10 de junho de 2026

As intermitências da morte ou do autoritarismo, por Bruno Alcebino da Silva

Artigo relacionando a obra "As Intermitências da Morte" de José Saramago com o avanço da extrema direita mundial

As intermitências da morte ou do autoritarismo

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por Bruno Fabricio Alcebino da Silva

A contemporaneidade, caracterizada por uma complexa teia de eventos e transformações, não deixa de apresentar um fenômeno político global que desperta crescente preocupação: o notável crescimento do autoritarismo. Este autoritarismo, muitas vezes personificado em movimentos de extrema direita, têm permeado diversas esferas políticas, ganhando terreno em diferentes cantos do mundo. Nesse contexto, a análise das conexões entre esse avanço e obras literárias notáveis, como o romance “As Intermitências da Morte” [2005] do proeminente autor português José Saramago, revela-se não apenas pertinente, mas essencial para compreendermos as sutilezas e implicações desse fenômeno nas sociedades contemporâneas.

Em sua obra notável, Saramago oferece uma narrativa singular que mergulha nas consequências da suspensão da morte em um mundo fictício. Com sua prosa característica, o autor guia o leitor por uma trama complexa, onde a imortalidade, surpreendentemente, se revela como um fardo insuportável. Os personagens são confrontados por dilemas éticos e emocionais, enquanto Saramago tece críticas perspicazes à burocracia e à frieza do sistema. Mais do que uma simples obra de ficção, o livro transcende seus limites, provocando reflexões profundas sobre a vida, a morte e a condição humana.

O avanço da extrema direita

Os teóricos da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer, já diziam em sua obra magistral “A dialética do esclarecimento” [1944] que: “A transformação da inteligência em estupidez é um aspecto tendencial da evolução histórica”. Diante disso, podemos observar um crescimento tendencial do extremismo de direita no continente europeu, apesar da experiência histórica dos regimes nazifascista, na Alemanha e Itália respectivamente. O impacto desses regimes foi brutal na região na primeira metade do século passado. À vista disso, o avanço autoritário vem impactando o mundo nos últimos anos: a extrema direita global conseguiu se impor como força política de massas nos EUA, Europa, Ásia e América Latina, chegando inclusive a compor governos e gabinetes de presidentes e primeiros-ministros. Podemos observar esse fenômeno com a eleição de Viktor Orbán (2010) na Hungria, Donald Trump (2016) nos EUA, Jair Bolsonaro (2018) no Brasil, Giorgia Meloni (2022) na Itália e Javier Milei (2023) na Argentina, dentre vários outros espalhados pelo globo.

Adorno e Horkheimer, ao analisarem o avanço autóritario no século passado já pontuavam que: “Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia?” (1985, p.99). É justamente esse movimento de avanço da extrema direita, motivado em grande parte pela incapacidade das democracias realmente existentes de reverterem as consequências de recorrentes crises sistêmicas na vida das pessoas que observamos hoje.

O fenômeno se manifesta agora, diante da Guerra na Ucrânia, que impacta o continente com elevações da inflação a partir da alta do preço do petróleo e da energia. Por exemplo, na Polônia, o partido Lei e Justiça (PiS) tem recebido críticas por minar a independência judicial, limitar a liberdade de imprensa e perseguir minorias. Na Hungria, de forma análoga, o primeiro-ministro Viktor Orbán tem sido alvo de reprovação por minar a independência da mídia e do judiciário, além de restringir a liberdade acadêmica e os direitos das minorias.

O avanço autoritário representou o retorno a práticas patrimonialistas, corruptas, preconceituosas e até golpistas. Segundo Schwarcz (2019, p. 19): “Naturalizar a desigualdade, evadir-se do passado, é característico de governos autoritários que, não raro, lançam mão de narrativas edulcoradas como forma de promoção do Estado e manutenção do poder”. À vista disso, há preocupações sobre o surgimento de movimentos nacionalistas e de extrema direita em toda a Europa, mas não só lá, que muitas vezes promovem uma retórica anti-imigração e anti-islâmica, além de questionar a integração europeia e a cooperação internacional.

