Duas franco-atiradoras russas da Segunda Guerra Mundial preparam-se para morrer, por Sebastião Nunes

A guerra seguia seu curso de extrema violência, ambas eram estudantes, ambas se inscreveram como voluntárias para os grupos de snipers, ambas amavam seu país e seu povo e queriam ajudar.

Duas franco-atiradoras russas da Segunda Guerra Mundial preparam-se para morrer

por Sebastião Nunes

Natasha Kovshova e Mariya Polivanova lubrificavam seus rifles Mosin-Magant com mira telescópica diante de uma isbá. Enquanto isso, e como nada tinham para fazer exceto esperar, conversavam.

Era uma noite branca, em fins de junho, e o acampamento das garotas estava quase silencioso. A taiga, com suas coníferas de tronco esguio, ficava nos arredores de São Petersburgo, quase às margens do rio Neva, de cujas águas o ronco difuso chegava até as moças, no quase silêncio iluminado da noite branca.

Mariya completara 19 anos; Natasha pouco passava de 21. Eram quase meninas, mas contavam, as duas, cerca de 300 nazistas mortos em sua árdua, perigosa e muitas vezes solitária tarefa de atiradoras de elite, as franco-atiradoras, ou snipers, como eram chamadas, sendo às vezes elogiadas, outras insultadas, mesmo entre os soldados.

Como se explicava sua presença? Muito simples: a guerra seguia seu curso de extrema violência, ambas eram estudantes, ambas se inscreveram como voluntárias para os grupos de snipers, ambas amavam seu país e seu povo e queriam ajudar.

 

ENQUANTO O TEMPO VOA

– Quer um copo de chá? – perguntou Mariya, pousando a coronha e descalçando as luvas. – Estou com vontade de preparar um pra mim.

– Quero – concordou Natasha. – Com bastante açúcar.

Ambas riram, porque não havia chá nenhum. Nem açúcar. O máximo que havia era pepino em conserva e uma garrafinha de vodka pela metade.

– Mudei de ideia – disse Mariya. – Acho que vou preferir uma sopa de peixe, só não consigo decidir qual peixe.

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– Beluga, pode ser? – continuou a brincadeira Natasha.

– Acho que sim – ficou em dúvida Marya. – Não tem melhor?

– Claro que não – protestou Natasha. – Esse é o melhor que existe pra sopa!

 

COM AS TRIPAS DE FORA

Algum tempo depois, num dos momentos mais dramáticos da guerra, Roza Shánina, de 20 anos, camarada de outro grupo, receberia na barriga os estilhaços de uma granada e cairia de bruços, com os intestinos de fora.

Rosa já havia matado mais de 50 nazistas. Seu lema brutal era “Cada cartucho, um nazista!” – e não estava brincando. Só não teria mais tempo para praticar sua ótima pontaria. Embora a guerra estivesse no fim, Roza ainda lutava, mas sua luta era agora desesperada, tentando prender nas mãos os intestinos que lhe escorriam entre os dedos ensanguentados em direção à relva, para a qual lentamente escorregara.

– Matem-me! – implorou Roza. – Matem-me agora!

Ela não suportava mais a dor e a náusea e tinha apenas 20 anos, e era uma garota bonita, e tinha sonhos igualmente bonitos.

Com o rosto enterrado na relva, com a cara suja de terra e de sangue, a sniper Roza perdeu a consciência.

 

O MOMENTO FINAL

Não foi naquela noite branca nem foi ali, numa isbá perto de São Petersburgo e quase às margens do Neva.

Foi no dia 14 de agosto de 1942, lá se vão mais de 60 anos, em Sutoki-Byakovo. E não foi num momento de descanso, descontração ou brincadeira. Estavam em guerra, lembra-se? Tinham se oferecido para lutar.

Cercados por um grupo de soldados alemães, elas e um camarada franco-atirador resultaram feridos no primeiro ataque. Render-se seria submeter-se a estupro, tortura e morte, pela ordem, a mais antiga sequência de vingança em todas as guerras e em todos os combates de todas as guerras.

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O camarada esgueirou-se no tumulto e conseguiu escapar. Elas não tinham como nem para onde. Então esperaram. Tiraram o pino de suas granadas e esperaram. Quando os soltados nazistas avançaram para o assalto final, ambas fizeram explodir as granadas e se fizeram explodir, fizendo explodir com elas os atacantes.

 

TERMINA O TERROR

Em 1945 a guerra acabou. Elas se tornaram heroínas e, entre outras homenagens, foram impressos selos em sua honra. Hoje, como aquelas garotas de 19, 20 e 21 anos, todas as franco-atiradoras estão igualmente mortas. São apenas memória e história.

Parece haver duas exceções: é possível que Nina Lobkovskaya ainda esteja viva, aos 94 anos, e, aos 90, Ekaterina Terekhova também, pelos dados mais recentes que pude obter.

O mais importante, no entanto, é que sua luta foi por uma boa causa: a defesa de seu território contra a agressão nazista. Em tempos sombrios como os de hoje, saber que as mulheres russas, incluindo as três relembradas neste texto, tiveram papel de destaque na defesa de seu país, serve de alento e nos reanima.

Se a luta é justa, é importante lutar, qualquer que seja o preço a pagar.

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1 comentário

  1. Houve grande protagonismo das mulheres russas na Grande Guerra Patriótica nas unidades femininas de aviação do Exército Vermelho. Existe um livro sobre isso, traduzido para o português, “Rosa de Stalingrado”, que conta a história da heroína soviética Liliana Litvak, escrito por Valérie Bénaïm e Jean-Claude Hallé, da editora Record. Embora centrado em Litvak o livro fala de muitas outras mulheres que lutaram bravamente como aviadoras do país que derrotou o exército nazista e mudou o curso da guerra.

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