Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade, por Sebastião Nunes

Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade

por Sebastião Nunes

Enquanto os livros antigos não são reeditados, cato de vez em quando alguns textos que publico como amostra e, sem um pingo de vergonha, certo de sua atualidade nestes tempos de golpe e de golpistas. Hoje são duas páginas do STA.

 

SABE QUEM VEIO PARA O JANTAR?

Lá dos confins de Juazeiro, Padim Ciço veio vindo pro Rio de Janeiro e, mal chegado, com sua batina velha e seu bordão arretado, foi saudado por banda de música e discurso na saída da rodoviária Novo Rio. Sem perguntar como nem por quê, desfilou em carro aberto pelas ruas da cidade, percorrendo o seguinte roteiro festivo:

Avenida Rodrigues Alves – entusiasticamente ovacionado por bêbados matutinos, garis retardatários, putas e estivadores sonolentos, marinheiros de ressaca, passantes comuns.

Praça Mauá – longamente aplaudido por paraíbas de todo o Nordeste: desdentados de Pernambuco, esfomeados do Ceará, estropiados de Alagoas, aleijados da Paraíba – e todos esses incontáveis ados que narram a crônica dos deserdados e a inépcia dos governantes.

Avenida Rio Branco – saudado carinhosamente pela infinita multidão dos pra-lá-e-pra-cá, sobreviventes da manhã que lutam desesperados para alcançar a sobrevivência da tarde e, quem sabe, se Deus ajudar, comemorar diante da tevê a festa de mais um dia de existido.

Aterro do Flamengo – o coro das buzinas e a charanga dos batedores encheram as janelas da Praia do Flamengo e da Avenida Rui Barbosa, interrompendo durante vários minutos as diversas peladas furiosamente disputadas na areia morna.

Praia de Botafogo – raros turistas expostos ao mar de merda aplaudem tanto quanto os raros turistas expostos ao tédio dos botequins. Geral engarrafamento até a boca do túnel.

Rua Mena Barreto – a procissão de carros alugados toca buzina ritmada em tempo de samba, ai, até a Rua Dezenove de Fevereiro, onde o cortejo entra e segue até o portão que abre o muro amarelo da STA à curiosidade popular.

STA – no portão, braços abertos em infinito entusiasmo, recebe Padim Ciço um sorridente Diretor Técnico para o Rio de Janeiro. Sim, senhor. O lançamento da nova geladeira, pelo menos até agora, tem sido o mais feliz, retumbante e absoluto sucesso.

 

ABRA SEU CORAÇÃO E DEIXE O AMOR ENTRAR

O pessoal da STA se divide em quatro categorias distintas, a saber:

1) EXECUTIVOS (nove): habitantes do Olimpo Inferior, temem na mesma proporção os Amos (que podem desfechar-lhes um pontapé na bunda sem maiores explicações) e o pessoal de criação (que costuma, ao menor pretexto, soltar aquela risadinha de escárnio e escarmento). Descontam tudo nas costas do pessoal miúdo.

2) DUPLAS DE CRIAÇÃO (três): deslumbrados pavões misteriosos, andam pelos corredores como se por belas passarelas e fecham-se em suas claras salas refrigeradas como se deuses elaborando planos de criação de mundos.

3) PESSOAL MIÚDO (setenta e nove): os pobres e humilhados, os sedentos de vingança, os carentes de amor, os faltos de tudo e falhos em tudo, os desdentados, os que não podem nem ao menos rir sem botar a mão na boca. Só jogam bem no próprio campo, mas ainda assim é muito raro ganharem um jogo.

4) AMOS (dois): Presidente e Vice-Presidente. Os donos da bola, das camisas, do campo e do apito. Se ódio matasse, eles nem ao menos teriam nascido.

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