Esse fenômeno não é exclusivo da Europa, estendendo-se também à América Latina. No Brasil, o surgimento do bolsonarismo representa um exemplo notório dessa tendência autoritária, onde a naturalização da desigualdade se entrelaça com uma retórica populista e nacionalista. O governo de Jair Bolsonaro (2019-2023) adotou discursos que, por vezes, minimizam as disparidades sociais, promovem ideias de soberania nacional e resistência às instituições internacionais, corroborando a análise de Schwarcz.

Na Argentina, o avanço neoliberal encontra expressão na figura de Javier Milei, cujas propostas econômicas prometem uma transformação radical, mas muitas vezes carecem de fundamentos realistas. O discurso de Milei, assim como o de outros líderes neoliberais, revela uma estratégia de evasão do passado e naturalização da desigualdade, buscando consolidar poder por meio de narrativas simplificadas e, por vezes, utópicas.

O paradoxo da imortalidade

O universo ficcional de José Saramago, especialmente em sua obra “As intermitências da morte”, revela-se um terreno fértil para a análise alegórica de questões contemporâneas. Neste contexto, é possível associar elementos da trama às dinâmicas do autoritarismo e da extrema direita, bem como vislumbrar reflexões sobre possíveis golpes de Estado.

No enredo saramaguiano, um país não nomeado, sob uma monarquia constitucional e com um governo de fachada, enfrenta uma reviravolta drástica: ninguém morre após a virada do dia 31 de dezembro de um ano qualquer. Essa ausência da morte desencadeia convulsões políticas, sociais, econômicas, religiosas e filosóficas, revelando a fragilidade das estruturas existentes.

O autoritarismo é sugerido pela resposta das instituições de poder diante do caos. O governo, representado pelo primeiro-ministro, busca sobreviver a qualquer custo, enquanto a igreja, simbolizada pelo cardeal, responde de maneira dogmática, negando-se a se adaptar à nova realidade. Essa resistência revela a incapacidade das instituições tradicionais de lidar com mudanças significativas, uma alegoria para a rigidez dos regimes autoritários.

A presença da “máphia”, uma entidade clandestina que trafica padecentes terminais para países vizinhos onde a morte ainda é possível, adiciona camadas à narrativa. Aqui, é possível vislumbrar a ação de grupos obscuros agindo nos bastidores, uma analogia à atuação de forças extremistas que buscam manter o controle mesmo em situações extraordinárias.

A comunicação entre o primeiro-ministro e o cardeal, marcada pela ironia e comicidade, destaca a superficialidade das respostas dadas pelas instituições. O diálogo satiriza a incapacidade de enfrentar desafios complexos, revelando a inadequação das estruturas existentes em lidar com crises que fogem ao controle.

A utilização de letras minúsculas em palavras que, normativamente, deveriam começar com maiúsculas, simboliza a queda de prestígio e poder dessas instituições. Elas são despojadas de sua grandiosidade, tornando-se irrelevantes diante da magnitude dos eventos. Essa subversão estilística sugere uma crítica à arrogância das autoridades e à rigidez ideológica.

A analogia com a imortalidade, neste contexto, serve como um prisma através do qual podemos examinar o avanço da extrema direita em nossos tempos. Da mesma forma que a imortalidade apresenta consequências desastrosas no universo saramaguiano, a busca pela “imortalidade política” por parte dos líderes autoritários revela nuances complexas e frequentemente prejudiciais. No cerne dessa busca está a consolidação de poder de maneira duradoura, um desejo de influência que transcende os limites temporais e desafia as flutuações da política contemporânea.

O paradoxo revelado pelo romance de Saramago, onde a imortalidade, longe de trazer prosperidade, desencadeia o caos, encontra eco na dinâmica dos movimentos de extrema direita. A promessa de estabilidade, segurança e a perpetuação de uma ordem tradicional muitas vezes resulta em divisões sociais, erosão das instituições democráticas e a marginalização de grupos considerados “fora” da visão estabelecida, como os movimentos feministas, negros, indígenas e LGBT’s, dentre outros que buscam visibilidade dentro de um sistema conservador.

A resistência à mudança

Assim como os habitantes do mundo fictício de Saramago temem a imortalidade, muitos indivíduos e comunidades, influenciados por movimentos de extrema direita, encaram as transformações sociais como ameaças existenciais. A nostalgia por uma ordem passada, muitas vezes romantizada e idealizada (como os regimes militares na América Latina e o nazifascismo na Europa), converte-se em um escudo contra a incerteza do futuro. O medo da mudança, habilmente explorado pelos líderes desses movimentos, se torna um instrumento poderoso para consolidar apoio, criando uma narrativa de preservação de valores tradicionais, muitas vezes baseadas em religiões conservadoras, como os neopentecostais brasileiros, ou em movimentos conservadores, como o bolsonarismo que cria um  ponto de conexão emocional com suas bases, em face do desconhecido e do potencial caos.

