A poeta, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson, de 76 anos, venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026. O anúncio foi feito às 8h (horário de Brasília) desta quinta-feira (8) pela Academia Sueca, em Estocolmo.
A instituição justificou a láurea “por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea“. Considerado a honraria mais prestigiosa das letras mundiais, o prêmio concede ao vencedor 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6 milhões).
Ingrid Carlberg, secretária permanente da Academia Sueca, relatou ter comunicado a vitória à autora por telefone momentos antes da divulgação oficial.
“Nós não tivemos muito tempo para conversar. Ela só teve tempo de me dizer que, no momento, ela está na Islândia ouvindo o vento“, disse Carlberg. A secretária acrescentou que Carson estava “surpresa” e “muito feliz“.
Nascida em Toronto em 1950, a escritora possui cidadania canadense e islandesa e vive em Michigan, nos Estados Unidos. Com o anúncio, Carson torna-se a 19ª mulher a conquistar o Nobel de Literatura e a terceira cidadã nascida no Canadá a receber a honraria, sucedendo Alice Munro (2013) e Saul Bellow (1976).
Fronteiras diluídas e diálogo com os clássicos
Classicista com mais de três décadas de docência universitária, Carson é reconhecida pela crítica por dissolver as fronteiras entre os gêneros literários, alternando entre poesia, narrativa, ensaio e tradução. Sua estreia ocorreu em 1986 com “Eros, o doce-amargo“, fruto de sua tese de doutorado sobre a natureza do desejo, que toma emprestado um conceito do universo lírico de Safo.
A autora traduziu do grego antigo obras de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, conferindo-lhes dicção contemporânea. Em sua versão de “Antígona“, intitulada “Antigonick“, Carson expõe a tensão entre o poder estatal e a consciência individual, introduzindo elementos anacrônicos e o personagem silencioso Nick.
“O pensamento começa com frases para mim. Frases dos outros geralmente são melhores, porque são inesperadas. Ou porque propõem um ângulo diferente, sacodem ou racham a superfície. Assim eu consigo encontrar um caminho“, afirmou Carson em entrevista concedida em abril deste ano.
Famosa por sua reserva e pela recusa frequente em conceder entrevistas presenciais, a escritora explicou certa vez sua concepção de linguagem ao jornal britânico The Guardian: “Se prosa é uma casa, poesia é um homem pegando fogo atravessando bem rápido a casa.“
Trajetória editorial no Brasil
No Brasil, Carson estreou em 2017 com “O método Albertine” (Edições Jabuticaba). Atualmente, seus títulos são publicados no país por quatro casas editoriais: Editora 34, Bazar do Tempo, Relicário e Jabuticaba.
Entre as obras publicadas no mercado brasileiro destacam-se “Autobiografia do vermelho” (Editora 34), romance em versos que reinterpreta o mito do monstro Gerião no contexto da América do Norte contemporânea, e “Vidro, ironia e deus” (Relicário), cujo poema de abertura acompanha a tentativa de superação do término de um relacionamento em interlocução com a vida da escritora Emily Brontë.
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