
Enviado por Felipe A. P. L. Costa
‘É preciso ensiná-lo a ver’
Por Simone de Beauvoir [1]
1.
O pano ergueu-se, Régine inclinou-se e sorriu; sob as luzes do grande lustre, manchas rosadas borboleteavam por cima dos vestidos multicores e paletós escuros; em cada rosto havia olhos e, no fundo de todos esses olhos, Régine inclinava-se e sorria; o fragor das cataratas, o troar dos aludes enchiam o velho teatro; uma força impetuosa arrancava-a da terra e lançava-a ao céu. Inclinou-se novamente. O pano desceu e ela sentiu na sua mão a de Florence; largou-a com vivacidade e encaminhou-se para a saída.
– Cinco chamadas ao palco, muito bem – disse o diretor.
– Para um teatro de província, é bom.
Ela desceu os degraus que conduziam ao foyer. Esperavam-na com flores; de chofre, ela voltou à terra. Quando estavam sentados no escuro, invisíveis, anônimos, não se sabia quem eram; era possível imaginar-se diante de uma assembléia de deuses; mas logo que a gente os via um por um, achava-se em frente de pobres-diabos sem importância. […]
2.
– E que fim levou o seu faquir? – disse Laforêt.
Régine encheu, sorrindo, os copos de porto.
– Ele vai ao restaurante duas vezes por dia, usa ternos comprados feitos e é tão enfadonho quanto um empregado de escritório. Curei-o demasiado bem.
Roger virou-se para Dulac.
– Em Rouen encontramos um pobre iluminado que se acreditava faquir. Régine resolveu curá-lo.
– E conseguiu? – perguntou Dulac.
– Ela consegue sempre o que empreende – disse Roger. – É uma mulher perigosa.
Régine sorriu.
– Desculpem-me um instante, vou ver em que ponto está o jantar. […]
3.
Durante um instante, Régine permaneceu imóvel à entrada do quarto; abarcou num olhar o cortinado vermelho, as vigas do teto, a cama estreita, os móveis de madeira escura, os livros arranjados na prateleira; depois fechou a porta e avançou até o meio do estúdio.
– Eu me pergunto se Fosca vai gostar desse quarto – disse ela.
Annie ergueu os ombros.
– Para que tanto trabalho com um homem que olha as pessoas como se fossem nuvens? Não verá nada.
– Exatamente, é preciso ensiná-lo a ver – explicou Régine. […]
*
Nota
[1] Simone [Lucie-Ernestine-Marie Bertrand] de Beauvoir (1908-1986). Os trechos acima – extraídos do blogue Poesia contra a guerra – integram o livro Todos os homens são mortais (Tous les hommes sont mortels; Gallimard, 1946). A tradução é de Sérgio Milliet (1898-1966).
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