16 de agosto de 2026

João Bosco, o mestre-sala contra a censura e o cancelamento, por João Batista Damasceno

Com os padrões do moralismo e do identitarismo que nos tentam impor nem mesmo os livros religiosos poderão ser editados.
João Bosco - Divulgação

João Bosco defende sua música “Gol Anulado” contra acusações de incitação à violência e censura.
O autor critica o identitarismo e o cancelamento que ameaçam a liberdade de obras literárias e artísticas.
O texto alerta que censura e cancelamento não promovem mudanças sociais, mas mantêm estruturas patriarcais.

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no Resistência Lírica

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João Bosco, o mestre-sala contra a censura e o cancelamento

por João Batista Damasceno

Falando de uma das suas composições, João Bosco expôs o constrangimento a que lhe querem submeter em razão da letra de uma das suas notáveis músicas, Gol Anulado. Trata-se de uma crônica e não uma recomendação de violência contra a mulher, mas nem todo mundo tem a capacidade de entender uma obra literária ou artística sem a literalidade que contém.

Com os padrões do moralismo e do identitarismo que nos tentam impor nem mesmo os livros religiosos poderão ser editados. Na primeira carta de São Paulo aos coríntios o difusor do cristianismo nos versos 34 e 35 do capítulo 14 escreveu: “conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja.” Não há quem proponha sejam as bíblias queimadas, ocultadas ou que no rodapé de cada qual venha uma nota explicativa de que isto não deve ser considerado. O contexto histórico daquele texto é compreendido e ninguém seria capaz de trazer para o tempo presente aquela recomendação do Santo, a não ser um fanático literal ou fundamentalista. Mas este caso mereceria uma análise à luz da luta antimanicomial.

Em data recente comprei num sebo o livro Lolita de Nabokov. Falei, zombeteiramente, ao livreiro que o fazia a fim de evitar que lhe quisessem prender sob a acusação de instigação à pedofilia. Na semana seguinte ele, jocosamente, me entregou o livro Otelo, de Shakespeare. Disse-me para igualmente comprá-lo, a fim de retirá-lo de circulação pois alguém poderia acusá-lo de propagação do feminicídio. Em outra oportunidade eu já havia adquirido, também de Shakespeare, A Megera Domada, obra que pode ser considerada misógina. Nenhum exemplar adquirido se destinou à destruição.

A questão não se esgota com uma ou outra obra. O Mercador de Veneza pode ser acusado de antissemitismo. O livro clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, publicado em 1719, pode ser retirado das prateleiras por narrar a escravização do indígena batizado de “Sexta-feira”, dia da semana no qual foi resgatado, cujo nome original e cultura nativa foram apagados pelo protagonista. Se a sanha canceladora se propagar as estantes das livrarias e bibliotecas ficarão vazias e os editores e livreiros queimados em praça pública.

Os mesmos grupos que cancelam pessoas e censuram manifestações artísticas e literárias, com fundamento no identitarismo, legitimam os proibidões dos bailes da periferia, sob o fundamento de que os meninos que os cantam não fazem apologia dos fatos que narram e que as instituições formais classificam como crime. Para eles o que os meninos cantam expressa apenas a narrativa da realidade na qual estão inseridos, com o que concordo. Mas, por coerência, tal raciocínio deve ser estendido a toda obra.

Não se pode debitar tais comportamentos ao segmento ideológico classificado como esquerda. As palavras têm conceitos próprios e mesmo quando empregadas indevidamente não transformam o fenômeno no nome que lhes é atribuído. Um limão chamado de tangerina jamais será doce. Os hippies cabeludos e com vestimenta alternativa com os quais a ditadura empresarial-militar implicava, chamava de comunistas e lhes cortava os cabelos levados para delegacias nada tinham de comunistas, nem estavam querendo saber do que faziam os torturadores nos porões dos quarteis.

A pauta de costumes, limitada a si é um engodo. Essas dinâmicas podem apontar falhas sistêmicas, mas o foco exclusivo na identidade dos grupos fragmenta a sociedade e desloca os problemas estruturais de uma sociedade dividida em classes para questões culturais e mascara o fundamento da exclusão social situada na esfera econômica para a esfera individual. O identitarismo e a pauta de costumes é forma de cuidado com a árvore, desconsiderando que está na floresta. E não sem razão foi incorporado ao sistema e acolhido pelo mercado. Mas há seguimento que os qualifica como esquerda. Melhor seria se fosse qualificado como “ex-querda”
Esquerda é expressão que surgiu nas assembleias após a Revolução Francesa de 1789 e designava aqueles que se colocavam fisicamente neste campo do prédio e pugnavam por mudanças na estrutura daquela sociedade. Os jacobinos e seu radicalismo sob a liderança de Robespierre estavam dentre este segmento. Os mais conservadores se colocavam à direita nas reuniões. Além das reformas liberais advindas com a Revolução Francesa depois da ascensão da classe burguesa em substituição à nobreza, os operários viram que não bastavam liberdades civis e que quiseram mais, ou seja, participação na riqueza socialmente produzida.

