe e me sinta mais gente pela ventura de contigo ter andado, de mãos dadas, por caminhos duros ou macios, em horas de riso ou de tristeza. (…) Quantas e quantas vezes, sem saber o que fazer de mim e de minha inquietação, fui buscar em tua palavra e em teu silêncio a calma e o destemor para continuar vivo.”
Estas e outras crônicas fazem parte de uma antologia publicada no ano passado pela Editora Todavia, intitulada Vento vadio: As crônicas de Antônio Maria, obra organizada por Guilherme Tauil, responsável também pela minuciosa pesquisa (foram selecionados, ao todo, 184 textos) e pela introdução.
É um livro que vale a pena ser lido, para se saber (ou se descobrir) que Antônio Maria deve ser lembrado como um dos maiores cronistas do Brasil, de todos os tempos…
[1] Rômulo de Andrade Moreira, Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia.
[2] O Bahiano de Tênis e a Associação Atlética da Bahia eram os clubes da elite baiana, onde “preto não entrava nem pela porta da cozinha”, como escreveu Gilberto Gil, na canção “Tradição”.
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