No entanto, ao desvendar esse paralelo, somos desafiados a questionar até que ponto a resistência à mudança é, de fato, uma salvaguarda legítima contra a incerteza ou se, ao contrário, é uma armadilha que perpetua a estagnação e compromete a capacidade de sociedades de se adaptarem e prosperarem.

Crises econômicas e a busca por bodes expiatórios

No imenso palco da realidade global, onde se desenrolam os dramas econômicos e políticos, a interseção entre o avanço da extrema direita e as crises econômicas emerge como um capítulo preocupante e intrincado.

A análise dos vínculos entre o crescimento da extrema direita e as crises econômicas revela uma estratégia recorrente utilizada por esses movimentos para consolidar apoio e desviar a atenção dos reais desafios estruturais. Segundo a visão de Michael Lowy (2015,p. 663) “o sistema capitalista, sobretudo nos períodos de crise, produz e reproduz fenômenos como o fascismo, o racismo, os golpes de Estado e as ditaduras militares. A raiz desses fenômenos é sistêmica e a alternativa tem de ser radical, isto é, anti-sistêmica”.

À medida que movimentos autoritários se expandem, encontram nas crises econômicas uma oportunidade para impulsionar narrativas simplificadas e convincentes. Assim como no universo de Saramago, onde a imortalidade desencadeia uma série de problemas inesperados, as crises econômicas são habilmente exploradas para apresentar uma explicação fácil para os desafios enfrentados pela sociedade. A complexidade intrínseca dos problemas econômicos é reduzida a uma narrativa maniqueísta, onde o “nós contra eles” torna-se o mote, alimentando a polarização e minando a capacidade da sociedade de abraçar soluções multifacetadas.

O uso de bodes expiatórios, uma estratégia retórica comum, ressoa com a abordagem adotada pelos personagens autoritários da história. Grupos minoritários e imigrantes frequentemente se tornam alvos convenientes para a culpa, desviando a atenção da população das falhas estruturais do sistema e canalizando a insatisfação para aqueles considerados “outsiders”. A busca por bodes expiatórios não é apenas uma tática retórica, mas também uma ferramenta eficaz para desumanizar e marginalizar comunidades inteiras, consolidando assim o poder dos líderes autocráticos.

Loucura política

A ascensão da extrema direita, marcada por discursos inflamados e estratégias políticas muitas vezes controversas, suscita reflexões sobre as nuances que permeiam a ideologia desses movimentos. Em muitos casos, observa-se uma dinâmica que, sob uma aparência de racionalidade, revela-se, paradoxalmente, uma espécie de “loucura política”.

A “loucura da extrema direita” não se refere necessariamente a uma patologia individual, mas sim a uma dinâmica coletiva que se desdobra em ações e políticas marcadas por extremismo, intolerância e uma tendência a simplificar questões complexas. A retórica incendiária, por vezes baseada em teorias conspiratórias e preconceitos, caracteriza esse fenômeno, contribuindo para uma polarização exacerbada na sociedade.

A rejeição à diversidade, a busca por bodes expiatórios, a resistência a mudanças progressistas e a adesão a narrativas simplistas são elementos que, quando observados em conjunto, delineiam uma lógica que, para alguns, pode parecer desconectada da realidade. A “loucura” aqui não se manifesta como um distúrbio mental individual, mas sim como um conjunto de ideias e práticas que desafiam a lógica democrática e os princípios de respeito à pluralidade. Em um mundo marcado pelas intermitências da morte ou do autoritarismo, a reflexão se torna crucial para compreendermos e confrontarmos os desafios que permeiam nossa sociedade.

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor. HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos; tradução: Guido Antonio de Almeida. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

LOWY, Michael. Conservadorismo e extrema-direita na Europa e no Brasil. Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 124, p. 652-664, out./dez. 2015

SARAMAGO, José. As Intermitências da Morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


Bruno Fabricio Alcebino da Silva – Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC. Pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

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