Como nasce um romancista
por Homero Fonseca
Pra se livrar do discípulo que todo dia lhe aporrinhava, levando-lhe um conto novo para avaliar, Cesare Pavese deu um conselho a Italo Calvino que mudou a história da literatura no século 20.
Com a retirada dos alemães e a derrocada do fascismo, ao fim da Segunda Guerra Mundial, a vida cultural na Itália começou um novo processo de renascimento, como tudo o mais no país mediterrâneo. Em Turim, a agitação se concentra em torno do escritor, poeta e tradutor Cesare Pavese (1908-1950) e da Editora Einaudi, que publicaria as obras de Antonio Gramsci.
Um jovem – que participara da resistência contra a ocupação alemã, cursava Letras, morava num sótão sem aquecimento e tentava ganhar a vida como jornalista – escreve contos furiosamente. Conseguira a publicação de um na revista Aretusa, de Roma, por gestão de Pavese, um nome já respeitado nos meios literários, apelidado pelos amigos de “o ditador editorial” por sua função de editor na Einaudi.
O novato também teve uma de suas histórias curtas publicada no semanário Il Politecnico, de Milão. Produzia freneticamente (por seu jeito nervoso, ganhou de Pavese o apelido de Esquilo) e, mal terminava um conto, corria para a editora a mostrá-lo ao seu protetor. Super ocupado, Pavese arranjou um jeito de não ser procurado diariamente no trabalho:
– Ô rapaz, por que tu, ao invés de cometer tantos contos, não escreves um romance? É mais fácil conseguir o reconhecimento literário montado no corcel romanesco do que tangendo um rebanho de ovelhas contísticas.
E assim Italo Calvino (1923-1985) se tornou um romancista.
Um ano depois (1947) entregou os originais de Il sentiero dei nidi di ragno (A trilha dos ninhos de aranha), que Pavese passou ao dono da editora, Giulio Einaudi, apesar de fazer algumas restrições ao texto. Einaudi aprovou entusiasticamente a obra, cuja primeira edição vendeu seis mil exemplares, um relativo sucesso para a época.
Calvino escreveu 14 livros de ficção (a grande maioria romances) e três de ensaios, tornando-se um dos grandes escritores do século 20. Entre suas obras-primas estão as narrativas O visconde partido ao meio (1952), Amores difíceis (contos, 1970), Cidades invisíveis (1972)e Se um viajante numa noite de inverno (1979).
Se um viajante… é uma aula de escrita primorosa: usando artifícios vanguardistas, inclusive a ausência de enredo (na realidade, trocando o enredo 10 vezes, isto é, a cada capítulo, quando o livro vira outro livro), realiza uma bela obra – instigante, ousada, multifacetada e, para um leitor minimamente qualificado, inteligível -, ao contrário dos maçantes exercícios destinados aos críticos, cometidos por escritores loucos por encontrar tesouros submarinos, mesmo sem saber nadar.
Homero Fonseca é pernambucano, escritor e jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor da revista Continente Multicultural, diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor chefe do Diario de Pernambuco e repórter do Jornal do Commercio. Foi também professor de Teoria da Comunicação e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Atualmente, dedica-se à literatura e mantém um blog em que aborda assuntos culturais.
Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN
GABRIEL
5 de fevereiro de 2022 8:16 pmA rigor, Calvino não escreveu nem publicou “romance” algum. Todas as suas narrativas longas são classificadas como “novelas”. O autor do artigo perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado, mas resolveu dar uma “carteirada” linguística e errou feio… o mais triste é outros darem espaço para a publicação desse tipo de absurdo sem nenhuma revisão ou leitura crítica. Muito legal que sua “mini-biografia” tenha 14 linhas, Homero. Citar “prêmios jornalísticos” como critérios de merecimento para suas “críticas literárias” demonstram o tamanho da sua pretensão e egoísmo. Resumindo: sobre crítica literária você é tão capacitado como um Bolsonaro da vida. Citar que “escreveu um livro” numa minibiografia fake não te faz um escritor, muito menos um crítico literário. Volte pra academia e apague esse texto escroto.