4 de junho de 2026

O cântigo negro, de José Régio

Enviado por Jns

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                    “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
                    Estendendo-me os braços, e seguros
                    De que seria bom que eu os ouvisse
                    Quando me dizem: “vem por aqui!”
                    Eu olho-os com olhos lassos,
                    (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
                    E cruzo os braços,
                    E nunca vou por ali…
                    A minha glória é esta:
                   Criar desumanidades!
                   Não acompanhar ninguém.
                   — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
                   Com que rasguei o ventre à minha mãe
                   Não, não vou por aí! Só vou por onde
                   Me levam meus próprios passos…
                   Se ao que busco saber nenhum de vós responde
                   Por que me repetis: “vem por aqui!”?

                   Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
                   Redemoinhar aos ventos,
                   Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
                   A ir por aí…
                   Se vim ao mundo, foi
                   Só para desflorar florestas virgens,
                   E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
                   O mais que faço não vale nada.

                   Como, pois, sereis vós
                   Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
                   Para eu derrubar os meus obstáculos?…
                   Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
                   E vós amais o que é fácil!
                   Eu amo o Longe e a Miragem,
                   Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

                   Ide! Tendes estradas,
                  Tendes jardins, tendes canteiros,
                  Tendes pátria, tendes tetos,
                  E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
                  Eu tenho a minha Loucura !
                  Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
                  E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
                  Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
                  Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
                  Mas eu, que nunca principio nem acabo,
                  Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

                  Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
                  Ninguém me peça definições!
                  Ninguém me diga: “vem por aqui”!
                  A minha vida é um vendaval que se soltou,
                  É uma onda que se alevantou,
                  É um átomo a mais que se animou…
                  Não sei por onde vou,
                  Não sei para onde vou
                  Sei que não vou por aí!

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista “Presença”, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta, que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

Fonte: http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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4 Comentários
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  1. jns

    12 de maio de 2015 7:58 pm

    Búfalos

     

    Manada de búfalos Wallpapers

    Imagens da Internet

  2. Anna Dutra

    12 de maio de 2015 10:43 pm

    GGN
    GGN,
    acerto necessário no título: de “cantigo” para “cântico”.

  3. Maria Luisa

    13 de maio de 2015 7:30 am

    Eu amo o longe e a miragem

    Cavalheiro da [des]esperança, como nos não iremos por ali, tais quais bufalos perdidos, nos voaremos longe, livre que queremos ser. 

    Pede uma benção ao poeta, deita na varanda, escuta isso aqui e deixe a alma vagar.

    [video:https://youtu.be/sseJF-pDfls%5D

  4. Anna Dutra

    13 de maio de 2015 11:09 am

    Só Amor
    Filosofia do Amor

    As nascentes se misturam com o rio
    E os rios com o oceano,
    Os ventos do céu sempre se misturam
    Com uma doce emoção;
    Nada no mundo está sozinho
    Tudo por uma lei divina
    Em um espírito se encontra e se mescla.
    Por que não eu e tu?

    Vejo as montanhas beijando o céu
    E as ondas abraçarem-se umas às outras;
    Nenhuma flor-irmã será perdoada
    Se desprezar seu irmão;
    E o sol abraça a terra
    E os raios da lua beijam o mar
    De que vale toda essa obra
    Se tu não me beijas?

    Love’s Philosophy

    The fountains mingle with the river
    And the rivers with the ocean
    The winds of heaven mix for ever
    With a sweet emotion;
    Nothing in the world is single
    All things by a law divine
    In one another’s being mingle
    Why not I with thine?

    See the mountains kiss high heaven
    And the waves clasp one another;
    No sister-flower would be forgiven
    If it disdain’d its brother;
    And the sunlight clasps the earth
    And the moonbeams kiss the sea
    What are all these kissings worth
    If thou kiss not me?

    PERCY BYSSHE SHELLEY  (1792 – 1822)

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