Um dos mais espetaculares movimentos do Século XIX foi o movimento comunista que varreu a Europa de ponta a ponta e é responsável pela conquista do direito ao voto universal e formação dos partidos políticos organizadores de correntes de opinião. Naquele período, até movimentos conservadores que atingiam interesses da nova classe dominante eram nominados de comunistas, tal como hoje os identitaristas e propagadores de pautas de costumes são qualificados como esquerdistas. Para esclarecer, os comunistas lançaram um manifesto em 1848 dizendo o que eram, pensavam e queriam, a fim de possibilitar a distinção de outros movimentos que na verdade atuavam pela manutenção da ordem injusta. O manifesto começa com o seguinte esclarecimento: “Um fantasma ronda pela Europa. É o fantasma do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este fantasma: o Papa e o Czar, Metternich e Guizot, radicais francesas e a polícia alemã. Todos os partidos de oposição foram vilipendiados pelos seus adversários como comunistas. Igualmente tais partidos de oposição arremessaram de volta, tanto contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus adversários reacionários, a recriminação estigmatizante do comunismo. Deste fato duas coisas podem ser concluídas: O comunismo já é reconhecido por todos os poderes europeus como um poder e já é tempo dos comunistas exporem abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objetivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda do fantasma do comunismo e para tanto lançam um Manifesto do próprio para dizerem o que são e se distinguirem daqueles que não o sendo são chamados como tais. Assim, com este objetivo reuniram-se em Londres comunistas das mais diversas nacionalidades e delinearam o Manifesto seguinte, que é publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês”. O que tal manifesto dos comunistas fez foi distinguir-se daqueles que, embora buscassem manter a ordem, eram qualificados com seu adjetivo.

A censura a obras artísticas e literárias, a afirmação da individualidade identitarista e a política de cancelamento não têm proposição transformadora da estrutura social. É uma forma sofisticada de manutenção da ordem, notadamente pelos herdeiros e herdeiras do patriarcado que fundamenta a nossa formação social. Tal como Clarice Lispector na crônica Mineirinho, “O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno”. E se alguém tiver a ideia de fazer fogueiras para queimar letras de música, poemas, livros, CDs ou discos, por incompatibilidade com o identitarismo e politicamente correto, por favor, me inclua fora dessa. Da Itália de Savonarola à Alemanha de Heinrich Himmler, quem destruía obras de arte e livros não seria boa companhia para mim.

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 25/07/2026. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/07/7281843-joao-batista-damasceno-joao-bosco-o-mestre-sala-contra-a-censura-e-o-cancelamento.html

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  1. Zezeca Brasil

    28 de julho de 2026 6:04 pm

    João Bosco reagiu a uma cobrança para que ele não cantasse mais em seus shows uma música que, supostamente, naturalizaria a violência contra a mulher (“Gol Anulado”). Alguns sugeriram que ele modificasse a letra (o que não poderia, pois a autoria é de Aldir Blanc, um dos maiores poetas da MPB, infelizmente já falecido). Choveram exemplos de autores que alteraram seus versos ou retiraram de seus repertórios músicas com referências discriminatórias, desde Sidnei Magal (Se te agarro com outro de mato) a Luiz Caldas (Fricote).

    João contestou com um argumento um tanto óbvio (mas não “ululante”, para alguns). Ora, a letra é apenas uma crônica poética sobre uma realidade existente, e assim deve ser lida e interpretada. Impaciente, acusou os críticos de estarem doentes, precisando se tratar. Talvez aí tenha exagerado na resposta, claro, mas isso fez o mundo cair sobre a cabeça dele, com uma saraivada de críticas e agressões grotescas. Até de fascista foi chamado nas redes sociais.

    Bosco musicou várias poesias de Aldir em vários álbuns antológicos. Dois deles, simplesmente geniais: “Caça à Raposa” e “Galos de Briga”. Neles encontramos várias crônicas sobre a questão feminina que deveriam ser lidas e ouvidas em conjunto. Ali encontramos histórias sobre a realidade da mulher pobre e suburbana, bem diferente do universo das garotas de Ipanema. São letras que falam da jovem abusada e condenada a ser mãe solteira (“Violeta de Belford Roxo”); da dolorosa solidão da mulher dependente do marido em “Bodas de Prata”; da outra que, também frustrada, reage infernizando a vida do cônjuge a ponto dele pedir a separação em “Incompatibilidade de Gênios”; mas também do marido resignado diante de uma mulher independente que volta dos cafundó do judas com a roupa rasgada, que ele tem vontade bater mas não o faz porque reconhece que “ela é maior e vacinada” (“Feminismo no Estácio”) . A música que causou a polêmica, “Gol anulado”, é apenas uma entre muitas dessa genial dupla de compositores que retratam a realidade de uma mulher oprimida que, nesse caso específico, reage corajosamente gritando “-Mengo” e, por conta disso, sofre uma abominável violência física.

    Disseram que Bosco envelheceu mal, por insistir em manter a tal música em seu repertório. Cabe refletir sobre o que faz uma música resisitir ao tempo. Walter Benjamin escreveu que todo objeto de cultura é um objeto de barbárie. Em outras palavras, qualquer criação humana reflete a época em que foi concebida. Ela vem carregada de preconceitos, valores e violências de seu tempo. Mas não somente isso. Ela sobrevive pela sua poesia intrínseca, pelas emoções que ela desperta e pelas provocações que nos obrigam a pensar e repensar a nossa realidade. Traz em si algo que exige de nós uma leitura menos apressada. Se julgássemos de forma rigorosa a produção literária e artística do passado poucas criações sobreviveriam ilesas. Condenar sumariamente uma música a uma espécie de index pode não ser a melhor forma de nos relacionarmos com essas criações.

    Claro, ninguém está livre de uma escorregada feia. O genial Noel Rosa, por exemplo, num momento execrável de sua obra musical, compôs “Mulher indigesta”, sobre uma tal que mereceria levar um tijolo na testa! Uma composição merecidamente esquecida. Assim como ninguém canta nas rodas de samba “Amor de Malandro”, do Ismael Silva, que afirma estupidamente que o homem malandro só bate em mulheres que ama.

    Não é o caso da obra litero-musical da dupla Bosco/Blanc, um patrimônio da nossa cultura que perdurará por muitos anos. Temos total liberdade de criticá-las. Porém acusá-las de alguma cumplicidade com as mazelas do machismo e da misoginia é um pouco demais.

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